sexta-feira, 15 de maio de 2026

Eventual saída de Flávio é boa notícia para lideranças evangélicas, por Juliano Spyer

Folha de S. Paulo

Michelle e grandes pastores poderão entrar de cabeça na corrida

Tarcísio era preferido, agora eles avaliam apoiar Zema ou Caiado

As principais lideranças evangélicas do país avisaram. Bateram o pé. Flávio é o nome mais vulnerável para representar o bolsonarismo na eleição presidencial. Foram ignorados.

Malafaia foi o mais direto. Em janeiro, disse que Flávio não tinha "musculatura" e que o anúncio da candidatura foi um "amadorismo político". Falou ainda que Flávio "arrancou" a candidatura do pai fragilizado na prisão, sem consultar o partido nem as lideranças do campo.

Com o crescimento do apoio a Flávio nas pesquisas, ele e outras lideranças de grandes denominações ficaram no compasso de espera. Denúncias como esta cobrariam um preço reputacional de quem se aproximasse cedo demais.

O material que agora complica a vida do senador foi publicado nesta quinta pelo Intercept Brasil. No áudio, o tom é de súplica. O senador cobrava o pagamento de parcelas para a produção de "Dark Horse", o filme sobre Jair Bolsonaro.

As mensagens mostram que o contato ocorreu em 16 de novembro de 2025 —um dia antes de Vorcaro ser preso pela Polícia Federal enquanto tentava deixar o país. O ex-banqueiro teria transferido R$ 61 milhões para o projeto.

Nas mensagens, os dois se tratam com intimidade. Vorcaro abre com "Fala, irmãozão". Flávio responde: "Irmão, estou e estarei contigo sempre, não tem meia conversa entre a gente." Vorcaro já estava sendo investigado desde meados do ano.

Em nota, Flávio confirmou a autenticidade da conversa, mas negou qualquer irregularidade. Disse ser apenas "um filho, procurando patrocínio privado para um filme privado sobre a história do próprio pai". Disse que não ofereceu ou recebeu vantagens.

A chapa Tarcísio de Freitas e Michelle Bolsonaro era o consenso entre os grandes pastores —a composição mais viável para apresentar aos fiéis e disputar com Lula a presidência.

Tarcísio não é evangélico, mas é católico, e tem um perfil atraente para esse segmento: cordial, técnico, com reputação de quem faz as coisas acontecerem e à vontade no discurso cristão. Michelle complementa trazendo interlocução com mulheres conservadoras, inclusive as de perfil popular.

Como Tarcísio não se descompatibilizou —o prazo era abril—, parte desses líderes avalia declarar apoio a Zema ou Caiado.

O nome de Michelle volta a circular. Para aceitar uma vaga de vice, ela precisaria do aval do marido —ou decidir de forma unilateral. As duas hipóteses são improváveis.

Ainda assim, a ex-primeira-dama é a que mais se beneficiaria de uma eventual mudança de curso: seria consultada, chamada a opinar e teria peso para indicar nomes. Foi ela quem recomendou o nome da senadora Damares Alves como ministra do governo de Jair.

A possível saída de Flávio do páreo talvez esteja sendo celebrada pela esquerda como uma boa notícia. Não é. Lideranças religiosas —não apenas Michelle— que tinham interlocução ruim com Flávio agora têm a chance, a motivação e o tempo para entrar de cabeça na corrida.

 

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