Uma questão sempre me acompanhou e ela tem que ver com a influência das ideias marxistas na construção da cultura contemporânea. Pensadores, estrategistas políticos, artistas plásticos, escritores, cineastas, pesquisadores das ciências – foram muitos os homens da intelligentsia atraídos pelas propostas que Karl Marx e Friedrich Engels começaram a esboçar no célebre Manifesto do Partido Comunista, de 1848. E que, posteriormente, Marx aprimoraria, no tocante à sua concepção do desenvolvimento das ideias, no seu livro Teses sobre Feuerbach, quando estabelece os vínculos entre teoria e prática – a práxis, justamente.
Um ponto merece ser destacado na análise desse fenômeno das ideias, qual seja, a importância do Humanismo como traço de união entre todos os intelectuais e artistas comprometidos com o conhecimento e as mudanças que ele pode provocar na vida social e das pessoas em geral. Uma tendência que já se manifestou na época do Renascimento italiano, essa revolução cultural da burguesia nascente, valorizando o lugar do indivíduo na História.
Sob essa ótica, à prática da liberdade, tão fundamental para os criadores de cultura, vem-se somar a luta por uma sociedade mais justa e com as mesmas oportunidades de crescimento material e espiritual para todos os seres humanos. O nome disso talvez seja também radicalidade democrática ou a Democracia em seus múltiplos desdobramentos (nos planos da cultura, da economia, da justiça social).
Nunca é demais lembrar que o marxismo é herdeiro dessa rica tradição, ainda que algumas daquelas experiências que se reivindicavam de suas propostas tenham feito tábua rasa disso.
A trajetória intelectual e de vida do húngaro Karl Mannheim se inscreve, de alguma maneira, na marcha ao mesmo tempo libertária e erudita do arcabouço marxista, sempre dialogando com outras correntes de pensamento, como aquela representada por Max Weber. É para isso que aponta o livro que o leitor tem em mãos, intitulado Mannheim e a questão dos intelectuais, de autoria de André Malina.
Em trabalho anterior, o ensaísta já havia se debruçado sobre o legado de Antonio Gramsci, igualmente relacionado à questão dos intelectuais. Não por acaso, o autor apresenta este livro como uma “continuidade” do primeiro, iniciando seu estudo com uma caracterização do papel da intelectualidade no interior da sociedade. Tanto Mannheim quanto Gramsci dão aos intelectuais um estatuto singularíssimo, sinalizando para o fato de que, do ponto de vista conceitual, a camada intelectual tem praticamente o mesmo valor de uma classe social para o entendimento das estruturas sociais. Conforme observou o pensador palestino Edward Said – e ele o fez com extraordinária acuidade – o setor intelectual pode e deve ser elevado à condição de uma categoria analítica de peso. O que não significa – e o caso de Mannheim estudado aqui chega a ser quase didático – que o intelectual seja alguém “livremente flutuante” entre as classes sociais.
E de uma categoria analítica de corte
universalizante. Eis o que vai explicar a presença da intelectualidade na
construção da modernidade em todos os continentes, em diferentes quadras
históricas.
No epicentro disso, muitas vezes, se formos nos ater ao século XX, estão os partidos comunistas da III Internacional fundada por Vladimir Lenin e seus companheiros em 1919. O próprio Karl Mannheim fez a sua iniciação cultural em um círculo de estudos coordenado por György Lukács em Budapeste, capital da Hungria, no bojo da revolução comandada por Béla Kun, exatamente em 1919. Desse grupo ainda faziam parte Karl Polaniy e Arnold Hauser, dois intelectuais de grande valor. Com a queda de Béla Kun, Karl Mannheim buscou refúgio na Alemanha. Em tempo: György Lukács era vice-ministro da Cultura do governo da República Soviética Húngara, derrotado após uma invasão romena e a consequente subida ao poder do almirante Horthy, que instaurou no país o reino da tortura, da barbárie absoluta.
As vicissitudes da História não escaparam ao olhar atento de André Malina, que se debruça sobre a obra de Karl Mannheim a partir dos diferentes deslocamentos a que o pensador é obrigado a operar em sua existência, pontuando assim o quanto suas andanças marcariam suas reflexões, e isso desde a sua estadia em um campo de refugiados em Viena, na Áustria. Prova disso, por exemplo, é o capítulo em que examina a passagem de Mannheim pela Escola de Frankfurt e seu contato com alguns de seus maiores representantes (a saber: Max Horkheimer, Norbert Elias e Leo Lowenthal, esses dois últimos seus assistentes). Como o autor indica, cabe buscar compreender a trajetória de Mannheim como “um intelectual inserido na própria questão dos intelectuais”.
Acredito que seja importantíssimo, se
queremos conhecer o Humanismo de nossa época, operar um estudo de conjunto
sobre a presença ativa da intelectualidade ao redor do mundo. Conhecer as
causas que motivaram seus engajamentos, resistindo muitas vezes a ditaduras de
todo o tipo. De Oscar Niemeyer a Charles Chaplin, passando por Ernst Bloch,
José Carlos Mariátegui, Nazim Hikmet, Louis Aragon, Jacques Roumain, José
Saramago, Pablo Neruda, Serguei Eisenstein, Diego Rivera e Pablo Picasso, os
maiores criadores modernos se envolveram com a causa da liberdade humana. E
este livro de André Malina esclarece aspectos importantes desse envolvimento. O
próprio Karl Mannheim, já estabelecido como professor na Alemanha, teve de
fugir depois daquele país quando da ascensão dos nazistas ao poder,
refugiando-se então na Inglaterra.
André Malina traça um panorama econômico da Alemanha no momento da chegada de Mannheim extremamente útil para que o leitor entenda melhor a época, com a inflação começando a subir no telhado, de grande auxílio para a contextualização da própria questão cultural e do papel dos intelectuais.
O fato é que os temas abordados por estudiosos da qualidade de Karl Mannheim abrem um leque considerável de conhecimentos para cada um de nós, atingindo áreas fundamentais da ação humana, com foco na teoria da cultura e na sociologia do conhecimento. Conforme acentua André Malina, “o termo intelectual é recente, a função intelectual não”. Outro ponto de interesse do livro tem que ver com a recepção dos trabalhos de Karl Mannheim entre nós, com destaque para as opiniões do sociólogo Florestan Fernandes.
Por tudo isso, estou plenamente convencido da
importância para o público brasileiro de conhecer a obra de Karl Mannheim,
húngaro, judeu, homem profundamente marcado pelas lutas do seu tempo.
A participação dos intelectuais no processo de liberação política revelava que nem tudo poderia ser reduzido ao conflito classe contra classe, já que esse setor da sociedade apontava para o peso crescente das camadas médias. É o caso de se interrogar, ainda, se o declínio da concepção marxista (ou mais exatamente comunista, até) no mundo não se fez acompanhar pelo declínio, igualmente, da atividade cultural em diversos países, incluindo aí o Brasil de hoje. Ou o conhecimento não é fruto das relações que o indivíduo estabelece com o mundo exterior a ele? "Todas as questões humanas influem sobre a produção ", já vaticinava Marx. A Cultura naturalmente é uma delas.
André Malina percebe, com agudeza, o quanto a
obra de Mannheim é uma obra fronteiriça, ou seja, situando-se entre a
sociologia e a filosofia. E, também, entre o saber acadêmico e a atividade
política. Com Karl Mannheim, aprendemos que o fato de o intelectual estar
inserido numa sociedade de classes não significa que ele não tenha uma forma
específica de inserção, relativa ao seu encontro com seus pares. Mannheim, com
as limitações próprias a toda e qualquer obra, deu uma grande contribuição à
cultura moderna.
Além do que, mais vale um idealismo criativo do que um materialismo obtuso, e eu creio ter ouvido isso certa vez de um calejado...marxista brasileiro, Armênio Guedes. Como a nossa memória por vezes falha, fica aqui o registro por minha conta e risco. Tenho a convicção de que, por intermédio das análises contidas nesse Mannheim e a questão dos intelectuais, a própria intelectualidade brasileira enriquecerá ainda mais seus conhecimentos e compromissos com a causa da Cultura, este outro nome da liberdade.
*Ivan Alves Filho, historiador

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