Não é papel do governo financiar carros e táxis novos
Por O Globo
Bondade para taxistas e motoristas de
aplicativo é danosa à vida nas cidades, ao meio ambiente e às contas públicas
Na mais recente medida eleitoreira, com o objetivo indisfarçável de melhorar os índices de popularidade do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, o governo anunciou um programa para beneficiar taxistas e motoristas de aplicativo. Criado por meio de Medida Provisória, ele permitirá financiar em até seis anos a compra de qualquer veículo de até R$ 150 mil com juros camaradas. Os empréstimos serão fornecidos pelo BNDES por meio da rede bancária. A conta para o Tesouro é estimada em R$ 30 bilhões — e será paga integralmente pelo contribuinte.
Os governistas calculam que serão vendidos de
200 mil a 300 mil automóveis. O valor, diz o governo, permitirá a compra de
carros mais confortáveis, para proporcionar corridas mais rentáveis. Os juros
estão previstos em 12,6% ao ano para homens e 11,5% para mulheres. O governo
justifica a diferença pela intenção de reforçar a presença feminina no setor. É
evidente que a medida agradará a taxistas e motoristas de aplicativos. Menos
evidente, mas bem mais grave, será seu custo. Haverá prejuízo para a vida nas
cidades, o meio ambiente e as contas públicas.
Do ponto de vista urbanístico, não tem nexo o
BNDES, banco que deveria se dedicar ao fomento de setores estratégicos ou
inovadores, investir na renovação de frota de carros. Isso vai na contramão da
necessidade da população, pois estimula o transporte individual em detrimento
do coletivo — que caiu de 49,8% das viagens urbanas em 2017 para 31,7% em 2024,
segundo a Confederação Nacional do Transporte (CNT). A decadência do transporte
público se traduz em ruas abarrotadas de automóveis e em tempos maiores de
deslocamento.
Outro efeito indesejado é aumento da emissão
de gases. Embora o programa também se destine a veículos elétricos ou híbridos,
não há restrição aos movidos por combustíveis fósseis, em mais um estímulo à
poluição ambiental nas cidades. Os R$ 30 bilhões teriam destino bem mais
sensato se financiassem ônibus elétricos, metrôs ou VLTs para ajudar a
desafogar as cidades e reduzir as emissões. Em vez disso, o que parece
preocupar mais o governo é se o passageiro ficará parado no trânsito num
carro mais confortável.
Por fim, o impacto fiscal é incontornável. A
fatura do agrado se somará à lista crescente de bondades eleitoreiras, como o
programa para renegociação de dívidas de famílias, micro e pequenas empresas; a
expansão do Minha Casa, Minha Vida para a classe média; a revogação da “taxa
das blusinhas”; a isenção ou redução de Imposto de Renda; e as inúmeras
manobras para tentar conter o preço dos combustíveis. Por alguns cálculos, toda
essa conta ultrapassará R$ 150 bilhões.
Nenhum desses programas deriva de estudos
sérios de políticas públicas. São feitos sob medida para conquistar públicos
que se mantêm arredios a Lula. Não é coincidência que vários se voltem à classe
média, setor em que ele perde popularidade. O próprio programa para taxistas e
motoristas de aplicativos tenta fisgar um eleitor não muito amigável ao
petista. Pelo menos o ministro da Secretaria-Geral da Presidência, Guilherme
Boulos, foi honesto ao descrevê-lo como “pacote de pai para filho”.
Evidentemente, Lula não é o primeiro nem o único presidente a usar a máquina
pública para distribuir afagos em busca de apoio. Mas isso não o redime. As
eleições passam, e os efeitos de políticas irresponsáveis ficam.
Senado tem de rejeitar PL com agrados a
partidos aprovado pela Câmara
Por O Globo
Proposta está recheada de benefícios
descabidos, como anistias, suspensão de processos e redução de multas
Cabe aos senadores corrigir o erro cometido
pelos deputados na terça-feira ao aprovar o Projeto de Lei (PL) 4.822/2025, uma
minirreforma eleitoral recheada de benefícios descabidos a partidos políticos,
como anistias, suspensão de processos, redução de multas e permissão para
disparo em massa de mensagens. Cumprindo o papel de Casa revisora, o Senado
deve barrar esse despropósito, eliminando o risco de retrocesso para o sistema
partidário e para a integridade das eleições. É escandaloso que o PL tenha resultado
de um amplo acordo pluripartidário.
De acordo com o texto, serão suspensos todos
os processos administrativos e judiciais dos partidos durante a apreciação de
pedidos de fusão. Uma vez concluída a união, as legendas estarão livres de
suspensão ou bloqueio de repasses de recursos do fundo partidário devido a
penalidades anteriores. Portanto, se o PL não for barrado no Senado, as fusões
se tornarão uma alternativa fácil para partidos escaparem de punições — em vez
de um alinhamento desejável e necessário para reduzir a fragmentação
partidária, formado com base em confluência ideológica.
O PL prevê ainda que, se o julgamento das
contas de um partido não for concluído em três anos, o processo será extinto. O
texto limita a multa aplicável pela rejeição das contas a meros R$ 30 mil — e
não mais a 20% da parcela irregular, com devolução obrigatória do dinheiro. E
estabelece um prazo extenso, de 15 anos, para renegociação das dívidas das
legendas. Débitos em execução ou novos débitos poderão ser parcelados em até
180 meses, independentemente do valor e a critério do partido. Que empresa em
operação no Brasil pode desfrutar condições tão generosas?
Uma das maiores punições aplicadas a partidos
que violam regras é perder dinheiro em período eleitoral. Trata-se de um
incentivo a que estejam em dia com a legislação. Mas o PL quer acabar com isso
ao prever que, no semestre eleitoral, não haverá “em nenhuma hipótese”
suspensão de repasse dos fundos partidário e de financiamento de campanha ou
desconto de valores a título de devolução por condenações anteriores. Entre as
outras medidas sem cabimento, estão equiparar fundações dos partidos a faculdades,
podendo cobrar mensalidade, e a flexibilização das regras para disparo de
mensagens em massa por aplicativos.
Quando o Congresso examina projetos que atingem os próprios congressistas, é sempre aconselhável proceder com cautela. No PL aprovado pela Câmara, não houve nenhuma. O texto do deputado Pedro Lucas Fernandes (União-MA), cujo relator foi o deputado Rodrigo Gambale (Podemos-SP), pulou a fase das comissões para ser examinado como urgente, e a votação foi simbólica, sem registro do nome dos votantes. Por se tratar de tema tão complexo, é um sinal eloquente de que algo de estranho acontecia. O Senado precisa cumprir seu papel e rejeitá-lo sem demora.
Galípolo eleva o nível do debate sobre juros
altos
Por Folha de S. Paulo
Inflação superou o teto em 4 dos últimos 6
anos, evidenciando que taxas não subiram além do necessário
A verdadeira questão é por que a política
monetária é menos eficaz no Brasil; expansão dos gastos públicos é a explicação
mais óbvia
A gestão de Gabriel Galípolo no Banco Central deveria
bastar para desacreditar teorias conspiratórias a respeito das taxas de juros brasileiras,
de fato historicamente acima dos padrões globais.
Afinal, com uma cúpula de maioria indicada
por Luiz Inácio Lula da
Silva (PT),
o BC mantém há quase um ano e meio as mesmíssimas diretrizes de política
monetária herdadas da diretoria nomeada por Jair
Bolsonaro (PL) e satanizada pelos
petistas —o que implica manter a taxa Selic no
nível necessário para buscar a meta de inflação,
mesmo com sacrifícios para a atividade econômica.
Na terça-feira (19), o próprio Galípolo deu
argumentos adicionais e cabais contra teses que atribuem os juros altos a taras
ortodoxas ou a algum conluio entre o órgão e o mercado financeiro.
Em audiência no Senado, o presidente do BC
apontou que, apesar de conviver com taxas superiores às da maioria dos países,
o Brasil teve inflação
acima do teto em 4 dos últimos 6 anos. Logo, como disse, a política
monetária não foi mais rigorosa que o necessário. Pelo contrário.
Acrescente-se que os objetivos aqui fixados
para o IPCA —variando de 4% com tolerância de 1,5 ponto percentual em 2020 a 3%
mais 1,5 ponto em 12 meses atualmente— nada têm de anômalos ou draconianos.
Nesse período, o país e o mundo passaram por
quatro grandes choques de oferta: a pandemia, o tarifaço de Donald Trump e as
guerras na Ucrânia e no Irã. E a política de juros teve flexibilidade para não
tentar cumprir as metas de inflação a qualquer custo. Buscou-se, na verdade,
evitar um descontrole que seria trágico para o poder de compra da população,
sobretudo a mais pobre.
Mas, se esses dados desmontam discursos
politiqueiros, não são suficientes para esgotar o tema. Como também apontou
Galípolo, cumpre debater "por que no Brasil o esforço da política
monetária é maior para se conseguir o mesmo que em outros países".
A explicação mais óbvia, embora não
necessariamente a única, é a expansão do
gasto público, que ganhou força no final do governo Bolsonaro e foi
acelerada por Lula. Não apenas se estimula a demanda acima da capacidade de
oferta, pressionando a inflação, como se geram déficits orçamentários que levam
o mercado credor a exigir taxas mais altas para financiar o Estado.
Outros fatores podem agravar o quadro, como o
elevado volume de crédito com taxas favorecidas a setores como habitação,
agropecuária e indústria, que não está sujeito à Selic e diminui a eficácia da
política monetária. Há ainda muita indexação formal e informal na economia, o
que pode perpetuar altas de preços.
Deve-se mencionar, por fim, a necessidade de
consolidar a confiança no BC, que só há cinco anos ganhou autonomia na forma de
mandatos para seus dirigentes. Ataques demagógicos de governantes aos juros só
fazem elevar temores de retrocesso que dificultam o combate à inflação.
Fiscalização nula trava avanço da moradia
popular em SP
Por Folha de S. Paulo
CPI municipal acaba sem progressos;
prefeitura precisa assumir mecanismos de controle para conter desvios
Mesmo diante de fraudes, licenças seguem
sendo concedidas em regiões nobres, que pessoas de baixa renda só frequentam para
trabalhar
Instaurada para investigar o escândalo do
desvio de finalidade de políticas de incentivo a milhares de moradias populares
em São Paulo,
a CPI da
Câmara Municipal apresentou
o seu relatório final nesta semana, o que pouco deve acrescentar
para estancar um modelo que privilegia construtoras com benesses bilionárias e
contribui para acentuar o déficit habitacional.
Concebido no Plano Diretor de 2014, ainda na
gestão Fernando
Haddad (PT), o conceito, na
teoria, era meritório: criar estímulos urbanísticos e fiscais para impulsionar
o mercado
imobiliário a produzir moradias populares em áreas valorizadas,
aproximando assim a população de baixa renda de bairros com mais
infraestrutura, emprego e transporte.
Na prática, contudo, o fomento acumulou
enormes distorções, notadamente na gestão do atual prefeito, Ricardo Nunes (MDB).
Muitos empreendedores aproveitaram o formato
—voltado, de modo geral, a famílias com renda mensal de até dez salários
mínimos— para obter isenção de taxas, flexibilização de regras e aumento do
potencial construtivo, mas sem necessariamente entregar os imóveis ao
público-alvo.
Como a prefeitura praticamente delegou às
incorporadoras a verificação da renda dos compradores, permitiu-se que
apartamentos subsidiados fossem
parar nas mãos de grandes investidores, destinados à locação de
curta temporada em plataformas como Airbnb, e até mesmo convertidos em quartos
de hotel.
Não é preciso ser arquiteto ou urbanista para
concluir que os chamados estúdios (unidades minúsculas, sem divisórias), ao
custo de centenas de milhares de reais, não teriam famílias com filhos como seu
destino final. Caberia à administração municipal, já no nascedouro do projeto,
barrar a flagrante ilicitude.
A comissão parlamentar de inquérito apontou
que a cidade deixou
de arrecadar, com as renúncias, mais de R$ 5 bilhões entre 2014
e 2025. Há mais de 926 processos de apuração de irregularidades nesses
empreendimentos, abrangendo cerca de 171 mil unidades, e a gestão Nunes diz ter
aplicado multas no quase irrisório valor de R$ 13 milhões.
Diante dos números, é insuficiente, para não
dizer questionável, pôr fim aos incentivos de moradias populares em áreas ricas
e criar um programa de regularização voluntária, como sugeriu a CPI.
Mesmo diante das fartas evidências de fraudes, tais licenças continuam sendo concedidas em regiões nobres, que pessoas de baixa renda só frequentam mesmo durante o dia —e para trabalhar, quase nunca para morar.
Isto é Flávio Bolsonaro
Por O Estado de S. Paulo
Ninguém pode se dizer surpreendido com as
mentiras em série do senador, cuja folha corrida inclui rachadinha e ligação
com milicianos. O caso Master não torna Flávio pior do que ele já era
Desde que estourou o escândalo envolvendo o
senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) e o banqueiro Daniel Vorcaro, os integrantes
da equipe de campanha do filho de Jair Bolsonaro saíram por aí a dizer que
foram surpreendidos com a revelação de que o candidato a presidente tinha
relações fraternas (e transacionais) com o protagonista do maior crime
financeiro da história brasileira. Alguns admitem que o baque pode até fazer o
campo bolsonarista escolher outro candidato.
Ora, francamente: esse escândalo não muda uma
vírgula da biografia de Flávio, na qual já figuram com destaque suas relações com
milicianos, a prática de rachadinha em seu gabinete e estranhos negócios
imobiliários em dinheiro vivo. Trata-se, portanto, de um candidato com longa
ficha corrida, que nunca foi segredo para ninguém. O caso do Banco Master não
torna Flávio pior do que ele já era.
Tampouco muda alguma coisa o fato de que
Flávio Bolsonaro mentiu seguidamente – para seus aliados, para sua equipe de
campanha e para a imprensa – a respeito de suas relações com Vorcaro. A
mendacidade é a própria natureza do clã Bolsonaro, que construiu sua trajetória
política em cima de desinformação, logro e desfaçatez. O filme sobre Bolsonaro,
a julgar pelo trailer divulgado por Flávio, é em si mesmo um retrato fiel dessa
doença congênita: inventa um Bolsonaro que só existe nos delírios da família.
Como vivemos tempos estranhos, em que mentirosos patológicos ganham destaque no
degradante mercado da atenção em que se transformou a política, chega a ser
engraçado que alguém se queixe por ter sido enganado por Flávio Bolsonaro.
Mas é preciso reconhecer que Flávio sempre
foi absolutamente honesto a respeito do espírito de sua candidatura à
Presidência: ele nunca escondeu que seu único objetivo, ao chegar ao poder, é
livrar o pai da cadeia. Governar o Brasil não está nos seus planos, como não
estava nos planos do patriarca – que terceirizou a administração do governo por
sua absoluta inaptidão ao trabalho e que vivia a lamentar o fardo de estar na
Presidência.
Ainda assim, alguns aliados de Flávio
Bolsonaro dizem por aí que acreditam na sobrevivência da candidatura do senador
e mantêm sua disposição em apoiá-lo. O fator determinante nesse cálculo é que
Flávio, a despeito de tudo, continua a aparecer nas pesquisas como o único
capaz de fazer frente ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva.
Portanto, segundo esse raciocínio, pouco
importa se Flávio envolveu-se com o protagonista do maior escândalo financeiro
da história brasileira, se tem ligação com milicianos, se tomou dinheiro de
funcionários de seu gabinete e se fez negócios obscuros em dinheiro vivo.
Também não interessa se o tal filme feito com dinheiro de Daniel Vorcaro é tão
ruim que não se pode condenar quem o considere apenas um meio de lavar
dinheiro, fazer caixa de campanha e sustentar o irmão de Flávio, o deputado
cassado Eduardo, na sua dolce
vita nos EUA. O que interessa é impedir um novo mandato de
Lula, retratado pelos bolsonaristas como o diabo em pessoa.
O Brasil não pode mais ficar à mercê dos
interesses particulares de uma única família, ainda mais quando esses
interesses colidem frontalmente com a decência e as leis. Determinada pelo
“dedazo” de Jair Bolsonaro, a candidatura de Flávio sabotou a construção de uma
chapa de oposição democrática à reeleição de Lula. E é improvável que os
Bolsonaros recuem, já que seu objetivo é impedir que a direita se organize em
torno de nomes de fora da família. A lealdade, como ocorre na máfia, é a laços
de sangue, não a valores morais e princípios republicanos ou mesmo a um projeto
de país.
Bolsonaro e sua grei não geraram nada de bom
para o País, só ressentimentos e destruição de consensos mínimos entre
concidadãos. De quebra, conseguiram a proeza de devolver o poder a Lula,
malgrado a extensa folha corrida do petista. Só por isso mereceriam do País o
mais absoluto desprezo.
Patrimonialismo despudorado
Por O Estado de S. Paulo
Sindicato de juízes reivindica para a
categoria um reajuste salarial que reponha a inflação dos últimos 20 anos. Nada
menos. Depois ficam indignados quando a sociedade reage
O patrimonialismo já nem se preocupa com
disfarces no Brasil. Prova cabal do despudor é o movimento de associações de
magistrados, procuradores e promotores contra os limites impostos pelo Supremo
Tribunal Federal (STF) aos chamados penduricalhos e em defesa de um aumento de
cerca de 55% do teto constitucional. Antes estivéssemos apenas, por assim
dizer, diante de uma reivindicação inoportuna. Na verdade, trata-se de mais uma
demonstração cabal do alheamento das guildas de representação da elite do funcionalismo
público da realidade dos contribuintes que a sustenta.
A Associação dos Juízes Federais do Brasil
(Ajufe), por exemplo, foi ao STF pugnar pelo aumento do subsídio pago aos
ministros da Corte, teto da remuneração do funcionalismo público, dos atuais R$
46,4 mil para cerca de R$ 71 mil. A Ajufe argumenta que os salários da
magistratura estão defasados pelo IPCA acumulado nos últimos 20 anos, como de
resto estão os vencimentos da esmagadora maioria dos trabalhadores brasileiros
na iniciativa privada.
A cara de pau do sindicato de facto dos juízes federais é
tão grande que a pretensão foi apresentada em meio ao debate nacional sobre os
privilégios remuneratórios do Judiciário e do Ministério Público e os
mecanismos criados por seus órgãos de classe para subverter o teto – um debate,
ressalte-se, que encontrou guarida no próprio STF, que, em fevereiro passado,
limitou os pagamentos das verbas extrateto.
Em tese, a questão da remuneração no serviço
público é plenamente legítima no debate público. Os salários dos servidores,
por óbvio, devem ser compatíveis com as responsabilidades dos cargos e com a
necessidade do Estado de atrair profissionais qualificados. O busílis é que
juízes e membros do Ministério Público figuram, há muito tempo, no topo da
pirâmide salarial do País. Não obstante, apresentam-se à sociedade como uma
massa de desvalidos, submetida a toda sorte de privações.
Essa cruzada em defesa de privilégios
classistas já seria imoral mesmo que o Brasil fosse um país de renda alta e,
principalmente, menos desigual. Mas, para adicionar insulto à injúria, o Brasil
atravessa uma crise fiscal renitente, convive com déficits anuais e vê o Estado
perder a capacidade de investimento em áreas vitais para a população, enquanto
despesas obrigatórias engessam cada vez mais o Orçamento da União. Nesse
sentido, o lobby da Ajufe e quejandas para elevar o teto constitucional é, a um
só tempo, socialmente ofensivo e economicamente imprudente.
Como se sabe, o subsídio pago aos ministros
do STF é a referência remuneratória para as carreiras do funcionalismo público,
nos Três Poderes e nas três esferas da administração. Qualquer reajuste, ainda
mais um daquela magnitude, desencadearia um efeito cascata de consequências
drásticas para o País, aumentando a pressão por aumentos salariais em cada
comarca, cada prefeitura, cada Assembleia Legislativa e cada Câmara Municipal
Brasil afora. Eis o desdém dessas associações pela coisa pública e pela própria
natureza do serviço público que seus associados prestam.
Como se nada disso bastasse, as guildas
também pressionam o STF para autorizar o pagamento de penduricalhos retroativos
antes de fevereiro passado e para eliminar o limite de 35% sobre as “verbas
indenizatórias” aprovadas por órgãos do Judiciário e do Ministério Público. Ora,
o que era inconstitucional em fevereiro, quando o STF tomou decisões para
limitar os pagamentos extratexto, era inconstitucional desde sempre. Portanto,
não há que se falar em “retroativos”. Esses pagamentos jamais teriam de ser
feitos à luz da Constituição.
Ao longo dos anos, criou-se um ecossistema de
normas e regulamentações administrativas destinado a criar e manter o pagamento
dos penduricalhos sob um verniz supostamente legal. Com base nesse arranjo,
verbas classificadas como “indenizatórias” escapam da tributação e do teto e
ainda se perpetuam como complementação de renda. O resultado, todos conhecemos:
contracheques que ultrapassam, com folga obscena, o limite claramente definido
pela Lei Maior.
O País precisa, sim, de um Judiciário e de um
Ministério Público respeitados e independentes. Mas independência é uma coisa.
Manobra para perpetuar privilégios é outra.
El Niño exige adultos na sala
Por O Estado de S. Paulo
Um ‘super’ El Niño está no radar. O Brasil já
conhece seus riscos. Falta agir como se conhecesse
O Brasil já começou a se preparar para um
novo El Niño. Ao menos no plano científico. Uma nota técnica conjunta divulgada
por Inpe, Inmet, Funceme e Censipam aponta alta probabilidade de formação do
fenômeno no segundo semestre. A intensidade ainda é incerta; os riscos não.
Seca mais severa na Amazônia e no Nordeste, temporais no Sul, pressão sobre
reservatórios, agricultura, energia, logística e inflação compõem o horizonte
de trabalho dos órgãos técnicos.
Previsões climáticas não existem para
eliminar dúvida. Servem para reduzir surpresa. Aí começa o problema brasileiro.
O El Niño sempre fez parte da dinâmica
climática do Pacífico. O contexto em que ele ocorre mudou. Oceanos mais quentes
ampliam extremos, cadeias globais operam sob tensão recorrente e choques
simultâneos passaram a se reforçar mutuamente. Fertilizantes pressionados por
conflitos geopolíticos, crédito agrícola mais caro, energia vulnerável e
eventos climáticos severos agora interagem num mesmo sistema. O resultado
aparece no custo dos alimentos, no frete, nos seguros, nos juros e nas contas
públicas.
A seca amazônica de 2023 interrompeu rotas
fluviais essenciais para abastecimento e transporte. No Sul, enchentes
destruíram estradas, cidades e infraestrutura logística. A inflação de
alimentos avançou 8,2% em 2024, impulsionada em parte importante pelo último El
Niño.
O País sabe onde rios tendem a baixar, quais
áreas urbanas inundam, quais regiões agrícolas sofrem mais com irregularidade
de chuva e quais reservatórios entram sob pressão em períodos prolongados de
calor. A ciência climática acumulou capacidade respeitável de monitoramento e
previsão. O contraste com o despreparo institucional é constrangedor.
Menos de 0,6% das emendas parlamentares
individuais ao Orçamento de 2026 foi destinado à agenda ambiental e climática.
Ações de proteção e Defesa Civil ficaram reduzidas a valores simbólicos.
Contenção de cheias recebeu R$ 1; drenagem urbana, nada. O sistema político
continua distribuindo recursos como se eventos extremos fossem acidentes
imponderáveis, e não riscos recorrentes de alto impacto econômico e social.
A distorção é mais evidente porque as emendas
costumam ser justificadas pela proximidade entre parlamentares e demandas
locais. Na prática, a lógica é outra: “regionalismo” é mero disfarce retórico
para clientelismo. Obras de retorno eleitoral imediato continuam prevalecendo
sobre infraestrutura preventiva, cujo sucesso costuma ser invisível
precisamente quando funciona.
Essa escolha cobra um preço crescente.
Reconstruir estradas destruídas, socorrer municípios inundados, renegociar
dívidas rurais, subsidiar crédito emergencial e administrar choques
inflacionários custa muito mais do que prevenção minimamente séria.
A intensidade final do próximo El Niño talvez permaneça indefinida por alguns meses. A insuficiência da preparação brasileira, infelizmente, é bastante clara. Já passou da hora de a adaptação climática deixar de ser tratada como tema periférico de política ambiental e ser incorporada ao núcleo da racionalidade econômica, da infraestrutura e da gestão fiscal.
Riscos sobem, e fluxo para o Brasil começa a
trocar sinal
Por Valor Econômico
A nova perspectiva combinada de conflito
prolongado e alta dos juros pôs em xeque os prognósticos dos investidores, de
que a guerra terminaria logo e tudo voltaria ao normal
A menos que a guerra de EUA e Israel contra o
Irã acabe logo, os mercados tendem a viver novos períodos de intranquilidade.
Os sinais disso apareceram com mais clareza nos últimos dias, quando os títulos
do Tesouro americano de longo prazo (10 e 30 anos) exibiram as maiores taxas
desde 2007, na véspera da grande crise financeira global. As raízes do problema
nada têm a ver com disfunções evidentes nos preços dos ativos ou recantos
poucos claros de negociações desreguladas, como no caso dos empréstimos
subprime, mas, sim, por um motivo mais simples: juros em alta.
Os efeitos da guerra sobre a inflação mundial
e o crescimento tendem a sobrepujar os impulsos expansionistas dos enormes
investimentos em inteligência artificial pelas big techs americanas (US$ 750
bilhões anunciados até agora) e da política de estímulos fiscais implantada
pelo presidente dos EUA, Donald Trump. Ambos, segundo boa parte dos analistas,
produziriam mais inflação de qualquer forma, mas a um ritmo muito mais
comedido, se a eles não fosse acrescentado um enorme choque do petróleo. A
guerra, que não se sabe quando acabará, exigirá uma política monetária
restritiva das principais economias, que está a caminho, segundo indicadores
dos mercados.
Os títulos do Tesouro dos EUA sinalizaram
aumento de juros, cujo detonador foi o índice de preços ao produtor de abril
(6% ao ano). Antes deles, outros sinais perturbadores haviam aparecido: o
índice de gastos pessoais do consumo, medida preferida pelo Federal Reserve,
subiu a 3,5%, e seu núcleo, a 3,2%. O índice ao consumidor (CPI) foi mais longe
ainda, 3,8% em abril, muito distante da meta de 2%.
Pressões por um aperto monetário estão por
toda parte, e são sentidas com mais força no Reino Unido, onde o governo
trabalhista, derrotado nas eleições municipais, luta para se manter à tona. No
continente, membros do Banco Central Europeu corroboram a percepção dos
investidores de que um aumento dos juros será inevitável se os custos de
energia, que se espalham para os demais preços, continuarem subindo.
A grande dúvida diz respeito ao BC mais
poderoso, o Fed americano. Na reunião de maio não havia expectativa de elevação
imediata dos fed funds, mas, sim, sobre a sinalização do futuro. Foi uma
reunião histórica, com a maior desavença já registrada em quatro décadas. A
maioria concordou em manter a taxa entre 3,5% e 3,75%, mas com uma variedade de
motivos que reflete as grandes incertezas que rondam a economia global. Dois
membros do comitê votante apontaram que não faz mais sentido deixar em aberto a
possibilidade de corte dos juros, e outro, que esse é o momento exato de se
fazer exatamente isso.
Houve discordância também sobre os efeitos
dos enormes investimentos em IA. Parte dos membros do Fed acredita que o
aumento de produtividade decorrente deles auxiliará na redução da inflação,
como crê o novo presidente, Kevin Warsh. Eles acreditam também que o desinflar
dos preços de habitação terá o mesmo efeito baixista. Já parcela mais numerosa
acredita que os investimentos na IA jogarão mais lenha na fogueira da inflação,
estimulando a demanda antes que ganhos de produtividade apareçam. Vários
apontaram que a guerra do Irã poderia se prolongar além do previsto, como está
ocorrendo, elevando a inflação que, por já estar fora da meta há anos, poderia
alimentar a nociva espiral preços-salários.
Além disso, as consequências evanescentes da
guerra tarifária de Trump sobre a inflação deixaram outra preocupação: o
aumento do déficit fiscal. Trump imaginava que as tarifas cobririam grande
parte da renúncia de impostos efetuada. As tarifas caíram na Suprema Corte e as
atuais, de 10%-15%, são muito menores do que os gravames originalmente
impostos. Seria mais um fator inflacionário hoje.
Os mercados vislumbram agora alta de juros
nos EUA. Com a oferta de petróleo minguando e os preços ao redor de US$ 110 o
barril, a crise de oferta poderá se acirrar, e a inflação também, se não houver
um acordo para encerrar o conflito. A nova perspectiva combinada de conflito
prolongado e alta dos juros pôs em xeque os prognósticos dos investidores, de
que a guerra terminaria logo e tudo voltaria ao normal. Os riscos, que já não
eram pequenos, estão aumentando.
Com isso, o dólar começa a se recuperar em
relação a outras moedas e os investidores recuam parcialmente de suas apostas
mais arrojadas. O Brasil parecia viver uma situação anômala: bolsa em alta,
dólar em baixa e afluxo abundante de capital para portfólio em meio a fortes
turbulências globais. A situação começa a mudar, e nela ingressa aos poucos a
equação eleitoral. A bolsa assiste agora à saída de recursos externos, de R$
10,5 bilhões no mês corrente, embora o saldo ainda seja de R$ 40,9 bilhões,
superior ao de R$ 25 bilhões de 2025. As cotações do dólar são hesitantes como
tendência, mas passaram dos R$ 5.
As promessas eleitorais do governo ressaltam a fragilidade das contas públicas, enquanto os pecados do principal candidato de oposição, às voltas com relacionamento suspeito com um banqueiro corrupto, indicam pouca chance de mudança para o futuro. Um cenário benigno pode dar lugar a outro, turbulento, para o qual o governo nada faz para afastá-lo.
Vias abertas na América Latina
Por Correio Braziliense
Passadas algumas décadas do ciclo de
ditaduras militares, é ainda na polarização entre o que se pode — ainda —
definir como direita e esquerda que se delimitam as disputas eleitorais na
região
Os últimos movimentos de Donald Trump em sua
ofensiva contra o regime comunista de Cuba, visto em perspectiva com outros
desdobramentos em curso na América Latina, dão toques algo mais preocupantes
quanto ao futuro político da região. No pano de fundo dos focos de tensão, que
se multiplicam, há uma polarização entre o que se pode — ainda — definir como
direita e esquerda. Passadas algumas décadas do ciclo de ditaduras militares
dos anos 1960 a 1980, é ainda nesse marco, em grande parte, que se delimitam as
disputas eleitorais que se sucedem a intervalos regulares, com maiores ou
menores turbulências.
No que diz respeito a Cuba, a Justiça dos
Estados Unidos vem de indiciar criminalmente o ex-presidente Raúl Castro, irmão
mais novo de Fidel, líder da revolução de 1959. Embora afastado de funções
práticas no regime, aos 94 anos, Raúl parece transformado em uma espécie de
troféu oportuno para justificar uma ofensiva militar destinada a virar a mesa
na ilha — em tempo para dar cacife a Trump e ao Partido Republicano nas
cruciais eleições legislativas de novembro, em que a maioria governista parece
em risco em ambas as casas do Congresso.
Talvez mais urgente seja a situação na
Bolívia, onde um levante social ameaça colocar nas cordas o recém-empossado
presidente Rodrigo Paz, um político que se impôs nas urnas com perfil de
centro-direita, mas rapidamente assumiu um perfil trumpista. Sem contestar
propriamente o resultado das urnas, as bases eleitorais da esquerda, que
governou o país por duas décadas liderada por Evo Morales, primeiro presidente
originário da maioria indígena, a esquerda marcha para a capital, bloqueando
estradas, para pressionar pela renúncia.
Em paralelo a dois pontos de ebulição,
transcorrem dois processos balizados, ao menos até aqui, pelos parâmetros
democráticos e eleitorais. No último domingo deste mês, os colombianos vão às
urnas escolher o sucessor de Gustavo Petro, ex-guerrilheiro e primeiro político
de esquerda a presidir o país em dois séculos de vida independente e
republicana. As pesquisas favorecem o candidato governista, filho de um
candidato presidencial assassinado por esquadrões de ultradireita em 1992. Dois
pretendentes de direita disputam vaga para enfrentá-lo em um possível segundo
turno.
Direita contra esquerda é o confronto marcado
para uma semana depois. Keiko Fujimori, filha do controverso ex-presidente
Alberto Fujimori, larga como favorita em sua quarta tentativa de chegar à Casa
de Pizarro. Terá pela frente, além da rejeição histórica aos desmandos e
tropelias do pai, um adversário surpresa, o deputado Roberto Sánchez, do
partido esquerdista Juntos pelo Peru. As últimas pesquisas favorecem Keiko por
39% a 35%. Lá, porém, o maior desafio vem após a posse: o último presidente a
terminar o mandato foi Ollanta Humala, em 2016.
É nesse quadro de polarização, e sob a
influência de Donald Trump — ora furtiva, ora ostensiva —, que o Brasil se
encaminha para a campanha à eleição presidencial de outubro. A Copa do Mundo
tende a se sobrepor ao debate político, por algumas semanas. Uma vez terminada,
todas as atenções estarão concentradas na disputa entre o presidente Lula, que
tenta o quarto mandato próprio (e o sexto do PT), e um adversário da direita
antipetista.
Aqui, como em toda a vizinhança imediata ou próxima, são basicamente os mesmos polos em que a sociedade se divide, com maior ou menor grau de radicalização. Em cada processo, é a maturidade do sistema democrático que está à prova.
Um piso salarial justo para os professores
brasileiros
Por O Povo (CE)
O período eleitoral, ou pré, costuma lançar
uma cortina de fumaça sobre temas que fazem parte da pauta política cotidiana e
que, muitas vezes, acabam prejudicados pela falta de atenção a eles no nível
que fazem por merecer. Por exemplo, tramita agora no Congresso Nacional uma
medida provisória que trata do reajuste do piso nacional dos professores da
educação básica e precisa receber de deputados e senadores um tratamento de
prioridade.
O alerta nesse sentido, muito oportuno, está
sendo feito pelo deputado federal cearense Idilvan Alencar (PSB) que presidiu,
no Congresso, uma comissão mista especial formada para analisar o texto enviado
pelo governo. Político de compromisso reconhecido com a causa, ex-secretário da
Educação no Ceará e em Fortaleza, ele garantiu, no âmbito de sua competência, a
celeridade necessária ao debate e o relatório final, apresentado pela deputada
Professora Dorinha (União Brasil-TO), já foi inclusive aprovado. Agora falta
uma análise e votação pelo plenário, em sessão conjunta de Câmara e Senado.
A expectativa de Idilvan, que a sociedade
deve acompanhar para fazer a cobrança devida para que se efetive, é de que a
votação aconteça no dia 1º de junho próximo, data de perda de validade da MP.
Significa que sem o novo texto aprovado valeriam as regras antes vigentes, nas
quais o reajuste salarial previsto para categoria está abaixo da inflação
registrada em 2025, ou seja, dá-se uma perda objetiva no poder de compra dentro
de uma realidade que já é de achatamento. Injustificável.
Deixar que o ambiente eleitoral contamine a
matéria seria um erro imperdoável dos comandos das casas que formam o
Congresso, já que teríamos, sem a correção que a MP sugere, uma injustiça
cometida contra milhares de profisisionais abnegados e abnegadas que se espalham
pelas escolas do País. O piso salarial nacional representa o valor mínimo que
deve ser pago aos professores da educação básica e os salários são custeados
pelas redes estaduais e municipais de ensino, com recursos provenientes do
Fundeb e complementações da União.
A proposta do governo, que os parlamentares
já aprovaram na comissão e que deveria ser igualmente abraçada de maneira
consensual pelo conjunto do Congresso, altera a base de cálculo para o reajuste
anual, elevando-o para 5,3% em 2026, portanto, acima da inflação do ano passado
que foi de 4,26%. Índice que, aplicado, fixa o piso nacional em R$ 5.130,63
para profissionais com jornada de 40 horas semanais, incluindo os professores
temporários.
O ideal é que a matéria seja aprovada sem resistência por deputados e senadores, independente da posição que cada um deles tenha acerca da disputa pelo poder. Não é questão de ser governista ou oposicionista, mas de ser justo com uma categoria profissional que merece ter uma remuneração à altura do serviço fundamental que presta às famílias e à sociedade em geral. Nem tudo é disputa pelo voto.

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