quinta-feira, 21 de maio de 2026

O que a mídia pensa | Editoriais / Opiniões

Não é papel do governo financiar carros e táxis novos

Por O Globo

Bondade para taxistas e motoristas de aplicativo é danosa à vida nas cidades, ao meio ambiente e às contas públicas

Na mais recente medida eleitoreira, com o objetivo indisfarçável de melhorar os índices de popularidade do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, o governo anunciou um programa para beneficiar taxistas e motoristas de aplicativo. Criado por meio de Medida Provisória, ele permitirá financiar em até seis anos a compra de qualquer veículo de até R$ 150 mil com juros camaradas. Os empréstimos serão fornecidos pelo BNDES por meio da rede bancária. A conta para o Tesouro é estimada em R$ 30 bilhões — e será paga integralmente pelo contribuinte.

Os governistas calculam que serão vendidos de 200 mil a 300 mil automóveis. O valor, diz o governo, permitirá a compra de carros mais confortáveis, para proporcionar corridas mais rentáveis. Os juros estão previstos em 12,6% ao ano para homens e 11,5% para mulheres. O governo justifica a diferença pela intenção de reforçar a presença feminina no setor. É evidente que a medida agradará a taxistas e motoristas de aplicativos. Menos evidente, mas bem mais grave, será seu custo. Haverá prejuízo para a vida nas cidades, o meio ambiente e as contas públicas.

Do ponto de vista urbanístico, não tem nexo o BNDES, banco que deveria se dedicar ao fomento de setores estratégicos ou inovadores, investir na renovação de frota de carros. Isso vai na contramão da necessidade da população, pois estimula o transporte individual em detrimento do coletivo — que caiu de 49,8% das viagens urbanas em 2017 para 31,7% em 2024, segundo a Confederação Nacional do Transporte (CNT). A decadência do transporte público se traduz em ruas abarrotadas de automóveis e em tempos maiores de deslocamento.

Outro efeito indesejado é aumento da emissão de gases. Embora o programa também se destine a veículos elétricos ou híbridos, não há restrição aos movidos por combustíveis fósseis, em mais um estímulo à poluição ambiental nas cidades. Os R$ 30 bilhões teriam destino bem mais sensato se financiassem ônibus elétricos, metrôs ou VLTs para ajudar a desafogar as cidades e reduzir as emissões. Em vez disso, o que parece preocupar mais o governo é se o passageiro ficará parado no trânsito num carro mais confortável.

Por fim, o impacto fiscal é incontornável. A fatura do agrado se somará à lista crescente de bondades eleitoreiras, como o programa para renegociação de dívidas de famílias, micro e pequenas empresas; a expansão do Minha Casa, Minha Vida para a classe média; a revogação da “taxa das blusinhas”; a isenção ou redução de Imposto de Renda; e as inúmeras manobras para tentar conter o preço dos combustíveis. Por alguns cálculos, toda essa conta ultrapassará R$ 150 bilhões.

Nenhum desses programas deriva de estudos sérios de políticas públicas. São feitos sob medida para conquistar públicos que se mantêm arredios a Lula. Não é coincidência que vários se voltem à classe média, setor em que ele perde popularidade. O próprio programa para taxistas e motoristas de aplicativos tenta fisgar um eleitor não muito amigável ao petista. Pelo menos o ministro da Secretaria-Geral da Presidência, Guilherme Boulos, foi honesto ao descrevê-lo como “pacote de pai para filho”. Evidentemente, Lula não é o primeiro nem o único presidente a usar a máquina pública para distribuir afagos em busca de apoio. Mas isso não o redime. As eleições passam, e os efeitos de políticas irresponsáveis ficam.

Senado tem de rejeitar PL com agrados a partidos aprovado pela Câmara

Por O Globo

Proposta está recheada de benefícios descabidos, como anistias, suspensão de processos e redução de multas

Cabe aos senadores corrigir o erro cometido pelos deputados na terça-feira ao aprovar o Projeto de Lei (PL) 4.822/2025, uma minirreforma eleitoral recheada de benefícios descabidos a partidos políticos, como anistias, suspensão de processos, redução de multas e permissão para disparo em massa de mensagens. Cumprindo o papel de Casa revisora, o Senado deve barrar esse despropósito, eliminando o risco de retrocesso para o sistema partidário e para a integridade das eleições. É escandaloso que o PL tenha resultado de um amplo acordo pluripartidário.

De acordo com o texto, serão suspensos todos os processos administrativos e judiciais dos partidos durante a apreciação de pedidos de fusão. Uma vez concluída a união, as legendas estarão livres de suspensão ou bloqueio de repasses de recursos do fundo partidário devido a penalidades anteriores. Portanto, se o PL não for barrado no Senado, as fusões se tornarão uma alternativa fácil para partidos escaparem de punições — em vez de um alinhamento desejável e necessário para reduzir a fragmentação partidária, formado com base em confluência ideológica.

O PL prevê ainda que, se o julgamento das contas de um partido não for concluído em três anos, o processo será extinto. O texto limita a multa aplicável pela rejeição das contas a meros R$ 30 mil — e não mais a 20% da parcela irregular, com devolução obrigatória do dinheiro. E estabelece um prazo extenso, de 15 anos, para renegociação das dívidas das legendas. Débitos em execução ou novos débitos poderão ser parcelados em até 180 meses, independentemente do valor e a critério do partido. Que empresa em operação no Brasil pode desfrutar condições tão generosas?

Uma das maiores punições aplicadas a partidos que violam regras é perder dinheiro em período eleitoral. Trata-se de um incentivo a que estejam em dia com a legislação. Mas o PL quer acabar com isso ao prever que, no semestre eleitoral, não haverá “em nenhuma hipótese” suspensão de repasse dos fundos partidário e de financiamento de campanha ou desconto de valores a título de devolução por condenações anteriores. Entre as outras medidas sem cabimento, estão equiparar fundações dos partidos a faculdades, podendo cobrar mensalidade, e a flexibilização das regras para disparo de mensagens em massa por aplicativos.

Quando o Congresso examina projetos que atingem os próprios congressistas, é sempre aconselhável proceder com cautela. No PL aprovado pela Câmara, não houve nenhuma. O texto do deputado Pedro Lucas Fernandes (União-MA), cujo relator foi o deputado Rodrigo Gambale (Podemos-SP), pulou a fase das comissões para ser examinado como urgente, e a votação foi simbólica, sem registro do nome dos votantes. Por se tratar de tema tão complexo, é um sinal eloquente de que algo de estranho acontecia. O Senado precisa cumprir seu papel e rejeitá-lo sem demora.

Galípolo eleva o nível do debate sobre juros altos

Por Folha de S. Paulo

Inflação superou o teto em 4 dos últimos 6 anos, evidenciando que taxas não subiram além do necessário

A verdadeira questão é por que a política monetária é menos eficaz no Brasil; expansão dos gastos públicos é a explicação mais óbvia

A gestão de Gabriel Galípolo no Banco Central deveria bastar para desacreditar teorias conspiratórias a respeito das taxas de juros brasileiras, de fato historicamente acima dos padrões globais.

Afinal, com uma cúpula de maioria indicada por Luiz Inácio Lula da Silva (PT), o BC mantém há quase um ano e meio as mesmíssimas diretrizes de política monetária herdadas da diretoria nomeada por Jair Bolsonaro (PL) e satanizada pelos petistas —o que implica manter a taxa Selic no nível necessário para buscar a meta de inflação, mesmo com sacrifícios para a atividade econômica.

Na terça-feira (19), o próprio Galípolo deu argumentos adicionais e cabais contra teses que atribuem os juros altos a taras ortodoxas ou a algum conluio entre o órgão e o mercado financeiro.

Em audiência no Senado, o presidente do BC apontou que, apesar de conviver com taxas superiores às da maioria dos países, o Brasil teve inflação acima do teto em 4 dos últimos 6 anos. Logo, como disse, a política monetária não foi mais rigorosa que o necessário. Pelo contrário.

Acrescente-se que os objetivos aqui fixados para o IPCA —variando de 4% com tolerância de 1,5 ponto percentual em 2020 a 3% mais 1,5 ponto em 12 meses atualmente— nada têm de anômalos ou draconianos.

Nesse período, o país e o mundo passaram por quatro grandes choques de oferta: a pandemia, o tarifaço de Donald Trump e as guerras na Ucrânia e no Irã. E a política de juros teve flexibilidade para não tentar cumprir as metas de inflação a qualquer custo. Buscou-se, na verdade, evitar um descontrole que seria trágico para o poder de compra da população, sobretudo a mais pobre.

Mas, se esses dados desmontam discursos politiqueiros, não são suficientes para esgotar o tema. Como também apontou Galípolo, cumpre debater "por que no Brasil o esforço da política monetária é maior para se conseguir o mesmo que em outros países".

A explicação mais óbvia, embora não necessariamente a única, é a expansão do gasto público, que ganhou força no final do governo Bolsonaro e foi acelerada por Lula. Não apenas se estimula a demanda acima da capacidade de oferta, pressionando a inflação, como se geram déficits orçamentários que levam o mercado credor a exigir taxas mais altas para financiar o Estado.

Outros fatores podem agravar o quadro, como o elevado volume de crédito com taxas favorecidas a setores como habitação, agropecuária e indústria, que não está sujeito à Selic e diminui a eficácia da política monetária. Há ainda muita indexação formal e informal na economia, o que pode perpetuar altas de preços.

Deve-se mencionar, por fim, a necessidade de consolidar a confiança no BC, que só há cinco anos ganhou autonomia na forma de mandatos para seus dirigentes. Ataques demagógicos de governantes aos juros só fazem elevar temores de retrocesso que dificultam o combate à inflação.

Fiscalização nula trava avanço da moradia popular em SP

Por Folha de S. Paulo

CPI municipal acaba sem progressos; prefeitura precisa assumir mecanismos de controle para conter desvios

Mesmo diante de fraudes, licenças seguem sendo concedidas em regiões nobres, que pessoas de baixa renda só frequentam para trabalhar

Instaurada para investigar o escândalo do desvio de finalidade de políticas de incentivo a milhares de moradias populares em São Paulo, a CPI da Câmara Municipal apresentou o seu relatório final nesta semana, o que pouco deve acrescentar para estancar um modelo que privilegia construtoras com benesses bilionárias e contribui para acentuar o déficit habitacional.

Concebido no Plano Diretor de 2014, ainda na gestão Fernando Haddad (PT), o conceito, na teoria, era meritório: criar estímulos urbanísticos e fiscais para impulsionar o mercado imobiliário a produzir moradias populares em áreas valorizadas, aproximando assim a população de baixa renda de bairros com mais infraestrutura, emprego e transporte.

Na prática, contudo, o fomento acumulou enormes distorções, notadamente na gestão do atual prefeito, Ricardo Nunes (MDB).

Muitos empreendedores aproveitaram o formato —voltado, de modo geral, a famílias com renda mensal de até dez salários mínimos— para obter isenção de taxas, flexibilização de regras e aumento do potencial construtivo, mas sem necessariamente entregar os imóveis ao público-alvo.

Como a prefeitura praticamente delegou às incorporadoras a verificação da renda dos compradores, permitiu-se que apartamentos subsidiados fossem parar nas mãos de grandes investidores, destinados à locação de curta temporada em plataformas como Airbnb, e até mesmo convertidos em quartos de hotel.

Não é preciso ser arquiteto ou urbanista para concluir que os chamados estúdios (unidades minúsculas, sem divisórias), ao custo de centenas de milhares de reais, não teriam famílias com filhos como seu destino final. Caberia à administração municipal, já no nascedouro do projeto, barrar a flagrante ilicitude.

A comissão parlamentar de inquérito apontou que a cidade deixou de arrecadar, com as renúncias, mais de R$ 5 bilhões entre 2014 e 2025. Há mais de 926 processos de apuração de irregularidades nesses empreendimentos, abrangendo cerca de 171 mil unidades, e a gestão Nunes diz ter aplicado multas no quase irrisório valor de R$ 13 milhões.

Diante dos números, é insuficiente, para não dizer questionável, pôr fim aos incentivos de moradias populares em áreas ricas e criar um programa de regularização voluntária, como sugeriu a CPI.

Mesmo diante das fartas evidências de fraudes, tais licenças continuam sendo concedidas em regiões nobres, que pessoas de baixa renda só frequentam mesmo durante o dia —e para trabalhar, quase nunca para morar.

Isto é Flávio Bolsonaro

Por O Estado de S. Paulo

Ninguém pode se dizer surpreendido com as mentiras em série do senador, cuja folha corrida inclui rachadinha e ligação com milicianos. O caso Master não torna Flávio pior do que ele já era

Desde que estourou o escândalo envolvendo o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) e o banqueiro Daniel Vorcaro, os integrantes da equipe de campanha do filho de Jair Bolsonaro saíram por aí a dizer que foram surpreendidos com a revelação de que o candidato a presidente tinha relações fraternas (e transacionais) com o protagonista do maior crime financeiro da história brasileira. Alguns admitem que o baque pode até fazer o campo bolsonarista escolher outro candidato.

Ora, francamente: esse escândalo não muda uma vírgula da biografia de Flávio, na qual já figuram com destaque suas relações com milicianos, a prática de rachadinha em seu gabinete e estranhos negócios imobiliários em dinheiro vivo. Trata-se, portanto, de um candidato com longa ficha corrida, que nunca foi segredo para ninguém. O caso do Banco Master não torna Flávio pior do que ele já era.

Tampouco muda alguma coisa o fato de que Flávio Bolsonaro mentiu seguidamente – para seus aliados, para sua equipe de campanha e para a imprensa – a respeito de suas relações com Vorcaro. A mendacidade é a própria natureza do clã Bolsonaro, que construiu sua trajetória política em cima de desinformação, logro e desfaçatez. O filme sobre Bolsonaro, a julgar pelo trailer divulgado por Flávio, é em si mesmo um retrato fiel dessa doença congênita: inventa um Bolsonaro que só existe nos delírios da família. Como vivemos tempos estranhos, em que mentirosos patológicos ganham destaque no degradante mercado da atenção em que se transformou a política, chega a ser engraçado que alguém se queixe por ter sido enganado por Flávio Bolsonaro.

Mas é preciso reconhecer que Flávio sempre foi absolutamente honesto a respeito do espírito de sua candidatura à Presidência: ele nunca escondeu que seu único objetivo, ao chegar ao poder, é livrar o pai da cadeia. Governar o Brasil não está nos seus planos, como não estava nos planos do patriarca – que terceirizou a administração do governo por sua absoluta inaptidão ao trabalho e que vivia a lamentar o fardo de estar na Presidência.

Ainda assim, alguns aliados de Flávio Bolsonaro dizem por aí que acreditam na sobrevivência da candidatura do senador e mantêm sua disposição em apoiá-lo. O fator determinante nesse cálculo é que Flávio, a despeito de tudo, continua a aparecer nas pesquisas como o único capaz de fazer frente ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva.

Portanto, segundo esse raciocínio, pouco importa se Flávio envolveu-se com o protagonista do maior escândalo financeiro da história brasileira, se tem ligação com milicianos, se tomou dinheiro de funcionários de seu gabinete e se fez negócios obscuros em dinheiro vivo. Também não interessa se o tal filme feito com dinheiro de Daniel Vorcaro é tão ruim que não se pode condenar quem o considere apenas um meio de lavar dinheiro, fazer caixa de campanha e sustentar o irmão de Flávio, o deputado cassado Eduardo, na sua dolce vita nos EUA. O que interessa é impedir um novo mandato de Lula, retratado pelos bolsonaristas como o diabo em pessoa.

O Brasil não pode mais ficar à mercê dos interesses particulares de uma única família, ainda mais quando esses interesses colidem frontalmente com a decência e as leis. Determinada pelo “dedazo” de Jair Bolsonaro, a candidatura de Flávio sabotou a construção de uma chapa de oposição democrática à reeleição de Lula. E é improvável que os Bolsonaros recuem, já que seu objetivo é impedir que a direita se organize em torno de nomes de fora da família. A lealdade, como ocorre na máfia, é a laços de sangue, não a valores morais e princípios republicanos ou mesmo a um projeto de país.

Bolsonaro e sua grei não geraram nada de bom para o País, só ressentimentos e destruição de consensos mínimos entre concidadãos. De quebra, conseguiram a proeza de devolver o poder a Lula, malgrado a extensa folha corrida do petista. Só por isso mereceriam do País o mais absoluto desprezo.

Patrimonialismo despudorado

Por O Estado de S. Paulo

Sindicato de juízes reivindica para a categoria um reajuste salarial que reponha a inflação dos últimos 20 anos. Nada menos. Depois ficam indignados quando a sociedade reage

O patrimonialismo já nem se preocupa com disfarces no Brasil. Prova cabal do despudor é o movimento de associações de magistrados, procuradores e promotores contra os limites impostos pelo Supremo Tribunal Federal (STF) aos chamados penduricalhos e em defesa de um aumento de cerca de 55% do teto constitucional. Antes estivéssemos apenas, por assim dizer, diante de uma reivindicação inoportuna. Na verdade, trata-se de mais uma demonstração cabal do alheamento das guildas de representação da elite do funcionalismo público da realidade dos contribuintes que a sustenta.

A Associação dos Juízes Federais do Brasil (Ajufe), por exemplo, foi ao STF pugnar pelo aumento do subsídio pago aos ministros da Corte, teto da remuneração do funcionalismo público, dos atuais R$ 46,4 mil para cerca de R$ 71 mil. A Ajufe argumenta que os salários da magistratura estão defasados pelo IPCA acumulado nos últimos 20 anos, como de resto estão os vencimentos da esmagadora maioria dos trabalhadores brasileiros na iniciativa privada.

A cara de pau do sindicato de facto dos juízes federais é tão grande que a pretensão foi apresentada em meio ao debate nacional sobre os privilégios remuneratórios do Judiciário e do Ministério Público e os mecanismos criados por seus órgãos de classe para subverter o teto – um debate, ressalte-se, que encontrou guarida no próprio STF, que, em fevereiro passado, limitou os pagamentos das verbas extrateto.

Em tese, a questão da remuneração no serviço público é plenamente legítima no debate público. Os salários dos servidores, por óbvio, devem ser compatíveis com as responsabilidades dos cargos e com a necessidade do Estado de atrair profissionais qualificados. O busílis é que juízes e membros do Ministério Público figuram, há muito tempo, no topo da pirâmide salarial do País. Não obstante, apresentam-se à sociedade como uma massa de desvalidos, submetida a toda sorte de privações.

Essa cruzada em defesa de privilégios classistas já seria imoral mesmo que o Brasil fosse um país de renda alta e, principalmente, menos desigual. Mas, para adicionar insulto à injúria, o Brasil atravessa uma crise fiscal renitente, convive com déficits anuais e vê o Estado perder a capacidade de investimento em áreas vitais para a população, enquanto despesas obrigatórias engessam cada vez mais o Orçamento da União. Nesse sentido, o lobby da Ajufe e quejandas para elevar o teto constitucional é, a um só tempo, socialmente ofensivo e economicamente imprudente.

Como se sabe, o subsídio pago aos ministros do STF é a referência remuneratória para as carreiras do funcionalismo público, nos Três Poderes e nas três esferas da administração. Qualquer reajuste, ainda mais um daquela magnitude, desencadearia um efeito cascata de consequências drásticas para o País, aumentando a pressão por aumentos salariais em cada comarca, cada prefeitura, cada Assembleia Legislativa e cada Câmara Municipal Brasil afora. Eis o desdém dessas associações pela coisa pública e pela própria natureza do serviço público que seus associados prestam.

Como se nada disso bastasse, as guildas também pressionam o STF para autorizar o pagamento de penduricalhos retroativos antes de fevereiro passado e para eliminar o limite de 35% sobre as “verbas indenizatórias” aprovadas por órgãos do Judiciário e do Ministério Público. Ora, o que era inconstitucional em fevereiro, quando o STF tomou decisões para limitar os pagamentos extratexto, era inconstitucional desde sempre. Portanto, não há que se falar em “retroativos”. Esses pagamentos jamais teriam de ser feitos à luz da Constituição.

Ao longo dos anos, criou-se um ecossistema de normas e regulamentações administrativas destinado a criar e manter o pagamento dos penduricalhos sob um verniz supostamente legal. Com base nesse arranjo, verbas classificadas como “indenizatórias” escapam da tributação e do teto e ainda se perpetuam como complementação de renda. O resultado, todos conhecemos: contracheques que ultrapassam, com folga obscena, o limite claramente definido pela Lei Maior.

O País precisa, sim, de um Judiciário e de um Ministério Público respeitados e independentes. Mas independência é uma coisa. Manobra para perpetuar privilégios é outra.

El Niño exige adultos na sala

Por O Estado de S. Paulo

Um ‘super’ El Niño está no radar. O Brasil já conhece seus riscos. Falta agir como se conhecesse

O Brasil já começou a se preparar para um novo El Niño. Ao menos no plano científico. Uma nota técnica conjunta divulgada por Inpe, Inmet, Funceme e Censipam aponta alta probabilidade de formação do fenômeno no segundo semestre. A intensidade ainda é incerta; os riscos não. Seca mais severa na Amazônia e no Nordeste, temporais no Sul, pressão sobre reservatórios, agricultura, energia, logística e inflação compõem o horizonte de trabalho dos órgãos técnicos.

Previsões climáticas não existem para eliminar dúvida. Servem para reduzir surpresa. Aí começa o problema brasileiro.

O El Niño sempre fez parte da dinâmica climática do Pacífico. O contexto em que ele ocorre mudou. Oceanos mais quentes ampliam extremos, cadeias globais operam sob tensão recorrente e choques simultâneos passaram a se reforçar mutuamente. Fertilizantes pressionados por conflitos geopolíticos, crédito agrícola mais caro, energia vulnerável e eventos climáticos severos agora interagem num mesmo sistema. O resultado aparece no custo dos alimentos, no frete, nos seguros, nos juros e nas contas públicas.

A seca amazônica de 2023 interrompeu rotas fluviais essenciais para abastecimento e transporte. No Sul, enchentes destruíram estradas, cidades e infraestrutura logística. A inflação de alimentos avançou 8,2% em 2024, impulsionada em parte importante pelo último El Niño.

O País sabe onde rios tendem a baixar, quais áreas urbanas inundam, quais regiões agrícolas sofrem mais com irregularidade de chuva e quais reservatórios entram sob pressão em períodos prolongados de calor. A ciência climática acumulou capacidade respeitável de monitoramento e previsão. O contraste com o despreparo institucional é constrangedor.

Menos de 0,6% das emendas parlamentares individuais ao Orçamento de 2026 foi destinado à agenda ambiental e climática. Ações de proteção e Defesa Civil ficaram reduzidas a valores simbólicos. Contenção de cheias recebeu R$ 1; drenagem urbana, nada. O sistema político continua distribuindo recursos como se eventos extremos fossem acidentes imponderáveis, e não riscos recorrentes de alto impacto econômico e social.

A distorção é mais evidente porque as emendas costumam ser justificadas pela proximidade entre parlamentares e demandas locais. Na prática, a lógica é outra: “regionalismo” é mero disfarce retórico para clientelismo. Obras de retorno eleitoral imediato continuam prevalecendo sobre infraestrutura preventiva, cujo sucesso costuma ser invisível precisamente quando funciona.

Essa escolha cobra um preço crescente. Reconstruir estradas destruídas, socorrer municípios inundados, renegociar dívidas rurais, subsidiar crédito emergencial e administrar choques inflacionários custa muito mais do que prevenção minimamente séria.

A intensidade final do próximo El Niño talvez permaneça indefinida por alguns meses. A insuficiência da preparação brasileira, infelizmente, é bastante clara. Já passou da hora de a adaptação climática deixar de ser tratada como tema periférico de política ambiental e ser incorporada ao núcleo da racionalidade econômica, da infraestrutura e da gestão fiscal.

Riscos sobem, e fluxo para o Brasil começa a trocar sinal

Por Valor Econômico

A nova perspectiva combinada de conflito prolongado e alta dos juros pôs em xeque os prognósticos dos investidores, de que a guerra terminaria logo e tudo voltaria ao normal

A menos que a guerra de EUA e Israel contra o Irã acabe logo, os mercados tendem a viver novos períodos de intranquilidade. Os sinais disso apareceram com mais clareza nos últimos dias, quando os títulos do Tesouro americano de longo prazo (10 e 30 anos) exibiram as maiores taxas desde 2007, na véspera da grande crise financeira global. As raízes do problema nada têm a ver com disfunções evidentes nos preços dos ativos ou recantos poucos claros de negociações desreguladas, como no caso dos empréstimos subprime, mas, sim, por um motivo mais simples: juros em alta.

Os efeitos da guerra sobre a inflação mundial e o crescimento tendem a sobrepujar os impulsos expansionistas dos enormes investimentos em inteligência artificial pelas big techs americanas (US$ 750 bilhões anunciados até agora) e da política de estímulos fiscais implantada pelo presidente dos EUA, Donald Trump. Ambos, segundo boa parte dos analistas, produziriam mais inflação de qualquer forma, mas a um ritmo muito mais comedido, se a eles não fosse acrescentado um enorme choque do petróleo. A guerra, que não se sabe quando acabará, exigirá uma política monetária restritiva das principais economias, que está a caminho, segundo indicadores dos mercados.

Os títulos do Tesouro dos EUA sinalizaram aumento de juros, cujo detonador foi o índice de preços ao produtor de abril (6% ao ano). Antes deles, outros sinais perturbadores haviam aparecido: o índice de gastos pessoais do consumo, medida preferida pelo Federal Reserve, subiu a 3,5%, e seu núcleo, a 3,2%. O índice ao consumidor (CPI) foi mais longe ainda, 3,8% em abril, muito distante da meta de 2%.

Pressões por um aperto monetário estão por toda parte, e são sentidas com mais força no Reino Unido, onde o governo trabalhista, derrotado nas eleições municipais, luta para se manter à tona. No continente, membros do Banco Central Europeu corroboram a percepção dos investidores de que um aumento dos juros será inevitável se os custos de energia, que se espalham para os demais preços, continuarem subindo.

A grande dúvida diz respeito ao BC mais poderoso, o Fed americano. Na reunião de maio não havia expectativa de elevação imediata dos fed funds, mas, sim, sobre a sinalização do futuro. Foi uma reunião histórica, com a maior desavença já registrada em quatro décadas. A maioria concordou em manter a taxa entre 3,5% e 3,75%, mas com uma variedade de motivos que reflete as grandes incertezas que rondam a economia global. Dois membros do comitê votante apontaram que não faz mais sentido deixar em aberto a possibilidade de corte dos juros, e outro, que esse é o momento exato de se fazer exatamente isso.

Houve discordância também sobre os efeitos dos enormes investimentos em IA. Parte dos membros do Fed acredita que o aumento de produtividade decorrente deles auxiliará na redução da inflação, como crê o novo presidente, Kevin Warsh. Eles acreditam também que o desinflar dos preços de habitação terá o mesmo efeito baixista. Já parcela mais numerosa acredita que os investimentos na IA jogarão mais lenha na fogueira da inflação, estimulando a demanda antes que ganhos de produtividade apareçam. Vários apontaram que a guerra do Irã poderia se prolongar além do previsto, como está ocorrendo, elevando a inflação que, por já estar fora da meta há anos, poderia alimentar a nociva espiral preços-salários.

Além disso, as consequências evanescentes da guerra tarifária de Trump sobre a inflação deixaram outra preocupação: o aumento do déficit fiscal. Trump imaginava que as tarifas cobririam grande parte da renúncia de impostos efetuada. As tarifas caíram na Suprema Corte e as atuais, de 10%-15%, são muito menores do que os gravames originalmente impostos. Seria mais um fator inflacionário hoje.

Os mercados vislumbram agora alta de juros nos EUA. Com a oferta de petróleo minguando e os preços ao redor de US$ 110 o barril, a crise de oferta poderá se acirrar, e a inflação também, se não houver um acordo para encerrar o conflito. A nova perspectiva combinada de conflito prolongado e alta dos juros pôs em xeque os prognósticos dos investidores, de que a guerra terminaria logo e tudo voltaria ao normal. Os riscos, que já não eram pequenos, estão aumentando.

Com isso, o dólar começa a se recuperar em relação a outras moedas e os investidores recuam parcialmente de suas apostas mais arrojadas. O Brasil parecia viver uma situação anômala: bolsa em alta, dólar em baixa e afluxo abundante de capital para portfólio em meio a fortes turbulências globais. A situação começa a mudar, e nela ingressa aos poucos a equação eleitoral. A bolsa assiste agora à saída de recursos externos, de R$ 10,5 bilhões no mês corrente, embora o saldo ainda seja de R$ 40,9 bilhões, superior ao de R$ 25 bilhões de 2025. As cotações do dólar são hesitantes como tendência, mas passaram dos R$ 5.

As promessas eleitorais do governo ressaltam a fragilidade das contas públicas, enquanto os pecados do principal candidato de oposição, às voltas com relacionamento suspeito com um banqueiro corrupto, indicam pouca chance de mudança para o futuro. Um cenário benigno pode dar lugar a outro, turbulento, para o qual o governo nada faz para afastá-lo.

Vias abertas na América Latina

Por Correio Braziliense

Passadas algumas décadas do ciclo de ditaduras militares, é ainda na polarização entre o que se pode — ainda — definir como direita e esquerda que se delimitam as disputas eleitorais na região

Os últimos movimentos de Donald Trump em sua ofensiva contra o regime comunista de Cuba, visto em perspectiva com outros desdobramentos em curso na América Latina, dão toques algo mais preocupantes quanto ao futuro político da região. No pano de fundo dos focos de tensão, que se multiplicam, há uma polarização entre o que se pode — ainda — definir como direita e esquerda. Passadas algumas décadas do ciclo de ditaduras militares dos anos 1960 a 1980, é ainda nesse marco, em grande parte, que se delimitam as disputas eleitorais que se sucedem a intervalos regulares, com maiores ou menores turbulências.

No que diz respeito a Cuba, a Justiça dos Estados Unidos vem de indiciar criminalmente o ex-presidente Raúl Castro, irmão mais novo de Fidel, líder da revolução de 1959. Embora afastado de funções práticas no regime, aos 94 anos, Raúl parece transformado em uma espécie de troféu oportuno para justificar uma ofensiva militar destinada a virar a mesa na ilha — em tempo para dar cacife a Trump e ao Partido Republicano nas cruciais eleições legislativas de novembro, em que a maioria governista parece em risco em ambas as casas do Congresso.

Talvez mais urgente seja a situação na Bolívia, onde um levante social ameaça colocar nas cordas o recém-empossado presidente Rodrigo Paz, um político que se impôs nas urnas com perfil de centro-direita, mas rapidamente assumiu um perfil trumpista. Sem contestar propriamente o resultado das urnas, as bases eleitorais da esquerda, que governou o país por duas décadas liderada por Evo Morales, primeiro presidente originário da maioria indígena, a esquerda marcha para a capital, bloqueando estradas, para pressionar pela renúncia.

Em paralelo a dois pontos de ebulição, transcorrem dois processos balizados, ao menos até aqui, pelos parâmetros democráticos e eleitorais. No último domingo deste mês, os colombianos vão às urnas escolher o sucessor de Gustavo Petro, ex-guerrilheiro e primeiro político de esquerda a presidir o país em dois séculos de vida independente e republicana. As pesquisas favorecem o candidato governista, filho de um candidato presidencial assassinado por esquadrões de ultradireita em 1992. Dois pretendentes de direita disputam vaga para enfrentá-lo em um possível segundo turno.

Direita contra esquerda é o confronto marcado para uma semana depois. Keiko Fujimori, filha do controverso ex-presidente Alberto Fujimori, larga como favorita em sua quarta tentativa de chegar à Casa de Pizarro. Terá pela frente, além da rejeição histórica aos desmandos e tropelias do pai, um adversário surpresa, o deputado Roberto Sánchez, do partido esquerdista Juntos pelo Peru. As últimas pesquisas favorecem Keiko por 39% a 35%. Lá, porém, o maior desafio vem após a posse: o último presidente a terminar o mandato foi Ollanta Humala, em 2016.

É nesse quadro de polarização, e sob a influência de Donald Trump — ora furtiva, ora ostensiva —, que o Brasil se encaminha para a campanha à eleição presidencial de outubro. A Copa do Mundo tende a se sobrepor ao debate político, por algumas semanas. Uma vez terminada, todas as atenções estarão concentradas na disputa entre o presidente Lula, que tenta o quarto mandato próprio (e o sexto do PT), e um adversário da direita antipetista.

Aqui, como em toda a vizinhança imediata ou próxima, são basicamente os mesmos polos em que a sociedade se divide, com maior ou menor grau de radicalização. Em cada processo, é a maturidade do sistema democrático que está à prova.

Um piso salarial justo para os professores brasileiros

Por O Povo (CE)

O período eleitoral, ou pré, costuma lançar uma cortina de fumaça sobre temas que fazem parte da pauta política cotidiana e que, muitas vezes, acabam prejudicados pela falta de atenção a eles no nível que fazem por merecer. Por exemplo, tramita agora no Congresso Nacional uma medida provisória que trata do reajuste do piso nacional dos professores da educação básica e precisa receber de deputados e senadores um tratamento de prioridade.

O alerta nesse sentido, muito oportuno, está sendo feito pelo deputado federal cearense Idilvan Alencar (PSB) que presidiu, no Congresso, uma comissão mista especial formada para analisar o texto enviado pelo governo. Político de compromisso reconhecido com a causa, ex-secretário da Educação no Ceará e em Fortaleza, ele garantiu, no âmbito de sua competência, a celeridade necessária ao debate e o relatório final, apresentado pela deputada Professora Dorinha (União Brasil-TO), já foi inclusive aprovado. Agora falta uma análise e votação pelo plenário, em sessão conjunta de Câmara e Senado.

A expectativa de Idilvan, que a sociedade deve acompanhar para fazer a cobrança devida para que se efetive, é de que a votação aconteça no dia 1º de junho próximo, data de perda de validade da MP. Significa que sem o novo texto aprovado valeriam as regras antes vigentes, nas quais o reajuste salarial previsto para categoria está abaixo da inflação registrada em 2025, ou seja, dá-se uma perda objetiva no poder de compra dentro de uma realidade que já é de achatamento. Injustificável.

Deixar que o ambiente eleitoral contamine a matéria seria um erro imperdoável dos comandos das casas que formam o Congresso, já que teríamos, sem a correção que a MP sugere, uma injustiça cometida contra milhares de profisisionais abnegados e abnegadas que se espalham pelas escolas do País. O piso salarial nacional representa o valor mínimo que deve ser pago aos professores da educação básica e os salários são custeados pelas redes estaduais e municipais de ensino, com recursos provenientes do Fundeb e complementações da União.

A proposta do governo, que os parlamentares já aprovaram na comissão e que deveria ser igualmente abraçada de maneira consensual pelo conjunto do Congresso, altera a base de cálculo para o reajuste anual, elevando-o para 5,3% em 2026, portanto, acima da inflação do ano passado que foi de 4,26%. Índice que, aplicado, fixa o piso nacional em R$ 5.130,63 para profissionais com jornada de 40 horas semanais, incluindo os professores temporários.

O ideal é que a matéria seja aprovada sem resistência por deputados e senadores, independente da posição que cada um deles tenha acerca da disputa pelo poder. Não é questão de ser governista ou oposicionista, mas de ser justo com uma categoria profissional que merece ter uma remuneração à altura do serviço fundamental que presta às famílias e à sociedade em geral. Nem tudo é disputa pelo voto. 

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