segunda-feira, 18 de maio de 2026

O que a mídia pensa | Editoriais / Opiniões

Delação de Daniel Vorcaro não pode ser seletiva

Por O Globo

Proposta omitiu fatos conhecidos pela polícia. Não faz sentido ele entregar menos do que já se descobriu

É compreensível que a proposta de delação premiada de Daniel Vorcaro venha cercada de expectativas. Afinal, Vorcaro está no centro do escândalo do Banco Master, liquidado no ano passado pelo Banco Central (BC) depois da descoberta de um esquema bilionário de fraudes — e é conhecido pelas relações com altas figuras da República e pelo acesso aos gabinetes do poder em Brasília. Não há dúvida de que sua colaboração com a Justiça pode dar contribuição inestimável às investigações. Mas é fundamental que ele realmente esteja disposto a falar tudo o que sabe e a fornecer provas do que disser.

Por isso causa estranheza que a proposta apresentada à Polícia Federal (PF) e à Procuradoria-Geral da República (PGR) omita fatos da maior importância trazidos à tona nos últimos dias. É o caso das provas levantadas pela operação da PF que teve como alvo o senador Ciro Nogueira (PP-PI). De acordo com a PF, Vorcaro pagava a Ciro mesada de R$ 300 mil a R$ 500 mil, custeava viagens internacionais dele e foi o artífice de um projeto de que se beneficiaria (o aumento da garantia do Fundo Garantidor de Créditos para R$ 1 milhão). A proposta de delação de Vorcaro tampouco faz menção ao pedido do senador e pré-candidato à Presidência Flávio Bolsonaro para que o banqueiro financiasse um filme sobre seu pai, Jair Bolsonaro, em transações cercadas de suspeitas. Não faz sentido Vorcaro oferecer na delação menos do que já se sabe.

As colaborações premiadas têm sido eficazes para desvendar crimes complexos, identificar autores e recuperar valores desviados. Embora isoladamente não sirvam como prova judicial, costumam oferecer subsídios valiosos a investigações. Na Operação Lava-Jato, expuseram as vísceras da corrupção nas mais altas esferas. É verdade que, posteriormente, condenações foram anuladas por erros na condução dos processos. Mas isso não tira o mérito dos acordos, que serviram para iluminar os subterrâneos da relação do Estado com as grandes empreiteiras.

No assassinato da vereadora Marielle Franco e de seu motorista Anderson Gomes, as delações premiadas dos executores expuseram os mandantes, que permaneciam blindados por agentes do Estado. Mais recentemente, a delação do tenente-coronel Mauro Cid, ex-ajudante de ordens de Jair Bolsonaro, foi fundamental para guiar a PF pelos labirintos da trama golpista, levando à condenação do ex-presidente, de ex-ministros e de militares de alta patente.

Já se sabe muito sobre Vorcaro. Mas, dada sua incrível generosidade com poderosos de todas as estirpes, é certo que ainda há muito a descobrir. A todo momento, o escândalo do Master ganha novos desdobramentos (no último, a PF prendeu o pai de Daniel, Henrique Vorcaro, acusado de integrar uma estrutura paralela para monitorar e intimidar adversários). É improvável que cessem, enquanto houver celulares e computadores a vasculhar.

Por tudo isso, além das propostas de ressarcimento, Vorcaro terá de indicar o caminho de seu dinheiro no Brasil e no exterior. Se insistir em atuar na retranca, escondendo informações relevantes, é pouco provável que convença Supremo Tribunal federal, PGR e PF a fechar um acordo de colaboração. Para obter benefícios da lei, como redução de pena ou mudança de regime, Vorcaro deve entregar o que sabe. Não pode fazer uma delação anêmica ou seletiva, apenas com o objetivo de beneficiar-se.

Hostilidade a professores aumenta o risco de um apagão no magistério

Por O Globo

Pesquisas detectam mais agressões motivadas por temas ideológicos, fator que afasta vocações do ensino

Não bastassem as dificuldades conhecidas para avançar na melhoria da qualidade do ensino brasileiro, têm proliferado casos de intimidação a professores por alunos e familiares. Há evidências de que a polarização política entrou nas salas de aula para dificultar ainda mais a vida de quem ensina. São preocupantes os resultados da pesquisa realizada pelo Observatório Nacional da Violência Contra Educadoras/es (ONVE), da Universidade Federal Fluminense (UFF), junto a 3.012 profissionais da educação básica e ensino superior das redes pública e privada.

As respostas revelam crescimento das agressões a partir de 2010, picos em 2016 — ano do impeachment de Dilma Rousseff —, 2018 e 2022, anos de eleições gerais. Dentre os entrevistados, 10% declararam ter sofrido agressão física. Quase todos (94%) foram vítimas ou testemunharam casos de perseguição, censura, intimidação, agressão verbal ou física a colegas. A maior incidência desses problemas ocorre no Sul, onde apenas 4% dos entrevistados disseram desconhecer ocorrência do tipo, ante 10% no Norte.

Entre os agentes da intimidação, aparecem com destaque estudantes e seus familiares. Em reflexo do ambiente polarizado, 73% dos professores afirmaram ser questionados por temas políticos, 53% por questões de gênero e sexualidade, 48% por assuntos relacionados à religião e 41% por negacionismo científico, em especial na época da pandemia. Alguns enfrentaram dificuldades múltiplas.

Para 47% dos professores brasileiros, a intimidação ou o abuso verbal de alunos é responsável por seu nível de estresse, de acordo com a última Pesquisa Internacional sobre Ensino e Aprendizagem, de 2024, coordenada pela Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE). Barulho excessivo e desordem na sala de aula têm aumentado em todos os países desde 2018. Em 2024, porém, mais de 50% dos professores brasileiros reclamavam do problema, ante aproximadamente 33% em Portugal, Chile, Finlândia e África do Sul — e menos de 5% no Japão e na China.

Tal situação ajuda a desestimular vocações para o ensino. De acordo com as projeções do Instituto Semesp (Sindicato das Entidades Mantenedoras de Estabelecimentos de Ensino Superior no Estado de São Paulo), faltarão até 235 mil professores para as redes públicas de educação básica até 2040. No momento, já há necessidade de 57% a mais de professores com formação específica em matemática para lecionar a disciplina, segundo o MEC. Políticas de proteção a quem ensina podem ajudar a reduzir o risco real de um apagão mais grave no magistério.

Expansão eleitoreira do crédito dificulta queda dos juros

Por Folha de S. Paulo

Benesses do governo Lula não afetam as metas fiscais, mas inflação reduz espaço para alívio monetário

Anunciaram-se linhas para compra de caminhões e ônibus, máquinas agrícolas, habitação, microcrédito, Desenrola ampliado, entre outros

O governo Luiz Inácio Lula da Silva vai seguindo à risca a cartilha histórica do PT, com expansão dos gastos e também do crédito público, reforçada em ano eleitoral. As consequências são conhecidas —juros mais altos, estresse financeiro para empresas e famílias e adiamento de ajustes necessários para a solidez da economia.

Diante dos limites legais impostos pela meta de resultado primário (o saldo das contas federais antes do pagamento de juros), o Planalto tem recorrido mais a estímulos financeiros e creditícios, que não afetam diretamente os resultados do Tesouro Nacional.

Trata-se de um disfarce que permite impulsionar a demanda sem aparentar descumprimento de normas fiscais —e sem que haja qualquer resistência da equipe econômica, que apenas obedece às ordens político-eleitorais.

As medidas de crédito anunciadas até agora são numerosas: linhas para compra de caminhões e ônibus, máquinas agrícolas, bens de capital, microcrédito, habitação por meio do Minha Casa, Minha Vida, refinanciamento de dívidas estudantis, Desenrola ampliado e operações do BNDES. Estuda-se ainda dinheiro para taxistas e motoristas de aplicativos.

Ao todo, segundo estimativas citadas em reportagem do jornal Valor Econômico, o impulso creditício subirá de 0,7% do Produto Interno Bruto (PIB) em 2022 para 1,2% neste ano. Um salto significativo, que afeta as contas públicas de forma indireta no médio prazo —e a economia desde já.

Várias dessas iniciativas repetem o padrão fracassado do governo Dilma Rousseff (PT). Os programas de incentivo à troca de caminhões, por exemplo, tiveram impacto inicial positivo no passado, mas provocaram efeitos colaterais indesejados.

Entre eles está a redução do frete, que contribuiu para a crise no setor de transporte e para as greves de caminhoneiros que abalaram o país em 2018.

No contexto atual de inflação elevada, o risco se amplifica. As expectativas para o IPCA vêm subindo desde o início da guerra de Estados Unidos e Israel contra o Irã, como mostra a pesquisa semanal do Banco Central.

Estimular a demanda doméstica com crédito subsidiado pressiona ainda mais os preços, dificultando o trabalho da política monetária. Desde fevereiro, a expectativa para a Selic no fim deste 2026 aumentou de cerca de 12% para 14% anuais. Ou seja, vai sendo eliminado o espaço para a necessária queda da taxa.

Alguns setores beneficiados celebram ganhos temporários, mas a maioria das empresas e famílias sofre com o arrocho financeiro. Não surpreende, nesse quadro, que as recuperações judiciais e o número de brasileiros com dívidas atrasadas continuem a bater novos recordes.

Não há transformação na estrutura da economia, nem aumento de produtividade, nem melhora da eficiência do gasto público. Apenas estímulos efêmeros e custosos à demanda, pelas piores razões eleitorais.

O jugo do crime nas favelas do Rio

Por Folha de S. Paulo

Plano para reocupar favelas sob domínio de facções, apresentado pelo governo estadual, não sai do papel

Falta de referendo do Supremo não justifica inação; sem planejamento baseado em evidências, não há política de segurança sustentável

Em dezembro de 2025, o governo do Rio de Janeiro apresentou ao Supremo Tribunal Federal (STF) um plano para reocupar as favelas sob domínio de milícias e do Comando Vermelho. Até o momento, porém, nada de concreto se viu.

À época, o então governador Cláudio Castro (PL), hoje investigado pela Polícia Federal, previu o início do projeto-piloto para o primeiro semestre de 2026, o que não ocorreu. A ideia inicial era retomar o controle do território da capital ocupado por facções criminosas e milicianas, área conhecida como o "Cinturão de Jacarepaguá", que inclui Rio das Pedras, Muzema e Gardênia.

Segundo especialistas ouvidos pela Folha, o plano mais parece um tratado de boas intenções. Para que se torne realidade, porém, carece de orçamento definido e prioridades claras.

A lentidão das autoridades fluminenses contrasta com a gravidade do problema. Cerca de 4 milhões de pessoas —aproximadamente um terço da população da região metropolitana— vivem atualmente sob o controle ou a influência de grupos armados.

Esse dado tem como base registros do Disque-Denúncia e foi compilado em dezembro de 2025 pelo Grupo de Estudos dos Novos Ilegalismos (Geni) da Universidade Federal Fluminense (UFF) e pelo Instituto Fogo Cruzado.

Não faz sentido que o poder público espere o referendo do plano pelo Supremo para dar início à política de segurança pública de retomada do controle territorial de áreas tomadas por milícias e pelo Comando Vermelho, já que se trata de competência constitucional da gestão estadual.

Omissões apenas postergam o direito de populações inteiras a viver não sob o domínio ditatorial do crime, mas sob a proteção das instituições públicas.

Tampouco se devem repetir os erros do passado. A investida policial em áreas controladas pelo crime tem sido pautada ora pela truculência de operações policiais letais, ora pelo fracasso em se integrar a políticas sociais.

Sem planejamento, indicadores e avaliação baseada em evidências, não há política pública de segurança sustentável —ainda mais quando ela se encontra desmantelada pela crise política recente no Rio de Janeiro.

Sem incorporar o asfixiamento econômico de grupos criminosos e milícias, bem como o enfrentamento da corrupção policial, planos como esse, além de não saírem do papel, correm o risco de se mostrarem ingênuos diante da realidade perversa que, em tese, buscam transformar.

A conta salgada das bondades de Lula

Por O Estado de S. Paulo

Custo das medidas populistas do petista para tentar melhorar suas chances de reeleição já chega a R$ 140 bilhões e deve aumentar ainda mais, com efeitos sobre inflação e juros

Uma reportagem recente do Estadão revelou que o custo das medidas anunciadas pelo governo de Luiz Inácio Lula da Silva para estimular a economia nos últimos dois anos atingiu R$ 140 bilhões. O levantamento, realizado pelo banco BTG Pactual, inclui dez propostas que já estão em vigor ou prestes a serem executadas. Portanto, não se trata de uma conta fechada: é muito provável que a conta da demagogia fique ainda mais salgada, especialmente porque Lula precisa muito recuperar sua popularidade para aumentar suas chances de reeleição, num cenário de disputa apertadíssima. Tudo isso, é óbvio, resultará em mais inflação e pressionará ainda mais a já estratosférica taxa de juros, aumentando o custo do dinheiro e o custo de vida justamente para aqueles eleitores cujo voto Lula pretende conquistar.

A farra começou no fim de 2024, com o anúncio da isenção do Imposto de Renda (IR) para quem ganha até R$ 5 mil. Promessa que Lula havia feito dois anos antes, ainda durante a campanha, a benesse foi aprovada pelo Congresso no ano passado e entrou em vigor em janeiro. O governo abriu mão de R$ 31 bilhões, valor que inclui o desconto no imposto para quem recebe até R$ 7.350 mensais, mas o efeito eleitoral da medida tem sido pífio, a julgar pelas pesquisas.

O problema é que, para o eleitor, a despeito do desemprego baixo, da alta da renda e da inflação razoavelmente sob controle, a sensação é de dificuldade, ante uma alta persistente dos preços dos alimentos e o endividamento crônico.

Foi nesse contexto desafiador que o governo pisou no acelerador e recorreu a um verdadeiro arsenal de medidas. Diferentemente do IR, no entanto, cuja renúncia fiscal, em tese, será compensada pela tributação dos mais ricos, a maioria das novas iniciativas tem caráter parafiscal, uma temeridade considerando o histórico lulopetista com esse tipo de política.

Medidas parafiscais, em um primeiro momento, não causam impacto no Orçamento Geral da União. Os recursos que bancam essas políticas podem ter origem em fundos, estatais ou bancos públicos. Não há descumprimento de regras fiscais, tampouco é necessário obter aval do Congresso para colocá-las em vigor.

Parece o melhor dos mundos, mas o perigo está na recorrência com que o governo tem feito uso delas, no espírito que o motiva a implementá-las e nas consequências adversas que elas produzem na economia. Depois da isenção do IR, foram anunciadas ao menos dez iniciativas, e nove delas não escondem o caráter eleitoreiro.

A mais recente é a nova etapa do Desenrola, programa de renegociação de dívidas lançado no dia 4 passado e bancado com dinheiro do Fundo de Garantia de Operações (FGO). Além de pessoas físicas inadimplentes, microempreendedores individuais, estudantes e agricultores familiares, a ideia é alcançar quem paga as contas em dia e trabalhadores informais.

Há ainda diversas medidas para estimular a tomada de empréstimos, como o consignado privado, o novo modelo de crédito imobiliário, o Reforma Casa Brasil e as novas faixas do Minha Casa Minha Vida. O governo ainda vai bancar a conta de energia de famílias de baixa renda por meio das faturas de outros consumidores e botijões de gás com dinheiro do pré-sal.

Vem mais por aí. Depois do Move Brasil, com R$ 21,2 bilhões em crédito para a compra de caminhões, ônibus e outros veículos pesados, operacionalizado pelo Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), o governo ainda pretende lançar uma linha de crédito barata para compra de automóveis para taxistas e motoristas de aplicativo, além de subsídios para reduzir preços de gasolina e etanol. O pretexto é ajudar quem utiliza o veículo como fonte de geração de renda, mas é simplesmente impossível não associar as medidas aos auxílios lançados pelo ex-presidente Jair Bolsonaro a meses da disputa eleitoral.

A conta dessas iniciativas, cedo ou tarde, chega ao Orçamento, mas o governo Lula prefere fingir que nada disso terá custo nem prejudicará as contas públicas. Se Lula efetivamente conseguir se reeleger, terá de arcar com a herança maldita gerada por si mesmo. Dessa vez, não poderá jogar a responsabilidade no antecessor.

O Brasil à mercê das máfias

Por O Estado de S. Paulo

Vinte anos depois dos ataques do PCC, o País corre sério risco de se tornar um narcoestado, em que o crime organizado se entranha de tal forma que o Estado já não funciona sem ele

Passados 20 anos dos ataques do Primeiro Comando da Capital (PCC) contra as forças de segurança de São Paulo, que deixaram 564 mortos e aterrorizaram os paulistanos, não restam dúvidas de que o Brasil fracassou até agora no enfrentamento do crime organizado.

Recorde-se que, em vez de reconhecer a força do PCC e enfrentá-lo conforme essa realidade, o poder público entrou em estado de negação. Autoridades paulistas chegaram a se jactar de que o bando havia sido desmantelado. Depois da ofensiva do grupo criminoso, ficou cada vez mais claro que a violência em São Paulo passou a depender dos humores do PCC.

Em paralelo, os políticos e as autoridades empenharam-se em endurecer as penas para os integrantes de facções criminosas, como se a letra da lei bastasse para desestimular o crime organizado. Exigir punições draconianas para os bandidos pode render votos, mas não altera essencialmente o ecossistema que transformou bandos criminosos em empreendimentos prósperos.

O PCC, que nasceu no sistema prisional paulista, ganhou as ruas, dominou territórios, cruzou fronteiras, traçou novas rotas para o tráfico internacional de drogas e diversificou seus negócios, transformando-se numa holding do crime.

O crescimento do grupo impressiona. Há pouco mais de dez anos, o PCC era formado por 7,6 mil integrantes, estava presente em 22 Estados e 3 países e faturava R$ 120 milhões anuais. Hoje, são 40 mil bandidos, em 28 países, movimentando nada menos que R$ 10 bilhões anualmente.

A facção paulista não está sozinha. Um estudo do Fórum Brasileiro de Segurança Pública identificou mais de 80 organizações criminosas nos presídios brasileiros.

Por tudo isso, policiais, promotores, juízes, advogados e estudiosos da segurança pública fizeram um prognóstico perturbador ao Estadão: o Brasil está numa encruzilhada. Ou o País adota novos instrumentos legais para isolar e controlar as facções criminosas, como fez a Itália contra as máfias, ou sucumbe à infiltração da criminalidade no Estado e na economia, como ocorre no México.

É preciso reconhecer que há facções no País que já são máfias. E, como ensina a tradição italiana, a máfia é um parasita que faz da sociedade seu hospedeiro, intimidando os cidadãos, impondo a lei do silêncio, controlando atividades econômicas e contratos públicos e criando barreiras nas eleições, numa relação simbiótica que ameaça a democracia.

O promotor de Justiça Lincoln Gakiya, que investiga o PCC há anos, afirmou ao Estadão que a contaminação contínua das estruturas formais pelo crime organizado causará uma perigosa dependência, culminando num estágio de degradação institucional em que o Estado “não vai mais poder viver” sem a criminalidade, transformando-se num narcoestado.

O Brasil está sentado em cima de um barril de pólvora, enquanto as autoridades parecem insistir em soluções fáceis para desarmar a bomba, sobretudo o populismo penal.

Há quem só se lembre do combate do crime organizado apenas às vésperas das eleições, como o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, com seu programa Brasil Contra o Crime Organizado, lançado na reta final de seu terceiro mandato, após o governo do PT ter sido incapaz de articular medidas efetivas nessa seara.

A solução requer coragem e inteligência: coragem, para retomar territórios capturados pelo crime organizado nas principais metrópoles brasileiras; e inteligência, para asfixiar a lavagem de dinheiro que oxigena as máfias.

Tudo isso aponta para a urgência de o Brasil criar instrumentos robustos e estáveis, como leis e uma agência nacional antimáfia, nos moldes da instituição italiana. A agência produziria dados, promoveria ações com base em evidências e ainda articularia cooperação entre autoridades brasileiras e estrangeiras.

E, não menos importante, os criminosos brasileiros seriam enquadrados numa legislação especificamente antimáfia. A Itália já mostrou como se faz, ao investigar dois integrantes do PCC pelo que eles realmente são: mafiosos.

FGTS para todos os gostos

Por O Estado de S. Paulo

Projeto libera o fundo para comprar armas. Só o trabalhador não tem voz sobre seu próprio dinheiro

A aprovação, pela Comissão de Segurança Pública da Câmara, de um projeto que autoriza o uso do Fundo de Garantia do Tempo de Serviço (FGTS) para a compra de armas ajuda a expor uma contradição antiga e cada vez mais insustentável do modelo brasileiro. O trabalhador é obrigado a entregar parte de sua renda a um fundo compulsório, mal remunerado e de acesso restrito, enquanto políticos decidem, conforme a conveniência ideológica do momento, quais gastos merecem autorização para saque.

Embora seja bastante questionável que parlamentares escolham justamente a compra de armas como prioridade num país marcado por déficits históricos em moradia, saneamento, educação e segurança pública, o problema central não está propriamente no objeto da proposta. Está na lógica paternalista e oportunista que transformou o FGTS numa espécie de instrumento político multifuncional, permanentemente moldado pelas prioridades eleitorais de ocasião. Em vez de discutir seriamente o direito do trabalhador sobre o próprio dinheiro, o Congresso prefere escolher, de tempos em tempos, quais despesas considera moral, política ou eleitoralmente aceitáveis.

O fundo foi criado para oferecer proteção em caso de demissão sem justa causa e para financiar habitação popular. Com o passar dos anos, porém, virou alvo recorrente de medidas improvisadas. Já serviu para estimular consumo, socorrer setores econômicos específicos, liberar recursos emergenciais em momentos de crise e alimentar programas governamentais de diferentes naturezas. Agora, surge a proposta de financiar armamento civil.

A incoerência é evidente. Se o princípio é permitir ao trabalhador maior autonomia sobre um recurso que lhe pertence, então o debate correto deveria ser outro: ampliar de forma estrutural a liberdade de saque, corrigir a baixa rentabilidade do fundo e reduzir a tutela estatal sobre o uso desse dinheiro. Se, por outro lado, o entendimento é que o FGTS deve preservar finalidade social específica, então é preciso parar de convertê-lo em plataforma para acenos populistas de toda espécie.

O que não faz sentido é manter simultaneamente as duas coisas: um sistema rígido, que restringe severamente o acesso do trabalhador ao próprio patrimônio, combinado a liberações pontuais definidas segundo o humor político do Congresso.

A proposta também evidencia a pobreza do debate sobre segurança pública no País. Em vez de formular políticas consistentes de combate ao crime organizado, inteligência policial, controle de fronteiras e fortalecimento institucional, parte da direita insiste em reduzir o tema à expansão do armamento civil. Como se a complexa crise da violência brasileira pudesse ser resolvida por meio de mais uma flexibilização simbólica.

O FGTS não pode continuar funcionando como um cofre eleitoral aberto a sucessivas demagogias. Ou o trabalhador tem mais liberdade real sobre o próprio dinheiro, ou o fundo volta a cumprir, com seriedade e coerência, sua finalidade original. O que não cabe mais é esse modelo híbrido, arbitrário e oportunista que transforma patrimônio do cidadão em ferramenta de marketing político.

EUA e China sinalizam uma bem-vinda trégua duradoura

Por Valor Econômico

Xi deu apoio protocolar à abertura do Estreito, o que significa que não moverá uma palha para resolver um problema cuja responsabilidade atribui única e exclusivamente aos americanos

O encontro entre os líderes das duas maiores potências do mundo, Donald Trump e Xi Jinping, terminou sem mudanças de posições relevantes entre rivais. Trump foi inusualmente comedido em suas palavras durante e depois das reuniões. Xi deu recados claros, diretos, logo de início, indicando que incentivos à independência de Taiwan podem levar a um conflito com a China, e depois fez as mesuras de praxe ao visitante, prometendo, o que já fizera outras vezes, sem cumprir, comprar centenas de Boeings e milhões de toneladas de soja dos EUA. Na discussão da relação, porém, algo mais importante surgiu. Xi pregou "nova estratégia de estabilidade construtiva", com a qual Trump pareceu se sentir confortável. Ambos estão propensos a não ampliar o confronto, em uma espécie de "détente" como a que marcou as relações dos EUA com a URSS dos anos 1960 a 1980, com aumento do diálogo e cooperação e redução das tensões.

Pequim mostrou-se um rival à altura das investidas de Donald Trump, iniciadas já no primeiro mandato com uma guerra comercial que se estendeu ao campo global no segundo. A predominância da produção chinesa de bens vitais para o mundo, como o virtual monopólio de terras raras, deu à China armas econômicas de grande alcance. A ofensiva comercial dos EUA perdeu força na hora em que Xi ameaçou parar de fornecê-las ao mundo, podendo interromper a produção de ímãs para automóveis, mísseis, drones etc. Trump buscou uma trégua até outubro, que pode se estender indefinidamente a partir de agora.

O presidente americano, o mais midiático deles, saiu sem grandes coisas para anunciar. Ao contrário, na questão de Taiwan, sobre a qual recebeu um ultimato inicial, pareceu estar a caminho de um recuo. Ele aprovou novo pacote de venda de armas a Taiwan de US$ 14 bilhões e, na volta de Pequim, disse que não era certo que isso ocorreria. Nenhum ocupante da Casa Branca cogitou discutir o assunto com os chineses e Trump não deve ter feito isso. Mas a dúvida sobre o envio de armas após encontrar-se com Xi mostra o peso de um veto de Pequim.

Cercado por bilionários em sua comitiva, Trump, que deslanchou a maior ofensiva protecionista de um país desenvolvido em tempos modernos, instou a China a abrir seus mercados. Xi disse que seu país continuaria fazendo isso, quando na verdade continuará fazendo o contrário, subsidiando de várias formas os bens da maior plataforma exportadora mundial. Foi ela que permitiu ao país driblar o cerco tarifário americano. Após a trégua comercial, a China obteve seu maior superávit comercial de todos os tempos, de US$ 1,2 trilhão em 2025, exportando mais do que nunca, apesar das medidas americanas.

Além disso, a guerra comercial perdeu força. A Suprema Corte americana derrubou em fevereiro as tarifas do "dia da libertação", pois as leis utilizadas pela Casa Branca não poderiam ter sido usadas para essa finalidade. Agora a Corte Internacional de Comércio considerou que o presidente não poderia ter imposto tarifa global de 10% sem o aval do Congresso. Cabe recurso a essa decisão.

Trump foi pedir a intercessão da China junto ao Irã, aliado político e grande fornecedor de petróleo para o país, para que o tráfego pelo Estreito de Ormuz seja liberado e se chegue a um acordo de paz. Trump mencionou que a trégua com o regime dos aiatolás "está por um fio", em uma guerra cujo preço político lhe está custando caro: perto das cruciais eleições legislativas de meio de mandato, 58% da população americana se opõem ao conflito. Xi deu apoio protocolar à abertura do Estreito, o que significa que não moverá uma palha para resolver um problema cuja responsabilidade única e exclusivamente atribui aos americanos, como os diplomatas deixaram claro em suas declarações durante a visita de Trump.

As medidas comerciais equivocadas de Trump, além de aumentarem a inflação, não melhoraram o comércio externo americano, nem atingiram de forma contundente seu rival, a China. Em abril de 2025, quando foi lançada a ofensiva tarifária, o déficit de mercadorias dos EUA foi de US$ 85,4 bilhões. Em março passado, atingiu US$ 87,4 bilhões. A alta da inflação trouxe mais descontentamento contra Trump, hoje avaliado de forma negativa por quase dois terços dos eleitores nas pesquisas sobre a condução da política econômica. Os juros pararam de cair e as apostas se voltam agora sobre quando subirão.

A falta de apoio chinês para encerrar a guerra no Irã, que caminha para o quarto mês, elevou na sexta-feira os juros de títulos do Tesouro e derrubou as bolsas americanas. O papel de 30 anos atingiu 5,12%, o nível mais alto em um ano, e, pela primeira vez desde 2007, o Tesouro fez leilão desses títulos pagando mais de 5%. O choque do petróleo intensificou o temor da inflação e poderá provocar mais e maiores estragos na economia real e nos mercados financeiros.

Apesar de tudo, uma trégua permanente na disputa dos EUA com a China, se sustentada, dará tempo a que os países possam, sem a pressão da urgência, se adaptar a uma nova ordem global que tende a ser multipolar, na qual, ao contrário do que crê Trump, os EUA não serão os únicos a deter o comando.

Desigualdade econômica e os impactos na educação

Por Correio Braziliense

O desenvolvimento depende da inovação, e quando as oportunidades não são distribuídas de maneira uniforme pela população esse elo se quebra

Em meio a avanços conquistados na garantia da qualidade de vida, o mundo ainda apresenta desigualdades que impedem o crescimento econômico, tecnológico e humano de forma global. Na educação, pilar para o desenvolvimento das nações e a dignidade de cada indivíduo, as diferenças claramente se transformam em freio estrutural e perda social.

A complexidade do tema aponta amplos desafios e, desbancando o senso comum, o boletim "Oportunidades desiguais: infância e desigualdade econômica", elaborado pelo Fundo das Nações Unidas para a Infância, o Unicef, indica que viver em um país rico não garante que todas as crianças sejam igualmente felizes, saudáveis ou tenham o mesmo nível de competências. O abismo financeiro nessas nações está associado a piores condições de saúde e a resultados mais fracos nas escolas para os que não alcançam os privilégios dos recursos que a minoria desfruta. 

A análise dos dados também mostra que a disparidade de rendimentos tem um impacto profundo na aprendizagem de milhões de meninos e meninas. As crianças dos países desiguais têm probabilidade de 65% de sair da sala de aula sem competências básicas de leitura e matemática, comparativamente com 40% das que vivem em nações mais igualitárias. Fato é que o desenvolvimento depende da inovação e, quando as oportunidades não são distribuídas de maneira uniforme pela população, esse elo se quebra. 

Presos a um ciclo de sobrevivência, os talentos deixam de contribuir para a ciência porque não conseguem atingir a plena capacidade que possuem. O que se percebe é que a desigualdade econômica não se manifesta apenas na diferença salarial entre os adultos, mas se traduz em discrepâncias gritantes no acesso ao ensino de qualidade, saúde, alimentação adequada, saneamento e moradia segura para as crianças. Essas privações interconectadas criam um ambiente em que um imensurável potencial acaba sufocado antes mesmo de se apresentar.

Um agravante apontado pelo Unicef é que indivíduos nascidos em famílias de baixa renda muitas vezes enfrentam desvantagens que se acumulam ao longo dos anos, limitando perspectivas e reproduzindo a estrutura de desigualdades. Nesse contexto do qual nem os países ricos escapam, os governos precisam se unir em um esforço para a adoção de medidas que reduzam a pobreza infantil e os seus impactos. A sociedade globalizada não pode permitir que ciclos de desvantagem desde a mais tenra idade se perpetuem. 

No Brasil, é clara a urgência de políticas públicas eficazes e equitativas. Investimentos em programas de proteção social, saúde e educação infantil de qualidade são cruciais para romper a roda da desigualdade que causa prejuízos pessoais e coletivos. É fundamental que o país diminua significativamente a lacuna de desempenho entre as crianças de diferentes origens socioeconômicas, oferecendo a todas as ferramentas necessárias para uma vida promissora. 

O boletim divulgado pelo Unicef é um forte lembrete de que a redução do abismo econômico não se restringe a uma questão de justiça social, mas é um imperativo para assegurar o desenvolvimento sustentável das nações, construindo um futuro próspero e inclusivo.

Com IA, exploração sexual de crianças e adolescentes cresceu 450% em um ano

Por O Povo (CE)

Abusadores sexuais aproveitam avanço das IAs para exploração sexual infantil; poder público e sociedade civil devem unir-se para combinar vigilância e inteligência investigativa em prol da infância brasileira

O Dia Nacional de Combate ao Abuso e à Exploração Sexual de Crianças e Adolescentes convida à reflexão ativa sobre a segurança da infância brasileira, principalmente no universo online. Segundo o relatório da rede internacional InHope de 2025, o esquema de exploração sexual de crianças e adolescentes se complexificou no último ano com o suporte de tecnologias de inteligência artificial (IA): foi um aumento de 450% em registros online suspeitos de abuso sexual infantil entre 2024 e 2025.

As principais vítimas são meninas de 3 a 13 anos, mas o documento frisar que "o abuso de meninos provavelmente é sub-representado devido ao estigma social, às táticas de aliciamento e à menor frequência de auto identificação". O padrão segue no offline: no Ceará, foram contabilizadas 23.006 vítimas de violência sexual infantil entre 2009 e 2024, maioria meninas de 13 anos, segundo dados obtidos via Lei de Acesso à Informação (LAI) pela Central de Dados O POVO .

Se o padrão das vítimas se mantém, as técnicas sofisticadas de exploração virtual mudam. De acordo com o InHope, houve uma ampliação dos tipos de conteúdo ilegal na internet. Entre elas, "gravações voyeurísticas, representações animadas ou estilizadas, imagens personalizadas geradas por IA e representações virtuais de menores, não nuas, mas sexualmente sugestivas".

Os abusadores também incrementaram as estratégias de distribuição e de ofuscação do monitoramento. Além de sinais codificados, alguns materiais são otimizados para o uso em smartphones, exigindo o download de um aplicativo. Para isso, eles utilizam plataformas de streaming e interfaces de busca que direcionam o usuário para um conteúdo de abuso sexual infantil hospedado externamente, dificultando a fiscalização — que não evolui tão rápido quanto.

A acelerada evolução de tecnologias motivou o Brasil a realizar uma atualização legislativa e sancionar o ECA Digital, focado na proteção integral da infância e da adolescência no ambiente online. Uma das novidades é que empresas com mais de um milhão de usuários menores de 18 anos precisam publicar relatórios periódicos de transparência, apresentando dados sobre denúncias, remoção de conteúdos, medidas de proteção e uso de ferramentas de controle parental.

Além disso, as plataformas são obrigadas a agir rapidamente na remoção de conteúdos como exploração sexual, assédio, cyberbullying, discurso de ódio ou incentivo a desafios perigosos; o descumprimento é passível de sanções como multas, advertências, suspensão de serviços ou mesmo proibição de funcionamento no país.

Enquanto a luta pela segurança de crianças e adolescentes offline resiste, o combate contra o abuso online está só começando. Órgãos públicos e sociedade civil devem se unir em prol da infância, seja pelo monitoramento e por denúncias, seja pela aplicação de inteligência capaz de acompanhar a teia de exploradores sexuais na internet.

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