O Globo
Hoje, quando apanhado, o corrupto se declara
vítima. Quando não tem mais jeito de negar, vai para a delação premiada
Estamos em 1993, o presidente da República é
Itamar Franco, e seu ministro da Fazenda é Eliseu Resende. Vaza a informação de
que Resende recebera vantagens impróprias de uma empreiteira durante viagem a
Nova York. Itamar o demite. A empreiteira era a Andrade Gutierrez, que pagara
uma conta de hotel de Resende. Valor: US$ 830!
Reparem. O ministro, técnico respeitado, caiu por aceitar uma cortesia de míseros US$ 830. E mais: a viagem havia sido feita antes de Resende assumir o Ministério da Fazenda. Em dinheiro de hoje, esse valor paga uma diária no hotel Península de Londres, onde algumas autoridades se hospedaram por alguns dias, comeram e beberam por conta de Daniel Vorcaro. E acharam tudo muito normal.
Outra do Itamar. Seu ministro-chefe da Casa
Civil era Henrique Hargreaves, amigo de absoluta confiança. No Congresso,
estava em andamento a CPI do Orçamento, e ali apareceram denúncias de que
Hargreaves recebia dinheiro “por fora”. Eram suspeitas, mas Itamar resolveu
afastá-lo até que se provasse sua inocência. O golpe foi tão pesado que
Hargreaves sofreu um infarto. Sobreviveu, provou-se a inocência, e ele voltou
ao cargo.
Há duas lições aqui. Primeira, a suspeita ou,
como alguns diriam, a “simples” suspeita é, sim, causa de afastamento do
serviço público. Segunda, um homem honrado pode literalmente morrer de vergonha
quando envolvido em denúncias de corrupção.
Hoje, quando apanhado, o corrupto
imediatamente se declara inocente, vítima de injustiças e perseguições. Quando
não tem mais jeito de negar, vai para a delação premiada. Entrega, confessa,
mas para salvar alguns trocados que garantam uma boa vida e — quem sabe? — a
volta aos negócios. Já aconteceu com muitos que foram apanhados pela Operação
Lava-Jato e hoje estão por aí, na boa, negociando com governos.
Itamar sucedia a Fernando Collor, que sofrera
impeachment por causa de grossa corrupção. Ainda assim, na casa dos milhões. Na
Lava-Jato, os valores do dinheiro roubado chegaram aos bilhões. No caso
Vorcaro, dezenas de bilhões. Pode-se dizer que foram em vão os exemplos
deixados por Itamar Franco.
No público, a impressão é que a roubalheira é
generalizada em todos os governos, de Brasília aos municípios.
— A cada dia que passa, temos a sensação de
que a corrupção tomou conta do país; não há o que fazer: sofremos de uma doença
incurável — escreveu na revista Veja a economista Maria Cristina Pinotti, sem
dúvida a maior autoridade no estudo dos impactos da corrupção na sociedade.
Para ela, entretanto, a doença não é
incurável. A cura é difícil, mas absolutamente necessária para que o país
escape dessa situação de baixo crescimento e enorme desigualdade. A sensação de
roubalheira geral é disruptiva. Imagine o cidadão comum, que entrega em dia sua
declaração de IR, paga os impostos e todo dia toma conhecimento de algum
episódio de roubo de dinheiro público, o dinheiro que ele pagou. Por que pagar
de novo?
O empresário honesto se vê numa competição
desleal. O concorrente ganha os contratos não por ser mais eficiente, mas por
dispor dos melhores contatos nos governos. As obras são feitas e os serviços
prestados não para buscar o bem comum, mas porque dão mais dinheiro para
alguns. Como escapar dessa situação? Pela atuação civil das pessoas honestas,
pelo trabalho de instituições sérias e pelo apoio a políticos e servidores
sérios.
Pinotti sugere o caminho. Primeiro, avaliar o
tamanho da corrupção — tarefa obviamente difícil, mas que pode ser cumprida por
boas pesquisas e análises dos gastos públicos. A partir daí, é necessário
reformar a legislação penal, para redefinir o crime de corrupção e as
penalidades. Para isso, claro, precisamos do Poder Legislativo. E, para aplicar
uma nova legislação, precisamos da ação do Judiciário.
Imagino a sensação de desânimo do leitor...
mas é nesses Poderes que encontramos corrupção. Pois é. Ninguém disse que é
fácil. Mas a Itália conseguiu. E sempre temos o voto. Quem sabe nos aparece um
novo Itamar.

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