Folha de S. Paulo
Quando dinheiro e poder se encontram nas
sombras, a confiança pública colapsa
Revelações alimentam a sensação de que a
República inteira cabe na algibeira de um banqueiro
Estamos no meio de mais uma sequência de
revelações da novela "O Complô", transmitida 24 horas por dia pelos
celulares de todos os brasileiros. Agora, além da trama amorosa exposta pelos
vazamentos, temos a suspeitíssima troca de misteriosos bilhetes digitais que as
revelações atribuem ao banqueiro
e um membro da Suprema Corte. Difícil decidir qual dos enredos nos
enrubesce mais.
Que os personagens principais são complexos, não há dúvida. De um lado, um banqueiro que não era bem banqueiro, que gastava como um príncipe herdeiro de alguma casa real dos Emirados Árabes e traficava —e exibia— influência neste paraíso tropical com desarmante desenvoltura. De outro, o juiz celebrado como herói da democracia, última linha de zaga contra a investida golpista do bolsonarismo.
Ao redor deles, por enquanto, aparece uma
rede de relações que atravessa diferentes centros de poder: proprietários de
partidos políticos e agentes do "big money", dos quais o público já
espera venalidade, além de membros da cúpula do Judiciário —a novidade desta
temporada.
Estamos apenas nos primeiros episódios. Não é
possível saber o que ainda virá nem se a história ficará de pé no final. O
fato, porém, é que neste momento a sensação que se espalha no debate público
assume uma forma brutal na sua simplicidade: parece que a República inteira
cabia na algibeira de um banqueiro.
Quando essa sensação se estabelece, o
problema deixa de ser apenas moral ou penal. Escândalos existem em qualquer
democracia e, em princípio, podem ser enfrentados com investigação e punição. O
que causa verdadeiro alarme é outra coisa: a suspeita de que o poder político
que realmente conta esteja operando à margem das instituições formais, passando
por vias sinistras e ocultas, fora do alcance do conhecimento público e da
responsabilização democrática.
Quando relações obscuras entre dinheiro,
política e autoridades públicas passam a explicar comportamentos que as regras
institucionais já não conseguem justificar, instala-se o sentimento de que o
poder visível talvez não seja o poder real.
A tradição liberal sempre teve dois grandes
adversários. O primeiro é o poder absoluto, exercido nas sombras e protegido
pelo segredo de Estado —o velho universo dos "arcana imperii". Contra
ele, o liberalismo ergue suas instituições fundamentais: publicidade dos atos
de governo, prestação de contas, separação de Poderes e Estado de Direito.
Trata-se de substituir o governo do arbítrio pelo governo submetido ao
constrangimento da transparência, da prestação de contas e do escrutínio dos
cidadãos.
Mas há uma segunda ameaça, ainda mais
assustadora: os chamados "governos invisíveis". Mesmo quando as
instituições são formalmente democráticas, teme-se que redes de influência
protegidas pelo segredo estejam movendo as cordinhas por trás da cena pública
do Estado. É o poder do dinheiro moldando decisões —inclusive judiciais e
legislativas—, são as eminências pardas que atuam por trás dos tronos, são os
conluios que articulam interesses privados longe do olhar público. Neste caso,
as instituições permanecem de pé, mas passam a funcionar como fachada de
decisões tomadas em outro lugar por atores protegidos pelas sombras.
Quando suspeitas dessa natureza atingem
também a cúpula do Judiciário, ocorre algo gravíssimo. O Judiciário ocupa, na
arquitetura democrática, o lugar de última salvaguarda do Estado de Direito. A
percepção de que até esse espaço pode estar exposto à influência indevida de
dinheiro e interesses particulares produz um efeito corrosivo imediato na
confiança pública.
Ainda mais quando episódios como este
encontram uma cultura política como a nossa, já marcada por dois traços
persistentes: o ceticismo quanto à honestidade dos agentes públicos e a
inclinação a interpretar a política como palco de forças ocultas que manipulam
os acontecimentos por trás das instituições formais. Não se trata mais apenas
de um escândalo concreto, mas da confirmação de um sentimento difuso de que as
instituições são apenas fachada e a soberania popular uma conversa para boi
dormir.
O resultado? Intensifica-se uma espiral
destrutiva. A desconfiança generalizada alimenta o voto antipolítica e
fortalece radicalismos puristas e punitivistas. Além de reforçar o
"agnosticismo democrático", em que as pessoas não se tornam
necessariamente inimigas da democracia, mas passam a considerá-la irrelevante
—um jogo de cartas marcadas em que os verdadeiros jogadores nunca aparecem à
mesa.
Esperemos que os próximos capítulos não
confirmem os piores dos nossos medos.

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