O Estado de S. Paulo
Um dia vamos nos dar conta de que o Brasil
foi roubado. Tiraram, vão estampar as manchetes, o nosso sistema financeiro e
sistema legal, bem como nossa ética. O governo – seremos informados – não
governa para nós, mas para ele. Quem pensava que governo e sociedade marchavam
juntos hoje sabe que as elites estão roubando o Brasil pelo Brasil.
Desde Cabral e com d. João VI, a sociedade foi construída por nobres que daqui tiraram o que podiam. Como se faz até hoje, o controle de pontos-chave do sistema pertence a gente pronta a receber parceiros com a vorcaridade de um Daniel Vorcaro, um banqueiro cujo banco acumulava e distribuía recursos a uma rede de amigos.
Não roubamos dos outros como hoje fazem os
pequenos larápios e os quadrilheiros de drogas. Somos mais perversos: roubamos
de nós mesmos como governantes, ministros e “políticos” e hoje relativizamos
leis ancorados na onipotência de magistrados do STF.
A elite engloba sobretudo os magistrados, que
deveriam renunciar às falcatruas e aos negócios numa postura de reclusão. O
papel de juiz se define pela busca extremada de isenção e sincera
transparência. Quem julga coisas diabólicas como dinheiro e poder tem de ser
apóstolo de uma inabalável “ética de convicção”, como remarca Max Weber.
Como ter democracia com uma elite blindada e
aparafusada por penduricalhos e projetos de locupletar-se por meio dos cargos
públicos?
A internet com seus tsunamis de notícias
revela como o Estado é roubado pelo governo que, por meio dos nossos
“representantes” quinta-coluna, assalta dia e noite a sociedade. As relações de
amizade relativizam cargos marcados pela solenidade de sua impessoalidade de a
todos servir com isenção. É justo nesse ponto – a todos servir – que jaz o
requerimento de impessoalidade universalista que sustenta a racionalidade
burocrática da lei valendo para todos.
Temos problemas “de não hesitar diante de
todas as coragens, menos da coragem de negar o pedido de um amigo”, escreveu
Oliveira Vianna, no seu Pequenos Estudos de Psicologia Social, em 1923. Pena
que não tenha levado mais a sério esse profundo insight do poder da “casa” e
dos elos pessoais que dobram o Executivo, o Legislativo e o Judiciário no
Brasil.
Laços que hoje provocam vergonha, pois transcenderam o campo do político para o campo propositadamente complicado da magistratura, facilitando a vida dos meliantes que destroem a confiança no capitalismo financeiro cujo cerne impessoal não resistiu à força do projeto de enobrecer enricando com a cumplicidade dos compadrios e de insuspeitadas simpatias, pois é justamente assim que o Brasil frauda o Brasil. Em suma, trata-se de um sistema senil e incapaz de lidar com suas contradições.

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