quarta-feira, 11 de março de 2026

O roubo do Brasil, por Roberto DaMatta

O Estado de S. Paulo

Um dia vamos nos dar conta de que o Brasil foi roubado. Tiraram, vão estampar as manchetes, o nosso sistema financeiro e sistema legal, bem como nossa ética. O governo – seremos informados – não governa para nós, mas para ele. Quem pensava que governo e sociedade marchavam juntos hoje sabe que as elites estão roubando o Brasil pelo Brasil.

Desde Cabral e com d. João VI, a sociedade foi construída por nobres que daqui tiraram o que podiam. Como se faz até hoje, o controle de pontos-chave do sistema pertence a gente pronta a receber parceiros com a vorcaridade de um Daniel Vorcaro, um banqueiro cujo banco acumulava e distribuía recursos a uma rede de amigos.

Não roubamos dos outros como hoje fazem os pequenos larápios e os quadrilheiros de drogas. Somos mais perversos: roubamos de nós mesmos como governantes, ministros e “políticos” e hoje relativizamos leis ancorados na onipotência de magistrados do STF.

A elite engloba sobretudo os magistrados, que deveriam renunciar às falcatruas e aos negócios numa postura de reclusão. O papel de juiz se define pela busca extremada de isenção e sincera transparência. Quem julga coisas diabólicas como dinheiro e poder tem de ser apóstolo de uma inabalável “ética de convicção”, como remarca Max Weber.

Como ter democracia com uma elite blindada e aparafusada por penduricalhos e projetos de locupletar-se por meio dos cargos públicos?

A internet com seus tsunamis de notícias revela como o Estado é roubado pelo governo que, por meio dos nossos “representantes” quinta-coluna, assalta dia e noite a sociedade. As relações de amizade relativizam cargos marcados pela solenidade de sua impessoalidade de a todos servir com isenção. É justo nesse ponto – a todos servir – que jaz o requerimento de impessoalidade universalista que sustenta a racionalidade burocrática da lei valendo para todos.

Temos problemas “de não hesitar diante de todas as coragens, menos da coragem de negar o pedido de um amigo”, escreveu Oliveira Vianna, no seu Pequenos Estudos de Psicologia Social, em 1923. Pena que não tenha levado mais a sério esse profundo insight do poder da “casa” e dos elos pessoais que dobram o Executivo, o Legislativo e o Judiciário no Brasil.

Laços que hoje provocam vergonha, pois transcenderam o campo do político para o campo propositadamente complicado da magistratura, facilitando a vida dos meliantes que destroem a confiança no capitalismo financeiro cujo cerne impessoal não resistiu à força do projeto de enobrecer enricando com a cumplicidade dos compadrios e de insuspeitadas simpatias, pois é justamente assim que o Brasil frauda o Brasil. Em suma, trata-se de um sistema senil e incapaz de lidar com suas contradições.

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