O Globo
Fachin e Lula são alguns dos que terão seu
destino imediato marcado pelo desenlace das investigações sobre o escândalo do
Master
À medida que o caso Master cresce e seu
desfecho se torna mais imprevisível, aumenta o número de reféns desse que já é
um dos maiores escândalos político-financeiros da História do Brasil. A cúpula
dos três Poderes encabeça a lista daqueles cujo destino imediato está atrelado
ao desenlace das investigações.
A passagem de Edson Fachin pela presidência do Supremo Tribunal Federal será contada, no futuro, pela resposta institucional que ele conseguir dar ao enredamento de dois dos integrantes da Corte na teia de Daniel Vorcaro. A nova rodada da pesquisa Meio/Ideia ajuda a mostrar o tamanho da encrenca.
O STF é a instituição mais associada ao
escândalo: 35% citam a Corte, ante 21% que apontam o governo federal e 18% que
escolhem o Congresso. Para 70%, a credibilidade do Supremo já está abalada pelo
episódio, e 44% dizem que a defesa de impeachment de ministros da Corte
aumentará a chance de votar num candidato ao Senado.
O que era uma percepção difusa agora ganha
contornos estatísticos: a falta de explicações cabais e críveis da ligação de
Alexandre de Moraes com Vorcaro tisnou até a percepção a respeito da condenação
de Jair Bolsonaro. Nesse levantamento, 54% dizem não acreditar que o
ex-presidente tenha tramado um golpe de Estado.
Até aqui, Fachin tem mandado recados em
público e mantido conversas em privado que não parecem ter força suficiente
para conscientizar o conjunto dos ministros de que agir como sempre, com o
corporativismo costumeiro, não é uma possibilidade diante desse caso.
O julgamento pelo plenário virtual da Segunda
Turma a respeito da prisão de Vorcaro e das demais decisões cautelares do
relator André Mendonça será decisivo. Se Dias Toffoli levar adiante sua
disposição de votar normalmente como se nada o impedisse e se a maioria mandar
soltar o ex-banqueiro, o colegiado lançará o tribunal num novo patamar de
desmoralização.
Para Lula, a equação não parece menos
complexa de resolver. Uma pista importante sobre o impacto político do episódio
aparece em entrevista recente do cientista político Alberto Almeida ao editor
Thiago Prado, do GLOBO. Ele diz que o desgaste do caso recai mais fortemente
sobre o presidente que sobre a direita e seu candidato, Flávio Bolsonaro, ainda
que ele não tenha nenhuma ligação direta com Vorcaro e seu banco.
Almeida, interlocutor histórico da esquerda,
afirma que Lula hoje seria “favorito para perder”. São vários os analistas que
têm se debruçado sobre a dificuldade global de incumbentes se reelegerem em
cenários de alta polarização. As últimas rodadas de pesquisas têm comprovado a
tendência, ao mostrar uma situação de empate técnico entre Lula e Flávio
Bolsonaro, até então tachado pela esquerda como fácil de derrotar.
Não se trata apenas de perda pontual de apoio
do presidente, mas da reativação de um sentimento difuso de desconfiança na
política e nas instituições, e de associação de Lula e do PT à corrupção. Esse
efeito ocorre porque o caso Master acabou funcionando como catalisador de uma
narrativa já presente no debate público: a da proximidade excessiva entre
política, Judiciário e disputas de poder.
No Congresso, a contaminação generalizada
pelo vírus Vorcaro funciona para um pacto silencioso contra investigações mais
incisivas. Todo mundo trabalha para que as duas CPIs que acabaram tangenciando
o assunto terminem logo e para que uma específica não seja instalada.
A dificuldade da direita de surfar totalmente
essa onda, para desgastar Moraes e Lula, decorre do fato de o bolsonarismo
também não sair incólume do episódio: Fabiano Zettel, braço operacional de
Vorcaro e também preso, foi o maior doador individual de Jair Bolsonaro e Tarcísio
de Freitas em 2022.
Crises institucionais prolongadas e
generalizadas raramente produzem vencedores claros. Em geral, deixam como saldo
o enfraquecimento difuso das instituições, exatamente o cenário de que o país
menos precisa às vésperas de uma disputa presidencial.

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