O Globo
País poderá sair pior do que entrou no conflito, e com o risco de abrir espaço para mais avanço chinês globalmente e de colher mais enfraquecimento do dólar no mundo.
As repercussões do conflito no Oriente Médio
são tão severas, inclusive para os EUA, que causa espanto a ofensiva americana,
especialmente porque havia negociações em curso com o Irã, na esteira do ataque
de 2025. Enquanto isso, autoridades do país persa já externaram o objetivo de
elevar o custo econômico da guerra para estimular o recuo dos agressores, até
porque não ficou clara a razão para a ação dos EUA.
Uma interpretação inevitável é que fragilizar a economia chinesa fez parte do cálculo dos EUA. A mesma leitura seria possível na investida contra a Venezuela, pelo fornecimento de petróleo à China, com a diferença de que ações mais efetivas de influência dos EUA na produção e venda do petróleo, como intencionado por Trump, não seriam viáveis no Irã.
Na guerra comercial entre os países, em que a
China está na dianteira na corrida da tecnologia digital e de transição
energética, os EUA parecem querer deter o dinamismo da economia rival.
De fato, a China tem muito a perder no
conflito: a fonte de combustível mais barato (13% da importação vem do Irã); o
canal crescente de exportações, especialmente desde o expressivo encolhimento
do mercado americano; o investimento no Oriente Médio, sendo a China o maior
investidor em dessalinização da água na região; e o aumento do risco de
crédito, como aqueles relacionados a refinarias e à produção e ao transporte de
commodities.
Segundo o New York Times, as exportações
chinesas ao Oriente Médio cresceram quase o dobro das exportações para o resto
do mundo em 2025. O mesmo vale para o investimento chinês. Há custos imediatos
para a China, contornáveis em um país sem eleições, mas há também para os EUA,
e talvez bastante relevantes, não apenas no curto prazo, mas também em uma
perspectiva de longo prazo.
Nos efeitos mais imediatos, há o impacto nas
bombas de gasolina, que é automático nos EUA — o preço da gasolina já subiu em
média quase 17%, e o do diesel, 24% —, podendo respingar em outros preços e
abalar a frágil confiança do consumidor. O mau humor dos mercados adiciona
riscos, inclusive pela importância da bolsa na poupança das classes médias —
cerca de dois terços dos americanos de renda média têm investimento na bolsa.
Os negócios do país no Oriente Médio também
são impactados, e há riscos para a agropecuária do Hemisfério Norte, com
plantio em breve, por conta do aumento de custos, já que o golfo persa é fonte
dominante de insumos agrícolas — a região responde por mais de um terço da
ureia e quase um quarto da amônia no mundo, com escoamento por Ormuz, e a
alternativa de fornecimento pela China ficou inviável por conta de restrições à
exportação impostas para proteger o país de choques geopolíticos.
Quanto ao mercado de trabalho, não que o
conflito possa impactá-lo severamente, mas ele não vem em bom momento,
inclusive com revisões para baixo na geração de vagas.
Os custos para os cofres americanos agravam o
quadro fiscal. O Departamento de Orçamento do Congresso vem alertando para a
deterioração fiscal na gestão Trump, que já havia herdado números preocupantes
de Joe Biden. O déficit primário para 2026 está previsto em 2,6% do PIB, e o
nominal (inclui pagamento de juros), em 5,8% do PIB, isso antes da guerra.
Enquanto isso, o Centro de Estudos
Estratégicos e Internacionais, em Washington DC, estima que a guerra está
custando cerca de US$ 891,4 milhões por dia e demandará a suplementação de
recursos ao Congresso.
No caso de um conflito prolongado, que esgote
estoques estratégicos de insumos, a própria produção de chips e outros produtos
intensivos em tecnologia ficaria comprometida. Há grande dependência de Taiwan
e Coreia do Sul, além da China, em insumos que passam pelo Estreito de Ormuz. E
na complexa e pulverizada cadeia de produção do setor, prejudica-se também o
abastecimento de empresas nos EUA, como Apple e Nvidia.
Todo esse contexto poderá pesar nas eleições
do Congresso em novembro.
Em uma perspectiva de mais longo prazo,
trata-se de mais um fator a enfraquecer a liderança global dos EUA. Passada a
tempestade, o país poderá sair pior do que entrou no conflito, e com o risco de
abrir espaço para mais avanço chinês globalmente e de colher mais
enfraquecimento do dólar no mundo.
Trump, sem grande surpresa, dá sinais de recuo nessa guerra desnecessária aos interesses americanos.

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