Jornal da Unicamp
Se há algo que precisa ser enfrentado com
clareza no sistema vigente, é sua natureza historicamente desigual
No artigo
anterior discutimos como o Estado passou a operar sob emergência quase
permanente. A conversa agora é outra: o que acontece com a proteção social
quando as instituições responsáveis por sustentar a vida social permanecem
organizadas segundo uma realidade que já mudou?
A proteção social brasileira nunca foi justa nem universal. Vem sendo construída de forma fragmentada, refletindo hierarquias sociais e pactos políticos específicos. Ao longo do tempo, registrou avanços reais: ampliou direitos, incorporou milhões de pessoas e estruturou mecanismos de renda e assistência. Mas manteve a matriz originária, marcada por profundas desigualdades: regimes privilegiados, benefícios desproporcionais e exclusões persistentes de trabalhadores informais fizeram com que a proteção alcançasse sobretudo quem já estava integrado ao mercado formal ou ocupava posições protegidas – como servidores públicos e algumas carreiras especiais. Milhões ainda estão à margem em um arranjo moldado pelas disputas e compromissos políticos de cada período.
Hoje, o debate público concentra-se na sustentabilidade
financeira: projeções atuariais, regras de aposentadoria, impacto do
salário-mínimo. Essa agenda é necessária: sem sustentabilidade não há política
social viável. O problema é que ajustar parâmetros, corrigir pequenas
distorções e tentar prolongar a viabilidade de um sistema institucional pensado
para uma sociedade diferente da atual não parece resolver nem os problemas
atuais, nem assegurar a sustentabilidade futura e, de modo mais grave, também
não nos prepara para lidar com os desafios associados às mudanças no ciclo de
vida, que já são visíveis hoje.
O núcleo da proteção social:
cuidar, proteger e integrar
A proteção social não se resume a
transferências monetárias. Ela é, ou deveria ser, o conjunto de instituições e
arranjos que sustentam o ciclo de vida em três dimensões fundamentais: cuidar,
proteger e integrar.
Cuidar significa
oferecer suporte quando a autonomia individual está reduzida – na infância, na
doença, na deficiência ou na velhice. Cuidado envolve tempo, presença,
serviços, redes de apoio. Não se resume a renda. Crianças precisam de ambiente
seguro, educação e acompanhamento; idosos precisam de acesso à saúde,
convivência e mobilidade. Transferências monetárias são apenas parte dessa
arquitetura. O cuidado é relacional e institucional ao mesmo tempo.
Proteger significa
reduzir a exposição a riscos que indivíduos não conseguem administrar
isoladamente, como perda de renda, desemprego ou incapacidade laboral,
desastres ambientais. Aqui a dimensão financeira é central – mas não exclusiva.
Proteger não é apenas pagar um benefício; é organizar mecanismos que evitem que
um choque se transforme em exclusão permanente.
Integrar significa
garantir que indivíduos permaneçam conectados à vida econômica e social ao
longo do tempo. A proteção social não deveria apenas compensar perdas, mas
facilitar reinserção produtiva, continuidade educacional e participação social.
Essas três funções sempre estiveram
presentes, ainda que de forma desigual. O problema contemporâneo é que as bases
sociais que sustentavam esse arranjo mudaram de forma acelerada, enquanto as
instituições responsáveis por organizá-lo evoluíram muito mais lentamente. E o
debate público permanece concentrado em idades mínimas, regras de transição,
fórmulas de cálculo. São questões importantes, mas que não dialogam com as
transformações em curso e por isso mesmo não encaminham para a solução dos
problemas.
Transformações silenciosas
O descompasso não decorre de um único fator,
mas da convergência de transformações que alteraram profundamente todo o modelo
de proteção social construído nas últimas décadas.
A primeira transformação é demográfica.
Vivemos mais – isso é uma conquista, mas a longevidade amplia o período
pós-aposentadoria, aumenta a demanda por cuidados de longa duração e pressiona
redes familiares que já não têm a mesma densidade de antes. Os sistemas de
proteção não foram preparados para esse cenário e seguem sem se preparar.
A segunda é produtiva. Trajetórias de
trabalho tornaram-se mais instáveis e descontínuas, com alternância entre
formalidade e informalidade, múltiplas ocupações e contribuições irregulares
para um sistema baseado na continuidade contributiva. O problema não é apenas
financeiro; é estrutural, na medida em que a base contributiva deixou de
corresponder às trajetórias reais e às necessidades dos beneficiários.
A terceira transformação é familiar e social.
Famílias menores, maior dispersão geográfica, aumento de arranjos monoparentais
e envelhecimento simultâneo de diferentes gerações reduziram a capacidade
tradicional de cuidar de crianças, idosos ou pessoas doentes dentro da própria
família. O que antes era amortecido por redes informais hoje depende mais
intensamente de serviços organizados, que não parecem estar sendo construídos.
Essas mudanças não atuam isoladamente. Elas
se reforçam. Mais longevidade, trabalho instável e redes familiares mais
frágeis ampliam simultaneamente a demanda por cuidado, tensionam os mecanismos
de proteção e tornam mais complexa a integração ao longo da vida.
Ainda assim, a resposta institucional
permanece concentrada nos já mencionados ajustes paramétricos – alteração de
idades mínimas, regras de cálculo ou fórmulas de benefício. Essas medidas podem
aliviar pressões fiscais, mas não reorganizam as bases do sistema diante das transformações
em curso.
Estado e sociedade diante da
reconstrução necessária
Que fique claro: a reorganização da proteção
social não é tarefa exclusiva do Estado, mas tampouco pode ser delegada
inteiramente à sociedade. No século XX, a proteção social se apoiou num
equilíbrio entre família, mercado de trabalho e Estado. Famílias assumiam
grande parte do cuidado cotidiano, o trabalho integrava indivíduos ao sistema
produtivo e social e o Estado atuava – ou deveria atuar – como estabilizador,
oferecendo proteção complementar diante de riscos como doença, velhice ou
desemprego.
Esse equilíbrio nunca foi perfeito. Mas
existia uma divisão relativamente clara de responsabilidades. Hoje, essa
divisão tornou-se menos funcional. Famílias menores estão mais sobrecarregadas,
mercados de trabalho são mais instáveis e menos capaz de oferecer trajetórias
previsíveis, e o Estado permanece imerso nas urgências do presente e organizado
em torno de instrumentos desenhados para outra realidade social.
Diante desse cenário, duas respostas
simplificadoras tendem a dominar o debate. De um lado, a expectativa de
expansão indefinida da atuação estatal. De outro, a transferência crescente de
responsabilidades para famílias, mercado ou redes informais.
Nenhuma dessas alternativas resolve o
problema. A reorganização da proteção social exige redefinir, de forma coordenada,
os papéis de Estado e sociedade. O Estado permanece central na definição de
regras, na provisão de serviços essenciais e na garantia de equidade. Mas
empresas, comunidades e organizações civis também participam da produção
concreta das condições de cuidado, proteção e integração.
Cuidar de crianças e idosos envolve políticas
públicas, mas também arranjos empresariais, redes comunitárias e pactos
intergeracionais. Proteger trabalhadores em trajetórias mais instáveis exige
instrumentos públicos, mas também inovação institucional no mercado de
trabalho. Integrar indivíduos em diferentes momentos da vida depende da
articulação entre educação, trabalho e políticas sociais.
Sem essa articulação, a adaptação tende a
seguir um caminho inercial. Famílias reorganizam-se como podem, o mercado
oferece soluções privadas para quem pode pagar, e o Estado ajusta parâmetros
dentro de estruturas herdadas do passado. O resultado é maior segmentação e
desigualdade no acesso à proteção.
Considerações finais
Este texto não sustenta que a proteção social
esteja à beira de um colapso imediato, nem ignora a centralidade da
sustentabilidade fiscal. O que ele sugere é algo mais estrutural: estamos
atravessando uma transição social profunda sem reconstruir deliberadamente as instituições
responsáveis por sustentá-la.
O sistema segue funcionando. Benefícios são
pagos e reformas aprovadas, mas enquanto administramos regras concebidas para
outra configuração social, as bases da proteção se reorganizam fora da
arquitetura institucional que deveria sustentá-las.
Diante desse descompasso, soluções privadas
proliferam. Creches pagas, serviços de cuidado domiciliar, instituições para
idosos e arranjos de mercado surgem como respostas às lacunas do sistema. São
alternativas legítimas para quem pode acessá-las, mas ampliam segmentações e
não resolvem o problema de fundo: a ausência de uma arquitetura coordenada
capaz de organizar o cuidado e a proteção ao longo do ciclo de vida.
Famílias, por sua vez, enfrentam dilemas cada
vez mais agudos – como cuidar de idosos dependentes, apoiar filhos em
trajetórias instáveis ou sustentar adultos desempregados – em contextos de
menor suporte institucional e maior insegurança econômica. O peso da transição
recai de forma desigual sobre redes familiares já tensionadas.
Se há algo que precisa ser enfrentado com
clareza no sistema vigente, é sua natureza historicamente desigual. Ele
protegeu melhor os já integrados e deixou lacunas persistentes. Transformações
demográficas e produtivas tendem a ampliar essas distorções se novas respostas
institucionais não forem construídas, que não serão corrigidas com ajustes
paramétricos ou revisões atuariais.
Não oferecemos aqui um cardápio de soluções. O objetivo foi deslocar a conversa das contas para a reflexão se estamos reconstruindo conscientemente a arquitetura institucional que sustentará a vida social nas próximas décadas. Tudo indica que não.

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