quarta-feira, 11 de março de 2026

Mundo está despreparado para uma próxima pandemia, por Paulo M. Buss*

O Globo

Pioraram as condições que levaram o planeta à Covid. Esse quadro profundamente negativo precisa ser enfrentado

Há seis anos, em 11 de março de 2020, Tedros Adhanom, diretor-geral da Organização Mundial da Saúde (OMS), declarou que a instituição elevara a Covid-19 à categoria de pandemia. Ela foi um dos eventos mais marcantes dos primeiros 25 anos do século XXI e transformou definitivamente o mundo, não apenas no período de sua vigência, como também depois da declaração de sua extinção, em 5 de maio de 2023. O modo de viver de pessoas e comunidades inteiras se transformou completamente e para sempre.

Sabe-se que a pandemia não foi apenas a circulação de um vírus entre bilhões de pessoas, que matou e deixou sequelas em milhões. Sua instalação se deveu a fatores ambientais, econômicos, sociais e políticos entrelaçados, que facilitaram sua rápida e devastadora propagação e que, lamentavelmente, permanecem assombrando o mundo.

Informes recentes de respeitáveis instituições globais mostram o quase apagamento ou negação da pandemia que varreu o mundo há seis anos, e a piora dos entornos que facilitaram e sustentaram a emergência da Covid-19.

As condições políticas pioraram pela fragilização do multilateralismo representado pelas Nações Unidas, pela saída dos Estados Unidos da OMS e de outras agências e acordos vitais no âmbito da ONU, como o Acordo de Paris sobre o clima e dezenas de outros.

Desigualdades de toda ordem (sociais, econômicas, ambientais) criam uma sociedade de castas — alguns megarricos e bilhões de pessoas e famílias em situação de extrema pobreza, mais vulneráveis a eventos como pandemias e outras emergências, como mostram recentes relatórios da Oxfam Internacional e do grupo do pesquisador Thomas Piketty.

As condições ambientais também pioraram, segundo o Perspectivas do Meio Ambiente Global, sétima edição, do Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente, assim como a ampliação da sobre-exploração dos recursos ambientais do planeta e o agravamento da “tríplice crise planetária”: mudanças climáticas, perda da biodiversidade e poluição aérea, terrestre e de rios, lagos e oceanos.

No âmbito da governança da saúde global, a autoridade sanitária mundial da OMS vem sendo atacada por atores poderosos, como os Estados Unidos, e o Acordo sobre Pandemias e o Regulamento Sanitário Internacional (RSI) revisado patinam em sua aprovação e implementação, diante de dissensões políticas que os dificultam desde o início.

A ajuda oficial para o desenvolvimento e a saúde está em perigosíssimo declínio, pela eliminação ou debilitação de agências de ajuda de países tradicionalmente doadores, caso dos Estados Unidos, por meio da Agência dos Estados Unidos para o Desenvolvimento Internacional, e da Europa, que reduz investimentos em desenvolvimento e saúde enquanto amplia gastos militares.

Iniciativas de preparação e resposta, como a Missão dos 100 Dias e a Coalizão para Inovações em Preparação para Epidemias, alertam sobre a ampliação das dificuldades de toda ordem para o alcance de seus objetivos quanto à produção de diagnósticos, medicamentos e vacinas a tempo e hora.

Em conclusão, pioraram as condições que levaram o mundo à pandemia de Covid-19. Por isso mesmo, esse quadro profundamente negativo precisa ser enfrentado com urgência.

Os países mais poderosos do mundo precisam assumir suas responsabilidades com o planeta. Países e povos do Sul Global devem ser ouvidos nas suas reivindicações por reformas nos fóruns internacionais, mas também precisam acionar uma cooperação Sul-Sul resolutiva para seus problemas. Os movimentos sociais devem se associar na pressão sobre o mundo político pelas transformações necessárias.

Sem um compromisso renovado com o multilateralismo, o desenvolvimento sustentável e a justiça social, o mundo está, na prática, brincando com fogo. Os sinais de alerta são claros. A questão é se estamos dispostos a agir antes que as chamas se alastrem novamente.

*Paulo M. Buss, professor emérito e coordenador do Observatório de Saúde Global e Diplomacia da Saúde da Fiocruz, é integrante titular da Academia Nacional de Medicina

 

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