O Estado de S. Paulo
É praticamente impossível falar em posições
nacionais ou em algum tipo de consenso que nos faça sentir menos o impacto da
crise internacional
As investigações sobre o Banco Master não
devem acabar com a delação de Daniel Vorcaro. Elas continuarão sob o escrutínio
de forças poderosas que querem anulá-la. Nessa lógica, causa apreensão o
confronto entre o ministro André Mendonça e o presidente do Senado, Davi Alcolumbre
(União-AP), em torno da prorrogação da Comissão Parlamentar Mista de Inquérito
(CPMI) do Instituto Nacional do Seguro Social (INSS).
A Comissão ficou duas semanas sem ouvir ninguém, achou que poderia convocar a ex-noiva de Vorcaro, Martha Graeff, em Miami, um sonho impossível, e decidiu continuar seu trabalho além do prazo. Em princípio, com todas as assinaturas necessárias, o adiamento seria burocrático. Mas Davi Alcolumbre precisava concordar e se há algo que não quer ver pela frente, é a CPMI funcionando.
Os deputados e senadores decidiram recorrer a
André Mendonça e involuntariamente abrem mais um flanco na solidez do trabalho
do ministro. O tema será discutido no plenário do STF, onde as condições não
são favoráveis a Mendonça. Independentemente do resultado, é uma exposição
desnecessária. Talvez tenha vindo também da CPMI uma outra atitude que
enfraqueceu o trabalho sobre o Banco Master: a divulgação dos diálogos íntimos
de Vorcaro. Um dos observadores mais severos dessas investigações é o ministro
Gilmar Mendes. Ele considerou a divulgação dos diálogos uma barbárie
institucional. Num outro momento, Gilmar Mendes criticou André Mendonça. Apesar
de concordar com a prisão de Vorcaro, Gilmar discordou da argumentação de
Mendonça para justificá-la.
O caminho para investigar o Master não é
tranquilo no Supremo. Dois ministros, Dias Toffoli e Alexandre de Moraes, estão
envolvidos. O próprio Gilmar fez malabarismos jurídicos para evitar a quebra do
sigilo da Maridt, empresa de Dias Toffoli, e também a quebra de sigilo do Fundo
Arleen, que comprou parte do resort de Toffoli.
Tudo isso indica que o caso Master terá mais
dificuldades do que a própria Lava Jato, fulminada pelo Supremo. As
dificuldades institucionais não param aí. A Procuradoria-Geral da República não
parece muito empolgada. Relutou em decretar a prisão preventiva de Vorcaro,
pois não a considerava urgente. Pior ainda: informada de que Vorcaro estava
tendo acesso a dados confidenciais da instituição, nada fez para reprimi-lo.
No Tribunal de Contas, o quadro não é menos
desolador. Um ministro chamado Jhonatan Jesus, oriundo do Centrão na Câmara,
suspeitou que o Banco Central foi precipitado em liquidar o Master. Até hoje,
ele suspeita, apesar do relatório dos próprios técnicos do tribunal. Está apenas
jogando em sintonia com seus pares do Centrão que queriam aprovar um projeto
para demitir funcionários do Banco Central. Algo puramente intimidatório. Ou
mesmo o senador Ciro Nogueira, que apresentou uma emenda elevando de R$ 250 mil
para R$ 1 milhão a cobertura do Fundo Garantidor de Créditos para pessoas
lesadas por bancos falidos como o Master.
Todo esse processo segue com a grande
expectativa em torno de delação de Vorcaro. Mas uma delação nunca é tudo. Novas
investigações precisam ser feitas, outras, concluídas. O trabalho vai
desembocar no período eleitoral, num país ainda polarizado.
Se fosse apenas isso, já estaríamos numa
situação complicada. Num mundo estranho, liderado por um homem tão imaturo
quanto Trump, restam poucas esperanças. Ele assumiu prometendo acabar com
guerras, tentou ganhar o Prêmio Nobel, contentou-se, finalmente, com um prêmio
da Federação Internacional de Futebol (Fifa) e partiu para uma guerra sem
sentido, uma vez que os objetivos não são claros. O Irã já tinha perdido anos de
trabalho nuclear com os bombardeios de junho, o Hezbollah estava em retirada e
não havia no horizonte ameaça contra os Estados Unidos. A ideia de que o povo
iraniano, massacrado pelo regime, iria para as ruas tomar o poder é muito
ingênua.
De qualquer forma, a guerra que já se
prolonga por quatro semanas e traz prejuízos para todos. Alguns países, como a
Eslovênia, já estão racionando a gasolina. No Brasil, temos um aumento no preço
do diesel, que leva o governo a planejar um subsídio de R$ 1,20 por litro para
evitar também uma inflação de alimentos – que é ruim para todos, principalmente
para quem disputa eleições. O ideal seria uma avaliação mais completa da
conjuntura internacional para avaliarmos como navegaremos na crise. Mas estamos
num estado de paixão que impede esse distanciamento. Avançamos como se o mundo
não existisse ou fosse um espaço previsível com desequilibrados como Donald
Trump dando as cartas.
Será um ano complicado no Brasil. Nesse
contexto, é praticamente impossível falar em posições nacionais ou em algum
tipo de consenso que nos faça sentir menos o impacto da crise internacional.
Mesmo porque, com todo o desequilíbrio, há quem ainda acredite nos projetos de
Trump. Houve até quem achou razoável aquele absurdo tarifaço, que o próprio contrapeso
institucional anulou. Possivelmente, ache a guerra contra o Irã uma boa ideia,
apesar desses resultados negativos.

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