sexta-feira, 27 de março de 2026

A inflação moral progressista, por Pablo Ortellado

O Globo

Os setores populares que seguem sem entender inteiramente as novas regras morais vão acumulando o ressentimento cotidiano

O progressismo está no caminho errado. Convencido de que seus valores são tão evidentes que discuti-los seria rebaixar-se, trocou o convencimento pela interdição — censura nas mídias sociais, Direito Penal para os infratores. Enquanto se ocupa de purificar o mundo por meio de atos de força, as pessoas comuns seguem seu caminho influenciadas por quem ainda se dispõe a conversar com elas.

O progressismo está preso a uma armadilha moral. Sua desconexão com o mundo advém de ter sido tomado por um ativismo difuso, que vive em alarme permanente e não consegue mais enxergar gradação nas condutas, porque proporção e nuance são vistas como complacência ou como delito. O exagero é premiado, e a ponderação punida.

Essa cultura adotou diagnósticos grandiloquentes que não admitem contestação. Somos o país que mais mata travestis no mundo. Vivemos aumentos contínuos de feminicídios. Os meninos passam por surto sem precedentes de misoginia violenta motivada pelo masculinismo on-line. Não há base empírica sólida para nenhuma dessas afirmações. Carecemos de dados confiáveis sobre as mortes de travestis, não sabemos se o aumento dos feminicídios reflete crescimento real ou reclassificação melhor de homicídios, e as pesquisas são contraditórias quanto à eventual intensificação do machismo entre os mais jovens. Nenhuma dessas afirmações, porém, pode ser debatida. A mera proposição da discussão é vista como violação moral: “A quem interessa minimizar a transfobia e a misoginia?”.

A linguagem progressista também tem apagado a gradação dos problemas, fazendo uso de vocabulário que incorpora os menores aos maiores. Não conseguimos mais nomear o “machismo” — comportamentos que inferiorizam a mulher —porque a cultura política progressista passou a tratá-los como “misoginia”, o ódio às mulheres.

Hoje, no Google Trends, misoginia é oito vezes mais empregada que machismo, mesmo que comportamentos mais graves de violência contra a mulher sejam muito menos frequentes que os discriminatórios. Não temos mais vocabulário para distinguir a gravidade de fenômenos tão diferentes como mulheres assumirem mais tarefas domésticas e homens assassinarem mulheres — ambos são “misoginia”.

Mas não é só um problema de vocabulário. Também não conseguimos oferecer respostas graduadas diferentes ao fato de negros terem menor desempenho escolar e sofrerem ataques racistas nos estádios. Embora um seja efeito sistêmico e outro seja racismo explícito, um seja intencional e outro não intencional, não é mais moralmente aceitável tratá-los como ofensas de graus diferentes.

Exageros de diagnóstico e incapacidade de enxergar gradação na conduta são fruto de uma cultura militante que celebra a indignação, percebida como virtude e pureza moral, e pune a moderação, vista na melhor das hipóteses como complacência e, na pior, como envolvimento na prática delituosa.

Com diagnósticos inflados e incapacidade de ver gradação, as respostas são duras, sem nuance ou proporção. A esquerda, outrora campeã da liberdade de expressão, dedica grandes esforços para retirar da esfera pública ideias divergentes, seja porque não consegue separar violações graves de direitos humanos das violações menos graves ou porque não é capaz de distinguir as violações de direitos humanos de divergências ideológicas.

Debater a eficácia de cotas raciais na universidade passa a ser visto como racismo; defender papéis tradicionais de gênero, como fazem muitas religiões, é misoginia. Há grande pressão para esses discursos serem censurados e criminalizados. Há pouco empenho em debater e convencer.

Enquanto o progressismo segue numa espiral endógena para se tornar cada vez mais puro, o mundo segue seu caminho próprio, em parte se adaptando aos valores normativos progressistas, em parte os desprezando e se ressentindo.

Os setores populares que seguem sem entender inteiramente as novas regras morais vão acumulando o ressentimento cotidiano de ser acusados pelo progressismo de racistas, transfóbicos e misóginos. A expressão política desse ressentimento já é construída com os adversários do progressismo. A resposta não será nem nuance nem proporção. Será retrocesso.

 

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