Correio Braziliense
Gilmar Mendes liderou a
reação dos colegas. E fez reprimenda pública aos deputados que acompanham no
plenário da Corte o julgamento sobre a prorrogação
Por 8 votos a 2, o Supremo Tribunal Federal (STF) decidiu contra a prorrogação da CPMI do INSS, derrubando a liminar do ministro André Mendonça que havia determinado prazo de 60 dias para que o Congresso viabilizasse a continuidade dos trabalhos. A conclusão do julgamento pelo plenário ampliou ainda mais a derrota do ministro André Mendonça e consolidou, de forma inequívoca, o isolamento do relator do caso Master entre os colegas. Somente o ministro Luiz Fux votou com Mendonça.
Além dos votos já conhecidos, a formação
final da maioria reforçou o entendimento predominante de que a prorrogação de
uma CPMI é matéria interna do Legislativo. A posição de Mendonça, acompanhada
apenas por Luiz Fux, foi superada por um bloco amplo e heterogêneo de
ministros, incluindo Flávio Dino, Alexandre de Moraes, Cristiano Zanin, Nunes
Marques, Dias Toffoli, Cármen Lúcia, Gilmar Mendes e Edson Fachin.
O ministro Gilmar Mendes liderou a reação dos
colegas. E fez uma reprimenda pública aos deputados que acompanham no plenário
da Corte o julgamento sobre a prorrogação da CPMI do INSS. O decano mencionou
que conversas íntimas de Daniel Vorcaro, dono do Banco Master, foram vazadas
“para festejo geral”. Ele classificou o episódio como “deplorável, lamentável e
criminoso”.
Em aparte ao ministro Flávio Dino, Gilmar
destacou que a quebra de sigilos sem fundamentação é inconstitucional: “É muito
curioso, ministro Dino, esse aspecto, porque se invoca esse poder de autoridade
judicial, e é bom que os parlamentares que estão aqui possam escutar isso. A
Autoridade judicial decide com fundamento”, disse.
O resultado não apenas confirma a rejeição da
tese de Mendonça, como amplia o significado político da derrota. O relator não
conseguiu sequer preservar uma posição minoritária mais robusta, ficando
restrito a um apoio isolado. Isso sinaliza perda de capacidade de articulação e
baixa adesão de seus pares em temas de alta sensibilidade, como no caso do
Banco Master.
Com essa decisão, perde eficácia qualquer
tentativa de prorrogação da CPMI, que contrariava o entendimento do presidente
do Congresso, Davi Alcolumbre (União), como fez ontem o presidente da CPMI,
senador Carlos Viana (Podemos-MG), que chegou a anunciar a continuidade dos
trabalhos.
Agora, o relatório final da CPMI será lido e,
se possível, votado nesta sexta-feira, podendo haver uma reunião extraordinária
neste sábado caso haja pedido de vista. “O relatório será lido amanhã e eu
espero também ser votado amanhã mesmo”, afirmou o senador, ressaltando que o
documento representa, em sua avaliação, “um dos mais robustos já produzidos por
uma CPMI” no país.
Caso Master
O parecer elaborado pelo relator Alfredo
Gaspar (PL-AL), reúne mais de 5 mil páginas e propõe 227 indiciamentos,
consolidando um dos maiores levantamentos recentes sobre fraudes no INSS. As
investigações apontam um esquema bilionário de irregularidades em crédito
consignado, atingindo aposentados e pensionistas e revelando falhas estruturais
no sistema de controle.
Entretanto, a CPMI avançou sobre conexões com
o caso do Banco Master, ampliando o alcance político das apurações. Esse
entrelaçamento elevou o grau de sensibilidade do tema, pois passou a envolver
não apenas operadores financeiros, mas possíveis interlocuções com agentes
públicos e estruturas institucionais, entre os quais parlamentares e ministros
do STF.
A decisão do STF, nesse contexto, muda o eixo
das investigações. Ao barrar a prorrogação da CPMI, a Corte reduziu o
protagonismo do Congresso e reforçou o papel do Judiciário na condução dos
desdobramentos. Também sinaliza uma preocupação clara com os efeitos
institucionais da exposição pública de agentes públicos, sobretudo após
críticas contundentes de ministros a vazamentos de informações sigilosas.
O principal efeito político do julgamento,
porém, recai sobre Mendonça. Seu voto defendia a preservação do direito da
minoria parlamentar de investigar, argumento que, embora juridicamente
consistente, foi derrotado por uma maioria expressiva. O placar de 8 a 2
cristaliza seu isolamento e indica que, em temas de grande repercussão, como é
o caso Master, sua capacidade de formar maioria é limitada.
Mendonça atua como relator de processos
ligados ao caso Banco Master, um dos mais sensíveis em curso no Supremo, em
substituição ao ministro Dias Toffoli, que renunciou à relatoria por ser um dos
citados nos vazamentos. A falta de apoio demonstrada no plenário é uma “enquadrada”
em Mendonça, que terá muita dificuldade para sustentar decisões que envolvam
ampliação do alcance investigativo ou compartilhamento de provas.
No plano institucional, o Supremo conteve o
avanço de uma investigação parlamentar que havia ultrapassado a esfera política
e começado a afetar diretamente o ambiente institucional. Ao centralizar o
controle das apurações, o STF reafirmou sua autoridade, mas também aumentou o
grau de exposição e de desgastes que sofre em razão do escândalo. O placar de 8
a 2 revela a formação de uma ampla maioria no Supremo disposta a blindar seus
integrantes e o governo, contra os vazamentos de informações, e contingenciar
as investigações.

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