quarta-feira, 1 de abril de 2026

Alckmin deu upgrade ao Mdic na hora certa, por Lu Aiko Otta

Valor Econômico

Atuação como ministro é alvo de elogios de representantes do empresariado

O Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (Mdic) viveu nos últimos três anos e três meses um período de destaque inédito, enquanto esteve comandado pelo vice-presidente Geraldo Alckmin.

Primeiro, pela natureza da pasta. Ela está fora do núcleo duro da estrutura do governo federal - tanto que já foi extinta e rebaixada a secretaria duas vezes desde a redemocratização, em 1990 e em 2018. Por essa condição, só tem sucesso em suas agendas quando o ministro é influente no Palácio do Planalto. Foi o caso.

Segundo, por causa do tarifaço de Donald Trump. O interesse da população foi tamanho que Alckmin esteve no programa de Ana Maria Braga, na TV Globo, para explicar o que estava acontecendo. A reação diante da crise rendeu ao governo de Luiz Inácio Lula da Silva o melhor momento de popularidade no atual mandato.

Terceiro, pelo legado que deixará com a assinatura dos acordos Mercosul-União Europeia, Mercosul-Singapura e Mercosul-Efta (Suíça, Islândia, Noruega e Liechtenstein). O acordo com os gigantes europeus, “o maior do mundo entre blocos econômicos”, como costuma dizer, entra em funcionamento provisório no dia 1º de maio. O conjunto coloca o país em outra liga, em termos de integração internacional.

Por fim, Alckmin liderou a Nova Indústria Brasil (NIB), uma política industrial estruturada em seis áreas, chamadas de “missões”: cadeias agroindustriais sustentáveis; complexo industrial da saúde; infraestrutura, saneamento, moradia e mobilidade; transformação digital; bioeconomia e descarbonização; tecnologias de soberania e de defesa.

Certamente a NIB não deu conta de todos os problemas da indústria, nem mesmo dos setores escolhidos como “missões”. Por exemplo, falta colocar recursos nas pesquisas em tecnologia para processar minerais críticos. Hoje, praticamente só a China detém esse conhecimento, o que lhe dá poderes para controlar o mercado.

A NIB se deu em um ambiente de juros muito elevados, o que cria dificuldades para empresas.

Ainda assim, a passagem de Alckmin é elogiada por seus interlocutores no setor privado.

“Sua capacidade de diálogo, com abertura permanente ao setor empresarial, combinada ao peso institucional da vice-presidência, contribuiu para reduzir tensões e restabelecer canais de interlocução com o governo americano, criando condições para possíveis avanços na agenda bilateral”, comentou o CEO da Amcham Brasil, Abrão Neto.

“Arrisco dizer que atuou como elo do setor produtivo com o próprio governo”, avaliou o presidente da Associação Brasileira da Indústria de Máquinas e Equipamentos (Abimaq), José Velloso.

A adoção de um regime de depreciação superacelerada, a criação das Letras de Crédito do Desenvolvimento (LCD), o carro sustentável, o Move Brasil e o Mover foram destacadas pelo presidente-executivo da Associação Nacional dos Fabricantes de Veículos Automotores (Anfavea), Igor Calvet. No Brasil, o setor automotivo tem crescido ano a ano - poderia ser mais, não fosse o juro elevado, comentou.

“Acho que foi uma passagem histórica pelo Mdic, que, pela primeira vez, teve como ministro não só o vice-presidente, mas um político que tem uma carga de capacidade administrativa como muito poucos outros têm no país”, avaliou o presidente do grupo FarmaBrasil, Reginaldo Arcuri. Ele ressaltou a volta do “funcionamento efetivo” da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) e do Instituto Nacional de Propriedade Industrial (Inpi), que eram problemas essenciais para o funcionamento do setor.

Na visão do presidente da Confederação Nacional da Indústria (CNI), Ricardo Alban, Alckmin reconstruiu pontes entre o governo e o setor produtivo e foi “parceiro” em pautas relevantes, como o tarifaço e o acordo Mercosul-União Europeia. Outro ponto é a NIB. “A CNI espera que esse legado se consolide e que a NIB se torne uma política de Estado.”

“Há um renascimento da prática de políticas industriais, sobretudo em países desenvolvidos”, comentou o professor da Fundação Getulio Vargas Lucas Ferraz, que foi secretário de Comércio Exterior no governo de Jair Bolsonaro. “Aqui no Brasil, a gente vem tentando imitar essas práticas, só que de uma forma equivocada, que é fazer isso baseado em proteção comercial.”

Outro ponto criticado pelo professor é a agenda internacional. A renegociação de pontos do acordo Mercosul-União Europeia, que estava praticamente concluído desde 2019, atrasou seus efeitos sobre a economia. Mesmo no Mercosul, mereceria mais atenção o esforço de se negociar uma espécie de acordo regional para o setor automotivo.

A própria existência do Mdic é polêmica entre os que defendem maior ou menor interferência do Estado na economia. O que parece inequívoco é que áreas como minerais críticos e descarbonização precisam de atenção, como propôs a NIB. E que foi positiva a presença de um político poderoso e experimentado à frente do comércio exterior quando sobreveio o tarifaço.

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