Valor Econômico
Atuação como ministro é alvo de elogios de representantes do empresariado
O Ministério do Desenvolvimento, Indústria,
Comércio e Serviços (Mdic) viveu nos últimos três anos e três meses um período
de destaque inédito, enquanto esteve comandado pelo vice-presidente Geraldo
Alckmin.
Primeiro, pela natureza da pasta. Ela está
fora do núcleo duro da estrutura do governo federal - tanto que já foi extinta
e rebaixada a secretaria duas vezes desde a redemocratização, em 1990 e em
2018. Por essa condição, só tem sucesso em suas agendas quando o ministro é
influente no Palácio do Planalto. Foi o caso.
Segundo, por causa do tarifaço de Donald Trump. O interesse da população foi tamanho que Alckmin esteve no programa de Ana Maria Braga, na TV Globo, para explicar o que estava acontecendo. A reação diante da crise rendeu ao governo de Luiz Inácio Lula da Silva o melhor momento de popularidade no atual mandato.
Terceiro, pelo legado que deixará com a
assinatura dos acordos Mercosul-União Europeia, Mercosul-Singapura e
Mercosul-Efta (Suíça, Islândia, Noruega e Liechtenstein). O acordo com os
gigantes europeus, “o maior do mundo entre blocos econômicos”, como costuma
dizer, entra em funcionamento provisório no dia 1º de maio. O conjunto coloca o
país em outra liga, em termos de integração internacional.
Por fim, Alckmin liderou a Nova Indústria
Brasil (NIB), uma política industrial estruturada em seis áreas, chamadas de
“missões”: cadeias agroindustriais sustentáveis; complexo industrial da saúde;
infraestrutura, saneamento, moradia e mobilidade; transformação digital;
bioeconomia e descarbonização; tecnologias de soberania e de defesa.
Certamente a NIB não deu conta de todos os
problemas da indústria, nem mesmo dos setores escolhidos como “missões”. Por
exemplo, falta colocar recursos nas pesquisas em tecnologia para processar
minerais críticos. Hoje, praticamente só a China detém esse conhecimento, o que
lhe dá poderes para controlar o mercado.
A NIB se deu em um ambiente de juros muito
elevados, o que cria dificuldades para empresas.
Ainda assim, a passagem de Alckmin é elogiada
por seus interlocutores no setor privado.
“Sua capacidade de diálogo, com abertura
permanente ao setor empresarial, combinada ao peso institucional da
vice-presidência, contribuiu para reduzir tensões e restabelecer canais de
interlocução com o governo americano, criando condições para possíveis avanços
na agenda bilateral”, comentou o CEO da Amcham Brasil, Abrão Neto.
“Arrisco dizer que atuou como elo do setor
produtivo com o próprio governo”, avaliou o presidente da Associação Brasileira
da Indústria de Máquinas e Equipamentos (Abimaq), José Velloso.
A adoção de um regime de depreciação
superacelerada, a criação das Letras de Crédito do Desenvolvimento (LCD), o
carro sustentável, o Move Brasil e o Mover foram destacadas pelo presidente-executivo
da Associação Nacional dos Fabricantes de Veículos Automotores (Anfavea), Igor
Calvet. No Brasil, o setor automotivo tem crescido ano a ano - poderia ser
mais, não fosse o juro elevado, comentou.
“Acho que foi uma passagem histórica pelo
Mdic, que, pela primeira vez, teve como ministro não só o vice-presidente, mas
um político que tem uma carga de capacidade administrativa como muito poucos
outros têm no país”, avaliou o presidente do grupo FarmaBrasil, Reginaldo
Arcuri. Ele ressaltou a volta do “funcionamento efetivo” da Agência Nacional de
Vigilância Sanitária (Anvisa) e do Instituto Nacional de Propriedade Industrial
(Inpi), que eram problemas essenciais para o funcionamento do setor.
Na visão do presidente da Confederação
Nacional da Indústria (CNI), Ricardo Alban, Alckmin reconstruiu pontes entre o
governo e o setor produtivo e foi “parceiro” em pautas relevantes, como o
tarifaço e o acordo Mercosul-União Europeia. Outro ponto é a NIB. “A CNI espera
que esse legado se consolide e que a NIB se torne uma política de Estado.”
“Há um renascimento da prática de políticas
industriais, sobretudo em países desenvolvidos”, comentou o professor da
Fundação Getulio Vargas Lucas Ferraz, que foi secretário de Comércio Exterior
no governo de Jair Bolsonaro. “Aqui no Brasil, a gente vem tentando imitar
essas práticas, só que de uma forma equivocada, que é fazer isso baseado em
proteção comercial.”
Outro ponto criticado pelo professor é a
agenda internacional. A renegociação de pontos do acordo Mercosul-União Europeia,
que estava praticamente concluído desde 2019, atrasou seus efeitos sobre a
economia. Mesmo no Mercosul, mereceria mais atenção o esforço de se negociar
uma espécie de acordo regional para o setor automotivo.
A própria existência do Mdic é polêmica entre os que defendem maior ou menor interferência do Estado na economia. O que parece inequívoco é que áreas como minerais críticos e descarbonização precisam de atenção, como propôs a NIB. E que foi positiva a presença de um político poderoso e experimentado à frente do comércio exterior quando sobreveio o tarifaço.

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