quarta-feira, 1 de abril de 2026

Caiado entrou na disputa, por Elio Gaspari

O Globo

Ao oferecer a anistia para os condenados pela trama golpista de 2022-2023, Ronaldo Caiado saltou atrás das linhas de Flávio Bolsonaro. É lá que estão os votos capazes de viabilizar uma terceira via. Os próximos meses dirão se esse caminho existe. Coberto de razão, o atual governador de Goiás disse que “você só alimenta um projeto político da polarização quando você se beneficia dele”.

Com 88% de aprovação em seu estado e fala mansa, Caiado é uma esperança para quem não quer Lula ou um Bolsonaro no Palácio do Planalto. Pelas pesquisas, ele patina com um só dígito. Faltam seis meses para a eleição, e nada impede que tente chegar ao segundo turno. Afinal, ao seu lado está o clarividente Gilberto Kassab.

Caiado critica o PT, mas seu alvo é Flávio Bolsonaro. Oferece um passado de democrata, gestor com militância conservadora e mais de 80% de aprovação.

Se Caiado não conseguir colocar a terceira via de pé, isso demonstrará que, para o bem ou para o mal, ela não existe — e a polarização está encravada na sociedade brasileira, como o trumpismo está encravado na sociedade americana.

Qualquer previsão mecânica feita em abril para uma eleição marcada para outubro é um exercício fútil.

Caiado foi candidato a presidente em 1989 carregando a bandeira do agronegócio, quando a palavra mal existia. Havia outros 21 candidatos, e ele ficou com magros 488.846 votos. Naquele ano, tudo indicava que a disputa ficaria entre Fernando Collor e Leonel Brizola. Em agosto, Lula tinha 5% nas pesquisas. Em novembro, foi Lula quem chegou ao segundo turno contra Collor, que o derrotaria na votação seguinte.

Aos 76 anos, com meio século de vida pública, Caiado parece uma colagem dos políticos desse período. Quando fala da segurança pública, ecoa Paulo Maluf. Se trata da polarização, ecoa Tancredo Neves. Como gestor, ecoa Juscelino Kubitschek (sem o sorriso no rosto e o otimismo nas veias). Ao defender a anistia, Caiado repetiu a decisão de JK ao patrocinar o perdão aos militares rebelados de Jacareacanga e Aragarças. O paralelo mostra que JK pacificou seu governo, mas não pacificou os insurretos, que ressurgiram em 1964.

Com uma direita pendurada no estilo de confrontos e irracionalismo dos Bolsonaros, Flávio copia o pai. (A triste piada em que comparou Lula a um Opala comprova essa suspeita.) Só o tempo dirá a consistência dessa ligação.

Uma coisa é certa: com a entrada de Caiado na disputa, a campanha eleitoral perdeu o gosto ruim da monotonia. Lula x Bolsonaro pai ou filho é uma disputa velha.

Na mesma segunda-feira em que Caiado anunciou sua candidatura, o deputado petista Kiko Celeguim, presidente do PT em São Paulo, propôs que Gilberto Kassab entre como candidato a vice no lugar de Geraldo Alckmin.

Pareceu uma excentricidade, mas mostrou que o PT tem um pé na capacidade de articulação de Kassab que, por sua vez, tem um pé no PT. Celeguim foi contestado, mas explicou:

— O PSD (de Kassab) é o partido-chave para ganhar a eleição.

 

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