O Globo
Ao oferecer a anistia para os condenados pela
trama golpista de 2022-2023, Ronaldo Caiado saltou atrás das linhas de Flávio
Bolsonaro. É lá que estão os votos capazes de viabilizar uma terceira via. Os
próximos meses dirão se esse caminho existe. Coberto de razão, o atual
governador de Goiás disse que “você só alimenta um projeto político da
polarização quando você se beneficia dele”.
Com 88% de aprovação em seu estado e fala
mansa, Caiado é uma esperança para quem não quer Lula ou um Bolsonaro no
Palácio do Planalto. Pelas pesquisas, ele patina com um só dígito. Faltam seis
meses para a eleição, e nada impede que tente chegar ao segundo turno. Afinal,
ao seu lado está o clarividente Gilberto Kassab.
Caiado critica o PT, mas seu alvo é Flávio Bolsonaro. Oferece um passado de democrata, gestor com militância conservadora e mais de 80% de aprovação.
Se Caiado não conseguir colocar a terceira
via de pé, isso demonstrará que, para o bem ou para o mal, ela não existe — e a
polarização está encravada na sociedade brasileira, como o trumpismo está encravado
na sociedade americana.
Qualquer previsão mecânica feita em abril
para uma eleição marcada para outubro é um exercício fútil.
Caiado foi candidato a presidente em 1989
carregando a bandeira do agronegócio, quando a palavra mal existia. Havia
outros 21 candidatos, e ele ficou com magros 488.846 votos. Naquele ano, tudo
indicava que a disputa ficaria entre Fernando Collor e Leonel Brizola. Em
agosto, Lula tinha 5% nas pesquisas. Em novembro, foi Lula quem chegou ao
segundo turno contra Collor, que o derrotaria na votação seguinte.
Aos 76 anos, com meio século de vida pública,
Caiado parece uma colagem dos políticos desse período. Quando fala da segurança
pública, ecoa Paulo Maluf. Se trata da polarização, ecoa Tancredo Neves. Como
gestor, ecoa Juscelino Kubitschek (sem o sorriso no rosto e o otimismo nas
veias). Ao defender a anistia, Caiado repetiu a decisão de JK ao patrocinar o
perdão aos militares rebelados de Jacareacanga e Aragarças. O paralelo mostra
que JK pacificou seu governo, mas não pacificou os insurretos, que ressurgiram
em 1964.
Com uma direita pendurada no estilo de
confrontos e irracionalismo dos Bolsonaros, Flávio copia o pai. (A triste piada
em que comparou Lula a um Opala comprova essa suspeita.) Só o tempo dirá a
consistência dessa ligação.
Uma coisa é certa: com a entrada de Caiado na
disputa, a campanha eleitoral perdeu o gosto ruim da monotonia. Lula x
Bolsonaro pai ou filho é uma disputa velha.
Na mesma segunda-feira em que Caiado anunciou
sua candidatura, o deputado petista Kiko Celeguim, presidente do PT em São
Paulo, propôs que Gilberto Kassab entre como candidato a vice no lugar de
Geraldo Alckmin.
Pareceu uma excentricidade, mas mostrou que o
PT tem um pé na capacidade de articulação de Kassab que, por sua vez, tem um pé
no PT. Celeguim foi contestado, mas explicou:
— O PSD (de Kassab) é o partido-chave para
ganhar a eleição.

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