quarta-feira, 1 de abril de 2026

Uma Emergência chamada Brasil, por Vagner Gomes

A Sociologia da Medicina é Sociologia: é a aplicação de critérios de métodos metodológicos de análise e de interpretação de processos  sociais, de relações interpessoais e de relações intergrupais, àquela matéria de interesse médico constituída pela Etiologia e Ecologia Sociais de doenças, pelos componentes sociais ou socioculturais de terapêutica e, ainda, pelas relações  entre médicos e enfermos, entre enfermos e suas famílias, entre médicos e famílias e ambientes socioculturais de enfermos, entre médicos – higienistas, sanitaristas, psiquiatras – e comunidades e aquelas suas instituições e aqueles seus complexos mais relacionados com os problemas de deterioração da saúde, de conservação e de defesa da saúde, de promoção da saúde. Saúde compreendida no seu sentido mais amplo, isto é, além do físico, e alcançando o bem-estar psicossocial das pessoas sociais, membros de um grupo, em particular, e de uma comunidade e, mais do que isto, de um sistema sociocultural em geral.

Gilberto Freyre, Médicos, doentes e contextos sociais: uma abordagem sociológica. p. 61.

No ano de 1987 o Brasil estava nos debates constituintes, que nos proporcionaram a Carta Democrática de 1988. Foi nesse ano que houve o acidente radioativo com o Césio 137, que a NETFLIX acertou em investir no tema como uma série brasileira em cinco capítulos, alguns anos após a emergência sanitária por conta da COVID-19 e em tempos de manifestações negacionistas sobre as Vacinas. Assim, “Emergência Radioativa” ganha uma força reflexiva para além de uma memória, mas nos permite observar como a gestão pública pode lidar com situações de emergência.

Relembremos dos gestores da cidade turística onde ocorre o filme Tubarão, que temiam o “pânico” desnecessário na população, que afastaria os lucros com essa atividade. A ideia de que a “economia não pode parar” é um valor do fundamentalismo neoliberal que não compactua com os princípios democráticos. Aqueles que um dia se deixaram levar por esse “atalho” devem se posicionar com suas manifestações pretensamente moderadas diante do que se passou recentemente em nossa história política brasileira.

A qualidade da série parte da importância do quanto uma “governança protetora” se forma em condições de uma emergência que poderia atingir proporções inimagináveis. Intelectuais e vida pública são observados na correria de Doutores em Física Nuclear para salvar vidas. As medidas restritivas são feitas no intuito de contenção de ricos que colocariam a saúde pública sobre um alto nível de pressão nos atendimentos hospitalares. Além disso, o debate sobre a ética da convicção e a ética da responsabilidade se faz presente na cena da Assembleia dos Profissionais de Saúde em Greve; no momento que profissionais da saúde da Marinha se apresentam como voluntários para o Diretor do Hospital Naval Marcílio Dias, com intuito de salvar mais vidas, ou na cirurgia, ou na entrada do “camarada médico” soviético na cirurgia, no limite do tempo para garantia de seu sucesso.

O elenco das principais vítimas foi um grande acerto na seleção não apenas na interpretação, quanto na percepção de serem negros e pardos, ou seriam “quase brancos e quase pretos” naquele terremoto de outro tipo. Destaque para Bukassa Kabengele que, em alguns momentos, me fez lembrar as interpretações marcantes do saudoso Milton Gonçalves (1933 – 2022 que foi garoto-propaganda da Frente Republicana Presidencialista no plebiscito de 1993. Além disso, o público perceberá outro Paulo Gorgulho, ou seja, muito mais amadurecido que aquele que esteve nas telas na minissérie Decadência de Dias Gomes em 1995. Por fim, somos brindados pela atuação de Tuca Andrada como o Governador Roberto Correa (nome fictício para o Governador Henrique Santillo, que nos faz pensar sobre “história comparada” quanto à relevância do fator político e democrático na gestão pública de saúde).

Lembremos que Vigilância Sanitária é hoje muito mencionada. Logo, a atitude de personagem-ficção Antônia Quadrado, que leva para a mesma a fonte de contaminação – mesmo após o classificar como “força do mal” – demonstra um pouco das características femininas com o cuidado com a saúde. Um indicador de que o tema da saúde pública não pode estar distante dessa “fala feminina” que muito bem coloca a relevância da ciência nesses tempos de negacionismo. Nós observamos muito melhor o lado feminino daquela Goiás de 1987, onde as mulheres ainda ganhavam espaço nas suas conquistas sociais.

Além disso, estamos em tempos em que o SUS não existia, o que faria um telespectador desavisado não perceber o grau de dificuldades sobre o tema da saúde pública diante de um “contrato quebrado” entre dois entes privados que implica em impactos no tratamento com uso de radioterapia. A coleta dos dados tanto dos que foram impactados pela emergência radioativa quanto sobre a emergência da COVID-19 nos permitiria quais teorias fundamentadas? Por hora, um presidenciável formado em medicina sai de Goiás após aumentar os valores da pensão vitalícia das vítimas (grupo de 603 pessoas que estavam sem reajuste há sete anos). Ou seja, as vidas e os números das finanças públicas podem mudar ao sabor da conjuntura política.

*Vagner Gomes é Doutorando do PPGCP-UNIRIO.

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