Folha de S. Paulo
Em discurso na maior conferência conservadora dos EUA, senador pediu 'pressão diplomática' para eleições livres e justas no Brasil
Assim como Jair Bolsonaro em 2018, pré-candidato
à Presidência disse que vencerá se os votos forem contados corretamente
Para os que ainda têm fé no bolsonarismo moderado, é recomendável assistir ao discurso do senador Flávio Bolsonaro (PL), pré-candidato à Presidência, na Cpac, a maior conferência conservadora dos Estados Unidos.
No fim de semana, em Dallas (Texas), Flávio
seguiu à risca a cartilha do pai, o ex-presidente Jair
Bolsonaro (PL), disseminando teorias conspiratórias, colocando em
xeque a lisura do processo eleitoral brasileiro e vestindo a roupagem do
populismo autoritário e antissistema que assola democracias ao redor do mundo.
O discurso contrasta com a imagem de moderação que a pré-campanha do senador tenta construir, em busca do eleitorado independente que será o fiel da balança de uma acirrada disputa eleitoral contra o presidente Lula (PT).
Aos conservadores do Maga ("Make America
Great Again", movimento liderado pelo presidente Donald Trump),
Flávio Bolsonaro fez um apelo por "pressão diplomática" para garantir
eleições livres e justas no Brasil.
"Meu apelo não só à América, mas a todo
o mundo livre, é esse: observem as eleições do Brasil com enorme atenção,
aprendam sobre e entendam nosso processo eleitoral, monitorem a liberdade de
expressão do nosso povo, e apliquem pressão diplomática para que nossas
instituições funcionem adequadamente", afirmou.
Em sua fala, Flávio disse estar certo da
vitória e, assim como o pai e líderes de linhagem populista, como o
ditador Nicolás
Maduro, que tanto critica, lançou mão do pronome possessivo para se
referir ao eleitorado. "Vou vencer porque é a vontade do meu povo",
afirmou.
O senador, porém, fez um alerta: para que
essa vontade seja preservada, é preciso haver "eleições livres e
justas". Isso, segundo ele, é "um grande desafio" e só
acontecerá "se nosso povo puder se expressar livremente nas redes sociais
e os votos forem contados corretamente".
Nos meses anteriores às eleições de 2018,
quando enfrentou Fernando
Haddad (PT), Bolsonaro afirmou que "a grande preocupação"
não era perder no voto, mas sim "perder na fraude". "Isso só
pode acontecer por fraude, não por voto, estou convencido", afirmou em
transmissão ao vivo nas redes sociais em outubro.
Em seu discurso na Cpac, antes do apelo ao
"mundo livre", Flávio ofereceu um meio e um fim para convencer os
trumpistas da necessidade de se envolver com os assuntos eleitorais
brasileiros.
Primeiro, o meio. Por cinco vezes, mencionou
os cartéis de droga do Brasil, afirmando que os grupos criminosos exportam
armas e drogas para os Estados Unidos. As acusações de "narcoterrorismo"
têm sido utilizadas pelo governo Trump como fundamento para a intervenção
americana em outros países, como ocorreu com a destituição
de Maduro do poder na Venezuela.
Segundo, o fim. Flávio vendeu a imagem do
Brasil como o "campo de batalha onde o futuro do hemisfério será
decidido", essencial para quebrar a dependência dos EUA das exportações
chinesas de minerais críticos. Assim, o senador posicionou o país como um
potencial fornecedor de terras raras —grupo de elementos químicos usados em
produtos de alta tecnologia e na energia limpa.
"A América precisa de cadeias de
suprimento seguras para materiais críticos, um parceiro confiável no hemisfério
e um mercado massivo para bens e serviços americanos."
O filho de Jair Bolsonaro se inseriu, com
esse discurso, no ecossistema da direita radical global, replicando a teoria
conspiratória de que o ex-presidente americano Joe Biden teria financiado a
eleição de Lula em 2022. Flávio repetiu por quatro vezes essa acusação sem
provas.
Como mostrou
a Folha, essa teoria nasceu no início do ano passado, a partir
de uma conversa de vídeo gravada entre o ideólogo Steve Bannon, antigo
conselheiro de Trump, e Mike Benz, que se apresentava no X como ex-funcionário
do Departamento de Estado e diretor de uma ONG contra a censura.
Nessa gravação, Benz afirmou que a Usaid, uma
agência federal posteriormente dissolvida por Trump, havia trabalhado pela
eleição de Lula, financiando projetos de combate à desinformação e advogados
que teriam atuado junto ao TSE para reprimir conteúdos de Bolsonaro no
WhatsApp.
A narrativa foi rapidamente alardeada como um
grande escândalo pelo ex-deputado federal Eduardo
Bolsonaro (PL), que costuma fazer a ponte entre as direitas
bolsonarista e trumpista, e que mais uma vez discursou na Cpac.
Em sua fala, Flávio também aludiu a
narrativas e termos abraçados pela direita radical americana e europeia, como
quando afirmou que lutará contra a "agenda woke" (em referência aos
grupos que militam pela redução das disparidades sociais, raciais e de gênero),
contra a "agenda ambiental radical" e contra "os interesses da
elite global".
O senador fez ainda uma promessa que revela
sua descrença em relação à acelerada erosão democrática com a concentração
de poderes na Presidência no segundo mandato de Trump, em meio
a ataques às agências federais, às universidades, ao Judiciário e à imprensa.
"Trump 2.0 está sendo muito melhor que
Trump 1.0, certo? Bolsonaro 2.0 também será muito melhor."

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