quinta-feira, 14 de maio de 2026

O que a mídia pensa | Editoriais / Opiniões

Caso Orelha reflete valor da imprensa profissional

Por O Globo

MP concluiu que cão achado morto não foi vítima de agressão, como insistia ‘tribunal das redes sociais’.

Após longa análise, o Ministério Público (MP) de Santa Catarina concluiu que o cão Orelha, achado morto no início do ano na Praia Brava, em Florianópolis, não foi vítima de agressão humana, como sugeria a investigação policial. Pelas evidências disponíveis, o cão morreu em decorrência de uma infecção óssea. Os erros cometidos ao longo da investigação foram graves e incentivaram a condenação pública de adolescentes injustamente acusados. Causaram prejuízos à rotina e à saúde mental deles. Por isso o arquivamento do caso não deveria encerrar o assunto. É preciso responsabilizar as autoridades que, por oportunismo, incentivaram o prejulgamento. Sobretudo, é essencial que o episódio sirva para a população entender o perigo de pensar e agir com base nos “tribunais das redes sociais” e reconhecer o papel do jornalismo profissional na busca pela verdade.

A morte de Orelha no início de janeiro causou comoção nacional depois da divulgação da declaração de um porteiro, segundo o qual os adolescentes “parece que deram umas pauladas nos cachorros”. Ele depois negou em depoimento ter presenciado a agressão ao cão, mas isso não impediu que a polícia seguisse tratando os menores como alvo das investigações. Semanas depois, o governador Jorginho Mello (PL), em busca da reeleição, afirmou que as provas no processo “embrulharam o estômago”. Candidato a uma vaga na Assembleia Legislativa, o então delegado-geral da Polícia Civil, Ulisses Gabriel, defendeu a redução da maioridade penal.

No início de fevereiro, o inquérito estava concluído. Dos quatro menores inicialmente investigados, um foi apontado como autor. Mesmo sem ter ao menos uma prova direta do crime, os policiais fizeram pedido de internação provisória. Incentivada pelas declarações das autoridades, a opinião pública encarava os quatro adolescentes como culpados. Seus nomes, endereços e fotos circulavam em perfis nas redes sociais. Para garantir a integridade física dos filhos, famílias tiveram de mudar a rotina.

Uma jovem que apareceu em vídeo apresentado pela polícia com o suspeito passou a sofrer ameaças. Até quem não tinha relação com o episódio foi atingido. Um casal sócio da mãe de um dos adolescentes foi intimidado e procurou a polícia para registrar queixa contra mais de cem perfis. Entre os apontados estavam professores, empresários, funcionários públicos e influenciadores. Um adolescente de São Roque (SP) que nunca esteve em Santa Catarina foi acusado de participar da morte de Orelha. Seu nome completo, CPF e endereço foram divulgados. Nas ruas, manifestações pediam justiça.

Ao apurar o caso, uma reportagem do Fantástico, da TV Globo, ouviu policiais, advogados, moradores da Praia Brava, familiares do acusado, o veterinário que atendeu Orelha e integrantes do MP. Ao longo de 14 minutos veiculados em fevereiro, ela ressaltou todas as contradições e falhas da investigação. Na época, não faltaram protestos de quem acreditava na culpa do jovem apontado pela polícia. Ao fim, a conclusão do MP de Santa Catarina deu razão não à histeria das redes sociais, mas aos fatos apurados pela imprensa profissional. A sociedade brasileira tem o dever de refletir e aprender com o ocorrido.

Revogação eleitoreira da ‘taxa das blusinhas’ mostra governo desorientado

Por O Globo

Mesmo que medida possa fazer sentido, deveria se basear em dados técnicos, não na popularidade de Lula

É indisfarçável o objetivo eleitoreiro da decisão do presidente Luiz Inácio Lula da Silva de acabar com o imposto de 20% sobre produtos importados de até US$ 50, conhecido como “taxa das blusinhas”. A medida, tomada a menos de cinco meses das eleições, já começou a valer. A expectativa do Planalto é que produtos de grande apelo popular, garimpados em sites asiáticos, fiquem mais baratos, facilitando o consumo. Trata-se de mais uma iniciativa no pacote de bondades do Planalto, que inclui ainda refinanciamento de dívidas, ampliação do programa Minha Casa, Minha Vida, manobras para conter a alta dos combustíveis e linhas de crédito para taxistas e motoristas de aplicativo.

A repentina extinção da taxa demonstra que o governo sempre esteve perdido sobre o tema. Revelou-se incapaz de dar explicações convincentes sobre suas decisões. Ao estabelecer o imposto em 2024, o argumento era, além da necessidade velada de aumentar a arrecadação, atender a uma demanda da indústria brasileira, ameaçada pela concorrência. A despeito do que alegavam os protecionistas, porém, os números sugerem que o imposto não foi capaz de gerar mais emprego ou renda. Em contrapartida, prejudicou a população de baixa renda, que não viaja para o exterior e se viu privada de comprar importados a preços mais baixos.

Num ano eleitoral, isso bastou para o governo lançar para o espaço a defesa da indústria nacional. No lugar da análise objetiva, entrou o populismo eleitoreiro. “O que o senhor está fazendo é retirar impostos do consumo popular, do consumo das pessoas mais pobres”, afirmou o ministro do Planejamento, Bruno Moretti, diante de Lula no anúncio da medida. Ele afirmou que a maior parte das compras é de pequeno valor. Ora, o governo só percebeu isso agora, a sete meses do fim do mandato?

Como era esperado, a mudança de rumo não foi bem recebida pelo setor produtivo. A Confederação Nacional da Indústria (CNI) afirmou que o fim do imposto representa vantagem para indústrias estrangeiras em detrimento das nacionais e poderá ocasionar perda de empregos. O Instituto para Desenvolvimento do Varejo (IDV) se disse preocupado com a redução das vendas, principalmente entre pequenas e médias empresas, e afirmou que isso poderá levar ao fechamento de fábricas e à transferência da produção para outros países.

Teria sido mais sensato o governo ter se debruçado sobre estudos técnicos que apontassem os prós e contras da taxa. Mas, na base do improviso, preferiu consultar as pesquisas de opinião. Para os estrategistas do Planalto, o imposto foi um dos fatores que contribuíram para corroer os índices de popularidade de Lula. Mesmo que a revogação da taxa possa fazer sentido econômico, as pesquisas de opinião costumam ser o pior guia para respaldar decisões sólidas sobre impostos.

Fim da 'taxa das blusinhas' é ponta do iceberg eleitoreiro

Por Folha de S. Paulo

Lula revoga imposto criado com apoio de setores de seu governo e dá mais subsídios aos combustíveis

Em 2022, Bolsonaro chegou ao extremo de decretar um estado de emergência, com apoio da direita à esquerda, para ampliar gastos

Por si só, a tal "taxa das blusinhas" tem impacto modesto na receita do governo e na economia, embora afete uma quantidade expressiva de consumidores. Sua revogação, porém, é uma amostra de como o governo Luiz Inácio Lula da Silva (PT) está disposto a sacrificar a prudência e a coerência administrativa em nome da corrida eleitoral.

A tributação de importações de pequeno valor, em especial provenientes da China, era uma demanda de varejistas nacionais que foi rapidamente encampada pela Fazenda petista, ansiosa por medidas capazes de elevar a arrecadação —e tentar, inutilmente, conter o déficit orçamentário impulsionado pela escalada contínua do gasto público.

É verdade que houve idas e vindas até a adoção da norma, pois Lula percebeu que haveria riscos para sua popularidade. No entanto, o presidente da República sancionou a norma —um imposto de 20% sobre importações até US$ 50, antes isentas— em junho de 2024, quando ela foi incluída pelo Congresso em mais um projeto do Executivo para auxílio à indústria automobilística.

Se o líder petista tomou a providência a contragosto, auxiliares importantes ficaram satisfeitos. O vice, Geraldo Alckmin, que ocupou também a pasta do Desenvolvimento, defendeu a proteção a empresas nacionais; o ex-ministro Fernando Haddad, da Fazenda, apontou a importância de evitar fraudes e contrabando —e a arrecadação federal ganhou cerca de R$ 5 bilhões anuais.

A decisão de revogar a taxa após menos de dois anos de vigência seria mais facilmente defendida por um governo preocupado em abrir a economia à competição externa, ou que não tivesse um déficit fiscal projetado em quase R$ 60 bilhões neste ano, sem contar gastos com juros.

Trata-se apenas, porém, de uma ponta de iceberg na ofensiva eleitoreira de Lula. Há apenas cinco dias, um levantamento da Folha apontou R$ 143,7 bilhões em benesses promovidas neste ano, entre gastos orçamentários e linhas de crédito.

De lá para cá, já se anunciaram R$ 11 bilhões para um novo plano de segurança pública, o fim da "taxa das blusinhas" e, nesta quarta-feira (13), mais subsídio para os combustíveis —desta vez, uma medida provisória para conter os preços da gasolina. Articula-se ainda no Congresso Nacional uma aprovação açodada da redução da jornada de trabalho.

Se, mesmo com esse ritmo frenético de uso da máquina pública, Lula permanece com baixos níveis de aprovação popular nas pesquisas de opinião, pode-se temer pelo que ainda virá nos quase cinco meses que restam até a abertura das urnas.

Recorde-se que, em 2022, Jair Bolsonaro (PL) chegou ao extremo de decretar um estado de emergência, aprovado com apoio da direita à esquerda, para viabilizar alta geral de gastos ao arrepio das leis fiscais e eleitorais. A polarização política, como se vê, vai incentivando heranças amargas para os governos seguintes.

Universidade sem censura

Por Folha de S. Paulo

Manifesto que demanda pluralismo é resposta a práticas autoritárias e persecutórias que minam o trabalho acadêmico

O respeito à liberdade de expressão e ao debate racional, baseado em critérios técnicos, é condição essencial da produção de conhecimento

A polarização político-ideológica impactou de modo nefasto os princípios fundamentais que regem o ensino superior, por vezes criando um ambiente intelectual sufocado por práticas persecutórias. Como reação necessária, professores e pesquisadores lançaram o Manifesto pelo Pluralismo e pela Liberdade Acadêmica —que já tem mais de mil assinaturas.

Interditos se dão seja por meio de notas de repúdio e campanhas em redes sociais contra docentes, pesquisadores e alunos, seja por meio de boicote a aulas, cancelamento de eventos e intimidação de palestrantes.

Exemplos não faltam. Pesquisa da Universidade Federal Fluminense compilou mais de cem casos nos últimos anos, entre eles o abaixo-assinado de estudantes da USP contra o retorno da professora Janaina Paschoal.

Em 2022, candidatos do Novo foram impedidos de dar palestra na Unicamp; no ano seguinte, ativistas e pesquisadores declararam Richard Miskolci, professor da Unifesp, persona non grata por sua crítica ao conceito de cisgeneridade; em 2024, a UnB cancelou o curso do professor Jorge Gordin, da Universidade Hebraica de Jerusalém, após protestos antissionitas do alunado.

Trata-se de condutas inaceitáveis no ambiente acadêmico. Afinal, o respeito a ideias divergentes, à liberdade de expressão e ao debate racional, baseado em dados e critérios técnicos, é condição essencial da produção de conhecimento. A universidade é, por natureza, antiautoritária.

Por isso, o manifesto demanda o comprometimento com três pilares. Primeiro, a neutralidade institucional: "universidades devem evitar adotar posições oficiais sobre questões políticas ou ideológicas". Já a liberdade acadêmica exige "uma cultura organizacional pró-dissenso" que impeça perseguição e interdição de professores, pesquisadores e alunos por suas opiniões.

Por fim, o pluralismo advoga a expansão dos currículos para que abarquem obras de referência de campos diversos em disputa, como liberalismo, conservadorismo e progressismo.

Pesquisa do Instituto Sivis de 2025 mostra que 48% dos universitários evitam emitir opinião sobre assuntos polêmicos, principalmente sobre política, enquanto outra realizada pela USP e pela UFBA no mesmo ano aponta que 61% dos professores já evitaram certos temas por medo de sanção moral, política ou jurídica.

Universidades precisam conter o autoritarismo que estimula tal autocensura. Só assim poderão cumprir sua missão institucional e garantir legitimidade.

Lula brinca com coisa séria

Por O Estado de S. Paulo

Lançado às pressas para a eleição, plano contra o crime organizado não é política séria, é peça de propaganda para dar a Lula um discurso numa área pela qual ele nunca se interessou

A cinco meses da eleição, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva parece ter intuído que era urgente apresentar ao País alguma ação na área de segurança pública, nem que fosse uma gambiarra. Eis que surge o programa “Brasil Contra o Crime Organizado”, lançado com pompa pelo presidente da República, anteontem, como se fosse o marco inaugural de uma robusta política nacional de combate às facções criminosas, ao tráfico de armas e à barbárie no sistema penitenciário.

Por si só, a ocasião para o lançamento do “Brasil Contra o Crime Organizado”, às vésperas da campanha eleitoral, bastaria para provar que o programa não foi escrito para ser levado a sério. Mas seu vezo marqueteiro também não disfarça o horizonte de curtíssimo prazo. Não se trata de uma política de Estado, cuja continuidade a despeito do resultado das urnas é presumível. A rigor, não se pode dizer nem que seja uma política de governo – ao menos não de um governo responsável. Longe de ser uma política de segurança, trata-se efetivamente de uma peça de marketing idealizada para render dividendos eleitorais numa seara pela qual nem Lula nem o PT jamais demonstraram ter interesse genuíno.

Lula quer provar aos eleitores que enfim acordou para a aflição de milhões de brasileiros que convivem diariamente com medo de serem vítimas da violência. Para isso, garatujou no papel timbrado da Presidência um punhado de boas intenções – asfixia financeira das organizações criminosas, fortalecimento da segurança prisional, qualificação das investigações policiais e combate ao tráfico de armas –, como se isso bastasse para restabelecer nos brasileiros a confiança de que o Estado finalmente vai atuar para enfrentar os criminosos que os aterrorizam. É com esse sentimento legítimo de seus concidadãos que Lula está brincando.

Não se improvisa em segurança pública. Não se inventa às pressas um programa que claramente tem um prazo de validade: a eleição. É de uma obviedade ululante o fato de que nenhuma das medidas anunciadas por Lula, objetos de um decreto e de meia dúzia de portarias, terá tempo de sequer ser devidamente implementada neste mandato, que dirá de gerar resultados. Mesmo as ações mais simples exigem coordenação entre entes federativos, forças policiais, Ministério Público e Poder Judiciário. Não há notícia de que o presidente tenha liderado essa integração prévia.

O “Brasil Contra o Crime Organizado” é tão falacioso que uma de suas principais medidas é igualar o regime de encarceramento dos 138 presídios estaduais ao das cinco penitenciárias federais. Ora, nem todo cárcere precisa ser de segurança máxima. Ademais, reformas estruturais no sistema penitenciário levam anos, senão décadas.

Por sua vez, o aprimoramento das investigações policiais depende de formação, investimentos em tecnologia e inteligência e coordenação federativa permanente. A asfixia das finanças do crime organizado depende ainda de uma capacidade operacional que os governos – federal e estaduais – historicamente não demonstraram ter. Contam-se nos dedos os casos bem-sucedidos.

O medo da violência tornou-se uma das principais preocupações dos cidadãos, como atestam várias pesquisas de opinião. E, como a campanha eleitoral se avizinha, os marqueteiros do Palácio do Planalto entenderam que era preciso fabricar algum discurso para que Lula pudesse se expor nos palanques e nos debates com seus adversários.

A precariedade do programa também aparece no seu modelo de financiamento. Dos R$ 11 bilhões anunciados, apenas R$ 1 bilhão virá do Orçamento da União. O restante dependerá de empréstimos do BNDES a eventuais Estados e municípios interessados em aderir ao “Brasil Contra o Crime Organizado” – alguns já encalacrados há anos por dívidas monumentais, como é o caso do Rio de Janeiro, berço do Comando Vermelho.

Governar é fazer escolhas responsáveis. Se a segurança pública fosse mesmo central para o governo, Lula deveria ter submetido a debate parlamentar um remanejamento orçamentário para esse fim. Em vez disso, o demiurgo recorreu mais uma vez a expedientes parafiscais. Assim é fácil.

Um julgamento delicado

Por O Estado de S. Paulo

Ao julgar as regras para o uso dos relatórios do Coaf, essenciais no combate aos crimes financeiros, o Supremo deve conter os abusos sem inviabilizar as investigações

O julgamento que o Supremo Tribunal Federal (STF) deve iniciar hoje sobre o compartilhamento de Relatórios de Inteligência Financeira (RIFs) produzidos pelo Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf) vai muito além de uma disputa técnica entre garantias individuais e poderes investigatórios. O que estará em discussão é a capacidade do Estado brasileiro de acompanhar a sofisticação do crime financeiro contemporâneo sem abrir espaço para devassas arbitrárias e pescarias probatórias.

O tribunal analisará se o Ministério Público e as autoridades de persecução podem requisitar diretamente relatórios financeiros sem autorização judicial e sem investigação formal previamente instaurada.

Em março, o ministro Alexandre de Moraes, do STF, concedeu liminar impondo restrições ao uso dos RIFs. A decisão passou a exigir procedimento formal instaurado, identificação objetiva do investigado, pertinência temática entre o relatório e a investigação e vedação de pedidos genéricos ou exploratórios. Depois, Moraes esclareceu que a decisão produziria efeitos apenas prospectivos, sem invalidar automaticamente investigações passadas.

O ministro tem razão ao afirmar que relatórios de inteligência financeira carregam informações sensíveis e não podem ser utilizados como ferramenta de prospecção indiscriminada. Seria incompatível com o Estado de Direito permitir que órgãos públicos transformassem inteligência financeira em mecanismo de monitoramento informal de cidadãos, empresas ou adversários políticos.

O Supremo, porém, cometerá grave erro se, sob o pretexto de impedir abusos, construir uma jurisprudência que torne a inteligência financeira burocraticamente impraticável. Hoje, seguir o dinheiro tornou-se o ponto de partida do combate moderno à corrupção, à lavagem de dinheiro e ao crime organizado.

Foi um relatório do Coaf que revelou, por exemplo, movimentações incompatíveis com a renda de Fabrício Queiroz, o antigo faz-tudo da família Bolsonaro, e deu origem ao caso das rachadinhas no entorno do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ). A Operação Lava Jato, por sua vez, utilizou bastante a inteligência financeira para rastrear operadores e estruturas sofisticadas de lavagem de dinheiro. Investigações sobre facções criminosas, especialmente o Primeiro Comando da Capital (PCC), passaram a depender cada vez mais do rastreamento financeiro.

Mais recentemente, a investigação das fraudes bilionárias no Instituto Nacional do Seguro Social (INSS) também utilizou relatórios do Coaf para identificar repasses fracionados e movimentações incompatíveis envolvendo entidades suspeitas de descontos irregulares em aposentadorias. Sem contar as novas apurações sobre o senador Ciro Nogueira (PP-PI).

Eis o que precisa ser preservado no julgamento: relatórios de inteligência financeira não equivalem a condenações nem substituem autorização judicial para medidas invasivas posteriores.

O Supremo precisará encontrar o equilíbrio institucional. É correto impedir requisições genéricas e o uso político de informações financeiras sensíveis. Mas transformar o compartilhamento de RIFs em procedimento excessivamente restritivo produziria efeito perigoso: enfraquecer estruturalmente a capacidade do Estado de investigar criminalidade econômica sofisticada.

O momento político da decisão de Moraes também aumentou desconfianças desnecessárias. A liminar foi concedida justamente quando, no Congresso, a Comissão Parlamentar Mista de Inquérito (CPMI) do INSS ampliava pedidos de relatórios financeiros envolvendo pessoas próximas a integrantes do Supremo, inclusive a mulher do ministro. Não há prova de motivação pessoal na decisão, mas é evidente que o tribunal deveria ter preocupação redobrada com a percepção pública de imparcialidade.

Sem inteligência financeira eficiente, o Estado investiga no escuro enquanto corrupção, facções criminosas e lavagem de dinheiro movimentam bilhões à luz do sistema bancário.

Perigo à vista

Por O Estado de S. Paulo

Para compensar fim da escala 6x1, Congresso pode aumentar limites de enquadramento no Simples e no MEI

Reportagem publicada recentemente pelo Estadão revelou que o presidente da Câmara, Hugo Motta (Republicanos-PB), teria admitido a empresários que não conseguirá segurar por muito tempo a Proposta de Emenda à Constituição (PEC) que acaba com a escala 6x1. O tema, uma das prioridades da campanha do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, tem sido discutido em uma comissão especial da Casa e deve ser pautado em plenário nas próximas semanas para que possa ser enviado ao Senado ainda neste semestre.

Entidades representativas da indústria, comércio e serviços já estimaram os impactos negativos da redução da jornada de trabalho sem diminuição dos salários em um país com baixa produtividade e crescimento econômico, mas, a cinco meses das eleições, pouquíssimos parlamentares ousarão posicionar-se contra uma medida de caráter tão populista, haja vista o risco de serem punidos nas urnas.

Tudo indica que o debate, se houver, será feito de maneira açodada e, diante da inevitabilidade desse cenário, o setor produtivo optou pelo pragmatismo e começou a trabalhar para convencer lideranças do Congresso a estabelecer medidas que diluam o custo da bondade para seus negócios.

Entre elas há propostas pertinentes e bastante razoáveis, como a vinculação da redução da jornada a acordos coletivos e o estabelecimento de um prazo de transição de dez anos para que os segmentos mais atingidos possam se adaptar à escala reduzida. Outras, no entanto, nada têm a ver com o cerne da questão e visam apenas a pegar carona no debate, como a atualização dos limites de enquadramento no Simples Nacional e no regime de microempreendedores individuais (MEIs).

O setor argumenta que o fim da escala 6x1 atingirá em cheio os pequenos negócios, que, em conjunto, são os maiores empregadores do País. Mas são inegáveis as distorções e ineficiências que esses regimes geram na economia, entre os quais a redução da produtividade, sem contar o impacto na arrecadação de impostos e, sobretudo, nos cofres da Previdência Social.

A proposta é ampliar o limite de faturamento anual de microempreendedores individuais de R$ 81 mil para R$ 145 mil, enquanto o de microempresas aumentaria de R$ 360 mil para R$ 870 mil e o de empresas de pequeno porte, de R$ 4,8 milhões para R$ 8,695 milhões. Não há país no mundo que pratique algo remotamente parecido e que tenha tetos tão generosos para esse tipo de regime.

Embora os ministros da Fazenda, Dario Durigan, e do Trabalho e Emprego, Luiz Marinho, sustentem que o governo não pretende indenizar os setores pelo fim da escala 6x1, até as pedras em Brasília sabem que o Congresso não aprovará a proposta sem que haja algum tipo de compensação para as empresas.

Se ela se der nos limites de enquadramento do Simples e do MEI, como parece ser o caso, sairá caro para o Executivo federal, para a economia brasileira e para a sociedade como um todo. Mas o governo, lamentavelmente, parece disposto a fazer qualquer negócio e arcar com todo tipo de consequência apenas para garantir uma bandeira eleitoral para Lula.

Inflação do petróleo se espalha pela economia mundial

Por Valor Econômico

O choque do petróleo contribuiu para a alta da inflação no Brasil, onde o IPCA de abril, de 0,67%

O choque do petróleo provocado pela guerra de EUA e Israel contra o Irã espalha-se rapidamente pelos preços dos principais países desenvolvidos e emergentes, como mostram as altas recentes da inflação, em aceleração. Os preços ao produtor nos Estados Unidos, nos 12 meses encerrados em abril, subiram 6%, algo visto pela última vez em outro episódio de alta do petróleo, em 2022, com a guerra da Rússia contra a Ucrânia. Após meses na meta, a inflação subiu para 3% na zona do euro. Os países do Sudeste asiático, os que mais crescem, sofrem forte pressão do aumento das cotações do óleo, pois são extremamente dependentes do produto que é escoado pelo Estreito de Ormuz. No Brasil, grande exportador da commodity, assim como os EUA, essa pressão se acrescenta às já existentes, domésticas, especialmente a inflação do setor de serviços.

Todos os países estão pagando a conta do petróleo com o aumento da inflação. Ela é mais salgada nos que dependem da importação, e, entre eles, os da Ásia. Laos, Filipinas e Bangladesh estão com os índices de preços na fronteira de dois dígitos, enquanto o Paquistão, que faz a mediação entre EUA e Irã, viu a inflação avançar a 11%. Praticamente todos os governos da região adotaram subsídios diretos e medidas para conter o consumo.

O impacto inflacionário dependerá muito do grau de aquecimento da economia, das instâncias da política fiscal e monetária (se expansionistas ou contracionistas) e do nível prévio de inflação. Não surpreende, assim, que os Estados Unidos apresentem uma rápida deterioração inflacionária. A economia americana está em melhor forma que a dos demais países desenvolvidos, apoiada em grande parte em dois fatores potencialmente inflacionários. Um deles são os estímulos fiscais, aprovados pelo Congresso, com corte de impostos para empresas e pessoas físicas. O déficit fiscal americano pode chegar a 7% do PIB, e a renúncia de receitas, que a Casa Branca esperava que fosse (e não será) compensada por tarifas às importações, agravará o endividamento, hoje de 120% do PIB.

Os enormes investimentos relacionados à inteligência artificial estão puxando os preços de seus insumos, energia inclusa. As Big Techs, com investimentos anunciados de mais de US$ 750 bilhões em Inteligência Artificial (IA), elevaram os preços de software e dos computadores (alta de 5% em abril).

O índice de preços ao consumidor subiu para 3,8% nos EUA no mês passado, puxado por energia. Tanto a gasolina quanto o diesel subiram cerca de 60%, majoração que se espalhou para os fretes e para os custos de produção de empresas e produtores rurais. O preço da comida foi em abril 0,5% maior que em março. O núcleo do índice de preços ao produtor, que exclui itens voláteis como comida e energia, saltou de 3,7% em março para 4,4% em abril, em um sinal de que a pressão no atacado continuará se disseminando pelo varejo.

Além de ser uma dor de cabeça para o governo perto da temporada de eleições de meio de mandato, a inflação em alta, que já corre à frente da evolução dos salários, continuará desafiando a política monetária. Os efeitos das tarifas estão cedendo aos poucos o espaço a novas altas de energia, e o Federal Reserve (Fed), cuja taxa de juros está perto da neutra, não tem mais nenhum motivo para cortar os juros. Os investidores praticamente não esperam mais nenhum alívio na taxa de juros este ano e não descartam a possibilidade de uma ação contrária, de alta dos fed funds. A inflação levou os títulos do Tesouro de 2 anos à beira de 4% e os de 10 anos, de 5%.

O choque do petróleo contribuiu para a alta da inflação no Brasil, onde o IPCA de abril, de 0,67%, embora mais comportado que o de março (0,88%), elevou a inflação anual a 4,39%. As previsões das consultorias para o IPCA em 2026 subiram para 4,9% e seguem avançando semana após semana. O repasse aos preços tem sido amenizado pela política da Petrobras em relação à gasolina, item individual de maior peso no IPCA, e pelos subsídios ao diesel. Mas além de impulsionar a inflação de alimentos, os efeitos da guerra somaram-se à renitente alta dos preços dos serviços, que se acelerou.

Os itens mais sensíveis aos efeitos da guerra, que compõem 15% da cesta do IPCA feita pela Warren Investimentos, mostra até um arrefecimento em abril, quando o indicador variou 0,89%, ante março (2,55%). Mas a perspectiva de outros itens piorou. O gás de botijão e a energia provocaram alta da habitação, que possivelmente não se reduzirá em maio, quando entra em vigor a bandeira amarela, com aumento de tarifas. Bens industriais, que colaboravam para amortecer o IPCA, estão agora em trajetória de alta e devem fechar o ano com avanço de 3,3%, segundo Fábio Romão, da 4intelligence. Segundo ele, os preços da alimentação no domicílio deverão ter aumento de 6,1%, ante 1,52% em 2025 (Valor, ontem).

Os núcleos mostram a inflação longe da meta. A média trimestral anualizada dos serviços subjacentes, mais ligados ao ciclo econômico, aumentou de 5,64% para 5,95%. Isso significa que, para além da guerra, os impulsos inflacionários predominantes ainda são domésticos e se relacionam com o bom ritmo da atividade e um mercado de trabalho aquecido. Os estímulos fiscais do governo, em alta, explicam grande parte da resistência inflacionária.

Há outras questões sanitárias que merecem atenção

Por Correio Braziliense

Enquanto diversionismo, negacionismo e vale-tudo eleitoral entram em cena, riscos reais à vida dos brasileiros ganham força, como doenças infecciosas já erradicadas

Com grande repercussão nas redes, o vídeo de um homem que simula beber todo um frasco de detergente e termina fazendo um gesto obsceno aos "petistas" é o mais novo capítulo de como temas ligados à saúde chegam ao campo das disputas eleitorais da forma mais abjeta e perigosa possível. A gravação mobilizou anônimos e personalidades — incluindo políticas — para um campo de enfrentamento muito distante do que, de fato, ameaça o bem-estar da população. Enquanto diversionismo, negacionismo e vale-tudo eleitoral entram em cena, riscos reais à vida dos brasileiros ganham força, como doenças infecciosas já erradicadas.

A razão da nova onda de sandices é um episódio corriqueiro das instâncias regulatórias. Diante da constatação da venda de produtos Ypê cuja fabricação tem "falhas nos sistemas de garantia da qualidade, produção e controle de qualidade", a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) determinou o recolhimento das mercadorias. Nos últimos dias, processo semelhante aconteceu com lotes de canela em pó (presença de pelo de roedores), fubá (origem desconhecida), protetores solares e repelentes (produzidos com fórmulas diferentes das autorizadas) e sardinha (presença da bactéria Salmonella). Até não especialistas reconhecem que as razões justificam as medidas adotadas, e nenhuma dessas decisões do órgão regulador viralizou.

No caso Ypê, a empresa classificou a decisão da Anvisa de "arbitrária e desproporcional" e apresentou a sua defesa pela reconsideração, o que também faz parte do rito regulatório. Foge à normalidade o discurso disseminado de que uma agência de Estado age conforme interesses do governo federal a partir de resultados de uma inspeção feita em parceria com um órgão estadual. Há de se destacar que os dois Executivos em questão são de campos político-ideológicos distintos, o que torna as acusações ainda mais esdrúxulas.

Contaminar a pauta política/eleitoral com terrorismo sanitário é estratégia que ganha força no país desde a pandemia da covid-19. No auge da crise, o então presidente da República afirmou que não recomendava a vacina porque os imunizados desenvolveriam Aids — síndrome infecciosa que, nas décadas de 1980 e 1990, foi chamada de "peste do século" pela alta taxa de mortalidade e pela falta de conhecimento científico sobre a doença. Hoje, o arsenal para tratar a Aids é eficaz e está bem fundamentado que os imunizantes contra o coronavírus salvaram milhões de vidas — e seguem salvando. Da mesma forma, há pesquisas mostrando que o elevado número de mortos no Brasil — mais de 700 mil — tem o negacionismo como uma das razões principais e que o movimento antivacina foi impulsionado por declarações falaciosas de autoridades.

É real e deveria mobilizar eleitores o fato de que a baixa cobertura vacinal coloca o país na delicada condição de reintrodução da poliomielite. Que casos de coqueluche, sarampo e meningite aumentam em ritmo acelerado, sobretudo em crianças, pelo mesmo motivo. Que o Brasil enfrenta um ritmo acelerado de envelhecimento de sua população e precisa organizar um sistema de saúde que dê respostas a esse complexo fenômeno. E que esse mesmo país ainda perde crianças por enfermidades evitadas pela oferta de saneamento básico. 

Não se pode lançar acusações levianas sobre um órgão dedicado a questões tão basilares para a vida em sociedade. As consequências de tamanha irresponsabilidade ultrapassam o calendário das disputas eleitorais. 

Toda hora é hora de combater o crime organizado

Por O Povo (CE)

O governo federal anunciou um amplo pacote de ações voltadas ao combate ao crime organizado no Brasil. A primeira delas, e talvez mais importante, projeta investimentos de R$ 11,1 bilhões em programas e atividades cujo foco será fazer frente às organizações que desafiam o Estado de maneira a cada dia mais ousada.

O que está anunciado é que R$ 982 milhões virão de aportes próprios dos cofres federais e R$ 10 bilhões integram um plano de financiamento destinado a estados e municípios via Fundo de Investimentos em Infraestrutura Social (FIIS). Ou seja, para que a ideia saia do papel e vire realidade, melhorando de fato a vida das pessoas, protegendo-as, haverá necessidade de uma articulação sadia entre Brasília e gestões espalhadas pelo País que, em boa parte, integram uma linha de oposição que tem tornado difícil o diálogo entre as partes. Quando não impossível.

Claro que cabe o debate que está posto, através de vozes da oposição, acerca do possível caráter eleitoreiro da medida, considerando o momento em que é anunciada, às portas da campanha. O governo que encontre meios de convencer interlocutores indispostos da boa intenção do que está propondo, segundo justifica, como forma de asfixiar as bases econômicas das facções criminosas que tentam tomar o controle de partes das cidades brasileiras espalhadas por todos os territórios brasileiros.

Acontece que temos, de fato, um cenário assustador e que exige de todos um compromisso de, em defesa da sociedade, colocar os interesses próprios em segundo plano. Ou seja, quem defende a linha de que existe uma estratégia eleitoral por trás das medidas anunciadas precisará conciliar sua postura com alguma disposição para tornar possível, no âmbito de sua competência como governador, prefeito ou parlamentar, ações que buscam o combate de criminosos. Independente da circunstância política, a sociedade cobra isso das autoridades públicas.

Parece desfuncional à própria democracia que a fase eleitoral provoque efeito paralisante sobre um gestor ou uma gestão pública, o que significa que as ações precisam continuar acontecendo no tempo em que se demonstrarem necessárias num mandato que se estende por quatro anos. Ainda mais numa área, como a segurança pública, que exige atenção permanente e já deveria vir sendo atacada pelo Estado, no sentido mais amplo e correto do termo, com eficiência maior do que a que tem sido demonstrada.

Não há mais porque postergar e, sendo o caso, deixemos ao eleitor que ofereça, no momento oportuno e da maneira adequada, a resposta que por ventura mereçam aqueles que detinham poder para agir contra o crime organizado e, conforme a crítica que está sendo feita ao presidente Lula e seu governo, deixaram para fazê-lo numa hora que lhe pareceu conveniente e, mais importante, que pode render votos. 

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