sexta-feira, 10 de abril de 2026

Aumentos de gasolina e diesel no Brasil estão entre os menores do mundo durante a guerra, por Vinicius Torres Freire

Folha de S. Paulo

Reajuste da gasolina por aqui fica na 90ª posição entre 128 países; o do diesel, na 71ª

Além de dar subsídios e redução de impostos, país enfrenta crise em situação mais favorável

Os preços da gasolina e do diesel aumentaram mais na maioria dos países do mundo do que no Brasil, que fica perto da rabeira desse ranking. No caso da gasolina, ficamos em 90º lugar entre 128 países —em 25 deles, a variação foi menor do que 1%, nada, ou negativa. Quanto ao diesel, ficamos em 71º lugar —em 21 países, a variação foi menor do que 1%.

Os dados são da Global Petrol Prices. Baseiam-se na conta de variação de preços entre 23 de fevereiro (a guerra começou em 28 de fevereiro) e 6 de abril. Como se deve fazer em relação a qualquer ranking ou comparação, é preciso descontar a precisão dos dados. Trata-se de médias nacionais ou preços típicos. Alguns países controlam reajustes (oi, Brasil), ditam as datas de aumento, outros não intervêm no mercado, poucos são grandes produtores, outros importam quase tudo etc.

Mesmo com as ressalvas, é certo que o Brasil está lá pelo fim da classificação. O aumento médio de preços nos 89 países em que a gasolina ficou mais cara do que por aqui foi de 23,5% –no Brasil, pelos dados do ranking, 7,6%. No caso do diesel, a média do reajuste dos 70 países com aumento maior do que o brasileiro foi de 50,8% (no Brasil, de 23,5%).

A carestia foi maior em países mais pobres do sul e do leste da Ásia. "Anglo-saxões", como dizem os franceses, historicamente mais liberais, tiveram reajustes grandes. Os Estados Unidos estão em 14º lugar no ranking da gasolina (aumento de 35,1%) e em 23º lugar no diesel (reajuste de 48,2%).

No mais, olhando a lista não dá para discernir tendências regionais claras. Em muito lugar da Europa, há, sim, subsídio ou redução de imposto sobre combustíveis. No sul e no leste da Ásia, há tentativas de contenção de consumo ou quase racionamento. A atitude de cada país depende também de seus meios.

Petrobras no mínimo atenua frequência e tamanho dos reajustes, não sabemos por ora se de modo razoável (para o balanço da empresa) ou não. O governo subsidia diesel, gás, reduz imposto. Embora importe parte dos combustíveis que consome, o Brasil é exportador de petróleo. Isto é, com aumento do preço do barril, a renda do país e a receita do governo aumentam. Enfim, tem contas externas em ordem, o que não é o caso de muito país pobre —se mantivessem preços estáveis, entre outros problemas, continuariam a importar combustíveis em ritmo de outros tempos, gastando o que não têm em moeda forte.

O Brasil enfrenta esta crise em situação menos desfavorável, pois. Além do mais, intervenção estatal é costume nacional, da direita à esquerda, e gosto de tanto empresário "bolsonarista moderado" com horror do "estatismo" de PT e Lula. Em ano de eleição, intervenção é palpite certo.

Apanha quem levanta dúvidas sobre a qualidade, a quantidade e a oportunidade da intervenção ou trata dos riscos de dano colateral. Na dificuldade, empresas correm para o governo ou para o Congresso e suas "bancadas", onde conseguem extensões compridas ou eternas de subsídios.

Sim, há argumentos razoáveis para tentativas emergenciais de atenuar choques econômicos, de preços. Isto é, se são choques, se são transitórios. Aliás, é necessário ter política nacional de energia, por exemplo, planos, muita vez com ação do Estado, pensada e de prazo mais longo. Estamos falando aqui de outra coisa: do desejo quase geral de acomodação duradoura ou permanente no colo do Estado, não raro com favor explícito, para quem pode.

 

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