O Globo
No Brasil polarizado de hoje, precisamos nos
perguntar se o aumento do alinhamento nos trouxe mesmo mais democracia
A literatura política frequentemente associa
o alinhamento ideológico — a organização das preferências políticas de modo
coerente com os valores de um campo — ao aprimoramento da democracia. Mas, no
Brasil polarizado de hoje, precisamos nos perguntar se o aumento do alinhamento
nos trouxe mesmo mais democracia — ou se o país não precisa, ao contrário,
reaprender o valor do desalinhamento.
O alinhamento programático e ideológico tem sido tradicionalmente valorizado pela literatura da ciência política. Em primeiro lugar, ele organiza e simplifica debates amplos, cujos componentes variados e complexos passam a ser compreendidos à luz de princípios coerentes e estáveis, facilitando sua inteligibilidade. Numa democracia de massas, isso é especialmente importante porque partidos políticos e ideologias funcionam como atalhos cognitivos para os eleitores. O alinhamento também favorece a organização política da sociedade, articulando diferentes conflitos e divisões, viabilizando alianças coerentes e a oferta de soluções coordenadas.
O alinhamento permite ao cidadão intuir que o
feminismo e a defesa dos direitos dos trabalhadores fazem parte do mesmo
pacote, de esquerda, que defende igualdade e direitos sociais, assim como
permite intuir que lei e ordem e defesa da família fazem parte do pacote
conservador. A coerência programática organiza o espectro ideológico, traz
ordem ao sistema partidário e torna previsível a construção de alianças.
Durante anos, a sociedade brasileira careceu
de alinhamento. Era uma sociedade essencialmente amorfa e despolitizada. Depois
dos protestos de junho de 2013 — e especialmente após as eleições de 2018 —, o
Brasil passou da carência ao excesso. Vivemos hoje numa sociedade
hiperpolitizada, com identidades hipertrofiadas e divisões ideológicas
crescentes.
O custo desse ganho de coerência tem sido a
intolerância política e o risco cada vez maior de não conseguirmos conviver em
respeito democrático. A saída para isso pode ser o desalinhamento, o exercício
crítico da moderação e da independência política.
O desalinhamento não precisa ser a retomada
da despolitização informe, da incoerência e da confusão conceitual que tivemos
no passado. Os blocos ideológicos não são necessariamente unidos pela coerência
de valores e princípios, como sugere a teoria. O alinhamento entre liberalismo
econômico e conservadorismo moral não é fruto de lógica interna, mas de uma
aliança tática que tem sido costurada politicamente. Da mesma maneira, em
alguns países o nacionalismo caminha junto à proteção social; noutros, se
alinha com a austeridade.
Às vezes, cada lado do espectro político
revela um pedaço do nosso problema social. O progressismo tem ressaltado as
profundas iniquidades que recaem sobre as mulheres. O conservadorismo, a
centralidade da família para a vida social. Não deveria ser preciso escolher
entre uma ênfase e outra.
O alinhamento nos torna reféns das respostas
políticas dominantes no campo a que nos filiamos. Não é porque reconhecemos a gravidade
do racismo que precisamos necessariamente aceitar as cotas raciais como melhor
solução de política pública.
O desalinhamento permite o convívio e a
escuta — e o convívio modera. Ao conviver com gente dos dois campos políticos,
passamos a entender suas perspectivas e moderamos as posições. As feministas
mostram que o aborto muitas vezes responde a uma necessidade imperiosa: a
sobrevivência psíquica da mãe. Os conservadores mostram que o aborto traz um
problema ético inescapável. É possível entender as duas coisas, e essa
compreensão simultânea modera a posição.
Pensar com independência, reconhecer razões
em lados opostos e recusar a ortodoxia dos campos políticos não é debilidade.
Não precisamos escolher entre a apatia e a polarização. Deve haver um ponto
ótimo em que nos engajamos e nos responsabilizamos pela vida pública, mas sem
comprar pacotes prontos que geram fechamento cognitivo, intolerância política e
incapacidade de compromisso democrático. O desalinhamento estratégico pode ser
o caminho para esse engajamento crítico.

Nenhum comentário:
Postar um comentário