Folha de S. Paulo
Vance critica burocratas de Bruxelas em linha
com campanha antieuropeia de primeiro-ministro
Magyar, opositor que lidera pesquisas, afirma
que história húngara não é escrita por Washington
Juras de amor a Viktor Orbán e
críticas aos "burocratas de Bruxelas" marcaram a visita de J. D. Vance a Budapeste nesta
terça-feira (7). A presença do vice-presidente dos Estados Unidos, tentativa de
dar peso internacional ao contestado primeiro-ministro, ocorre dias antes da
eleição parlamentar que pode tirá-lo do poder após 16 anos.
Pesquisas de opinião colocam Péter Magyar, um ex-aliado, com vantagem superior a dez pontos percentuais no pleito de domingo (12). No X, o candidato classificou a visita de Vance de interferência externa. "A história da Hungria não é escrita em Washington, Moscou ou Bruxelas. Ela é escrita nas ruas e praças da Hungria."
A mensagem de Magyar pareceu elaborada para
esvaziar o principal argumento de Vance, de que a interferência externa é
da União
Europeia, bandeira da campanha de Orbán —até aqui, sem grande
aderência. Segundo a narrativa, UE e Ucrânia conspiram
contra a Hungria, que não quer se envolver na guerra do país vizinho e depende
do gás russo.
"Os burocratas de Bruxelas tentaram
destruir a economia da Hungria. Tentaram diminuir a independência energética da
Hungria. Tentaram aumentar os custos para os consumidores húngaros. E fizeram
tudo isso porque odeiam esse cara", disse Vance na capital húngara,
apontando para Orbán a seu lado.
"O presidente ama você", disse
Vance, reiterando a aposta do chefe.
No último dia 21, Donald Trump descreveu
Orbán como um "sujeito fantástico" em vídeo transmitido durante a
etapa de Budapeste da conferência conservadora Cpac.
As afinidades de fato são muitas. Em um ano,
o americano fez o que o húngaro levou quatro para fazer: minou as instituições
democráticas a tal ponto que o último relatório do instituto V-Dem, termômetro
global das democracias ligado à Universidade de Gotemburgo, rebaixou
a classificação do país.
Enquanto os EUA foram rebaixados para
"democracia eleitoral", a situação húngara já é, graças a Orbán, uma
construção mais antiga e iliberal, "autocracia eleitoral" —como Rússia, Sérvia e
boa parte do Leste Europeu,
em que 65% da população vive sob regime parecido.
Antes de Vance, por sinal, foi da Sérvia que
saiu a última pedrada na campanha de Magyar. Autoridades do país, no fim de
semana, afirmaram terem encontrado dois pacotes de explosivos próximos a um
gasoduto. A instalação alimenta a Hungria com gás da Rússia, fazendo Orbán
sugerir uma sabotagem ucraniana.
"A Ucrânia vem trabalhando há anos para
isolar a Europa da
energia russa", declarou o premiê na noite de domingo (5). Logo surgiram a
negativa ucraniana ("nada a ver com isso") e a sustentação russa à
tese ("altamente provável").
A Hungria é um dos últimos países europeus
dependentes do produto russo, que a UE procura boicotar desde a eclosão da
guerra, em 2022. Segundo reportagens investigativas, além do alinhamento
político com Moscou, Orbán tem pessoas próximas que faturaram com contratos de
importação do gás.
Magyar, que creditou a suposta tentativa de
atentado aos serviços de inteligência russa, tem como bandeira de campanha
justamente a corrupção no país, o que é corroborado por pesquisas de opinião.
Sua liderança nas pesquisas é inédita na era Orbán, ainda que alguns analistas
façam questão de lembrar do fracasso de um bloco de oposição unido no pleito de
2022.
Orbán, 62, entre as inúmeras manobras que
realizou para enfraquecer as instituições do país, também promoveu reformas
eleitorais, que, segundo analistas, minam a representatividade do voto na
Hungria.
A União Europeia acompanha o pleito com
preocupação, mas tem evitado maiores manifestações para não alimentar a
narrativa da campanha do primeiro-ministro. Há duas semanas, por exemplo, quase
não se manifestou sobre reportagem do
jornal americano The Washington Post acerca do fato de o
governo húngaro ter vazado reuniões do Conselho Europeu para o Kremlin.
Nesta terça-feira, Bruxelas também economiza
nos comentários sobre as críticas de Vance, segundo membro do alto escalão do
governo dos EUA a visitar Orbán, mais um ingrediente para o momento de crise
que vivem os dois lados do Atlântico. Em fevereiro, foi a vez de
Marco Rubio, secretário de Estado, passar por Budapeste.
Orbán, além do perfil autocrático, que fere
os fundamentos da UE, vem sendo um entrave para o apoio do bloco econômico à
Ucrânia, cada vez mais vital para o país invadido desde que Trump voltou ao
cargo no ano passado. O presidente americano, que chegou a dizer que acabaria
com a guerra em questão de dias, adota uma
posição ambígua em relação ao conflito.

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