Diante desse cenário que se projeta pelo
mundo, a queda de regimes políticos, a mudança de ideologias, as anexações de
países deixaram momentaneamente de inspirar conspirações, invasões e derrubadas
de governos. Aparentemente, está sendo provocado um redesenho das
alianças globais. A globalização se fragmenta e surgem diferentes polos de
Poder. Mas, o protagonismo está agora com os "Estreitos", essas
passagens naturais ou artificiais de largura e profundidade adequadas, que
conectam mares ou oceanos, permitindo o comércio, a navegação de grandes
graneleiros e petroleiros, bem como o exercício pleno de uma geopolítica. De
repente, contudo, ao invés de ajudar no diálogo, descobriu-se que eles contêm
os gérmens de grandes conflitos.
Bab el- Mandeb, Ormuz, Suez e Málaca são
apenas quatro dos 49 Estreitos que, protagonizam o comércio mundial. Por eles
passam o petróleo, o gás natural, os fertilizantes, as importações e
exportações que dinamizam a economia e alimentam a população do Planeta. Eles
abrem as portas, diminuem as distâncias e reduzem os custos do transporte. Os
mais estratégicos são mesmo o de Ormuz, no golfo Pérsico, por onde transita 20%
do petróleo no mundo; o de Gibraltar, entre o Marrocos e a Espanha, que
conectam o Oceano Atlântico aos países do norte da África, do sul da Europa e
do Oriente Médio; o de, Malaca, entre a China e a Indonésia, que permite o
acesso aos países asiáticos; e o de Bab el-Mandeb facilita o acesso ao
canal de Suez, à Ásia, à Europa e vice-verso. Dover, entre a França e a Gran
Bretanha, permite o tráfego livre dos dos países nórdicos; e o de Bhering,
separando a Rússia e os Estados Unidos (Alasca) da mesma forma. Mas alguns,
como pontos de passagem, enfrentam embates políticos sérios com vizinhos, como
o do o mar Báltico, um mar interior, que opera como um Estreito para o tráfego
de vários países. O de Suez já gerou várias crises internacionais.
Todos eles estão ligados aos países que
banham com suas águas, e que exercem sobre eles um direito de soberania, embora
funcionem como vias internacionais. Em alguns o trânsito é livre, em outros é
preciso de autorização do país detentor dessa autonomia. O fechamento de
qualquer um desses estreitos gera, contudo, crises econômicas ou políticas, com
dezenas de outros que usam aquela passagem para transportar seus produtos
importados ou exportados. Certas cargas são gêneros de primeira necessidade,
até perecíveis, outros combustíveis que alimentam parques industriais ou movem
os sistemas produtivos. A discussão, por isso, é complicada. A ONU dispõe de
uma agência especializada, a IMO (Organização Marítima Internacional), para
regular a segurança e o tráfego do transporte marítimo mundial, encarregada de
definir padrões técnicos, de segurança e ambientais para navios em escala
global. Funciona! Não sei, mas que chega sempre atrasada, é verdade.
Enquanto o Irã tenta usar o Estreito de Ormuz
como arma de guerra ou de chantagem, na ONU a China articula um veto contra o
uso da força para sua reabertura, mesmo que seja para proteger o tráfego de 20
% do petróleo e do gás natural que alimenta os sistemas energéticos no mundo.
Os pequenos países árabes do Golfo Pérsico, também produtores e exportadores de
petróleo, reagiram às ameaças "globais" do Irã e o denunciaram na ONU.
O Conselho de Segurança da ONU está votando uma resolução do Bahrein para
proteger a navegação por Ormuz.
A resolução em debate autoriza "todos os
meios defensivos necessários" para proteger os navios comerciais. A medida
valeria por pelo menos seis meses, segundo a proposta original finalizada pelo
Bahrein - um dos ameaçados -, que preside o Conselho. Tem 15 membros, entre os
quais está o Brasil. A diplomacia brasileira está preocupada com o desfecho
institucional, mas o o governo do Brasil tem sido um dos estimuladores das reações
do Irã à possibilidade de invasão dos EUA, Israel, Otan e outros países do
Leste. A Rússia, que também apoia do Irã, é uma das afetadas. Sem arriscar-se a
se meter diretamente no conflito, ela reforça as pressões para o fim da guerra.
Suspendeu por 30 dias a exportação de fertilizantes. Ela detém mais de 40% dos suprimentos
desses insumos agrícolas para o mundo.
O Brasil está dentro dessa armadilha, que parece caminhar em direção ao caos: escassez de combustíveis, de gás natural, de hélio (para resfriamento de microprocessadores digitais, e, sobretudo, de fertilizantes). O agronegócio do Brasil, esse que alimenta os brasileiros e gera saldo na balança comercial, está ficando sem acesso aos fertilizantes importados. Os demais fornecedores não têm condições de substituir os fornecimentos russos. Significa então que em 2026 a produtividade será menor, a próxima safra de produtos agropecuários mais reduzida, a oferta de produtos alimentares diminuirá e a inflação vai subir. A guerra está chegando aqui no consumidor, nas donas de casa. Vamos torcer para que não agrave a fome no mundo.
*Jornalista e professor

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