quinta-feira, 14 de maio de 2026

Flávio Bolsonaro pedia dinheiro dos fundos sujos do 'irmão' Vorcaro, por Vinicius Torres Freire

Folha de S. Paulo

Ex-dono do Master sumiu com recursos de seus credores e faz país pagar essa conta

Candidato em longa história de escândalos, mas ainda assim tem cerca de 40% dos votos

Flávio Bolsonaro é muito família. De família de golpista e de simpatizantes do golpe. É muito amigo. Muito amigo do dinheiro vivo, da boca do caixa à compra de casa grande. Foi amigo de uma família de milícias e de um pistoleiro. Ainda assim, tem perto de 40% nas pesquisas sobre a disputa da Presidência da República.

Sabe-se agora que Flávio Bolsonaro é um dos tantos amigões de Daniel Vorcaro, chefe de máfia que era proprietária de banco, o Master. É "irmão", parceiro eterno de papo reto: "Irmão, estou e estarei contigo sempre, não tem meia conversa entre a gente. Só preciso que me dê uma luz! Abs!", escreveu para Vorcaro quando pedinchava dinheiro, informação revelada pelo site Intercept Brasil e confirmada em parte por este jornalista. Flávio Bolsonaro, que escondeu a amizade, diz que não havia rolo. O silêncio vale ouro.

Ao menos pelo que se sabia até a noite desta quarta (13), Flávio cobrava o dinheiro acertado com Vorcaro para financiar uma hagiografia filmada de Jair Bolsonaro. A proximidade com esse bom companheiro, "irmão", vai pegar mal, enfim? Amizade com pistoleiro, golpista, miliciano etc., até agora não causou aversão a boa parte da elite brasileira e a 40% do eleitorado.

É verdade que a campanha propriamente dita não começou. Talvez então se refrescasse a memória de parte do povo. De qualquer modo, é preciso lembrar desde já que o dinheiro do filme de promoção de Jair Bolsonaro vinha dos fundos sujos de Vorcaro. Foram pelo menos R$ 61 milhões de um orçamento, digamos, de R$ 134 milhões. A família Bolsonaro não faz miséria. Um filme brasileiro premiado e reputado, "O Agente Secreto", teria custado menos de R$ 50 milhões, segundo informações levantadas por esta Folha.

Vorcaro não economiza nas amizades, como se sabe. Não poupava hipérboles para a camaradagem, a fraternidade e a cumplicidade com seus tantos amigos no poder. O senador Ciro Nogueira (PP-PI), por exemplo, é um dos "grandes amigos de vida", escreveu Vorcaro, e padrinho da imodéstia financeira do parlamentar, segundo acusação da Polícia Federal. Como se sabe, de resto, Ciro Nogueira era candidato a vice de Flávio Bolsonaro. Foi ministro da Casa Civil de Jair Bolsonaro, um dos sultões do centrão e do semipresidencialismo de avacalhação bolsonariano. Muito familiar.

É preciso lembrar o que é Vorcaro e de onde vinha o dinheiro com que azeitava sua fraternidade e a propaganda midiática para manter vivo seu banco zumbi e atacar desafetos. Recorde-se, pois, o que eram os fundos de onde vinha o dinheiro do filme sobre Jair Bolsonaro, "obra prima", "emocionante", disse o filho candidato.

Vorcaro comprou, alugou ou presenteou figuras relevantes da política e da elite brasileira. Tinha negócios ainda pouco esclarecidos com empresários e financistas, participações cruzadas em empresas. Montou esquemas complicados de sumiço dos recursos que tirava de investidores, credores do suposto banco Master. Tomava esse dinheiro emprestado sem ter meios de pagar —que sabia não ter como pagar. Dezenas de bilhões em ativos que em tese poderiam ser utilizados para honrar esses compromissos eram em parte pura fraude; outros não valiam fração do que estava nos livros. Vorcaro sumiu com dezenas de bilhões de reais, conta que em parte vai ser paga por quase todo mundo, por meio dos bancos que financiam o fundo do seguro de crédito (FGC), cofre arrombado pela fraude sistêmica que era o Master.

 

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