Correio Braziliense
Solucionar o problema fiscal passará por um
pacto pela dívida pública que vai exigir do governo um amplo esforço de
reconstruir sua credibilidade nesse tema, mas também uma maior boa vontade do
mercado que adquire essa dívida
No artigo de abril, propus uma reflexão sobre
um tema que dificilmente ocupará o debate eleitoral de 2026, mas certamente
ocupará a agenda do próximo governo: trata-se da dívida pública e a sua
contínua expansão. O último dado da Dívida Bruta do Governo Geral (DBGG)
ultrapassa a casa dos 80% do PIB. Há aproximadamente um mês, quando escrevi o
texto anterior, ele se encontrava em 79,4%. Em suma, a DBGG deve continuar se
expandindo no horizonte próximo.
Duas perguntas devem ser levantadas sobre essa questão: primeiramente, quais as causas de uma trajetória de endividamento público tão insustentável? Em segundo lugar, como corrigir essa trajetória. Este artigo focará na primeira pergunta.
Alguns economistas vão dizer que a causa de o
endividamento público crescer de forma tão contundente são os desequilíbrios
fiscais. Será? Entre 2023 e 2025, o deficit primário da União diminuiu de 2,4%
para 0,4% do PIB. Em três anos, um esforço fiscal de 2% do PIB foi verificado
no Orçamento — esperava-se que isso influenciasse a trajetória de crescimento
do endividamento público.
Uma explicação recorrente dada por
economistas do mercado é que a piora fiscal não tem sido observada pelo lado do
resultado primário, mas, sim, pela trajetória "insustentável" do
gasto público. Mais uma vez, olhemos para os dados. De fato, a despesa pública
saltou em termos reais de R$ 2,118 trilhões em janeiro de 2023 para R$ 2,439
trilhões em janeiro deste ano. Uma expansão real de pouco mais de R$ 300
bilhões. Entretanto, ao se comparar com o dado da despesa primária em proporção
do PIB, a oscilação foi muito modesta — o gasto público saltou de 18,4% do PIB
para 19,1% do PIB no período. Isso é, tem-se uma variação de pouco mais de meio
por cento do PIB no triênio.
Sob qualquer perspectiva que se olhe, parece
difícil sustentar a hipótese de que uma expansão de oito pontos percentuais do
PIB em três anos esteja sendo explicada por um deficit que foi reduzido em dois
pontos do PIB no período. Tão pouco pode-se creditar essa dinâmica ao fato de a
despesa pública ter avançado meros 0,6% do PIB no mesmo período. Em suma,
embora o problema fiscal exista no Brasil, ele tem sido sobredimensionado no
debate público e, seguramente, não é a causa da trajetória recente de expansão
do endividamento público.
Isso posto, voltemos à primeira pergunta: o
que explica esse endividamento. Uma resposta definitiva sobre esse tema requer
uma investigação mais aprofundada; mas, aparentemente, esse comportamento
parece estar associado ao custo de rolagem da DBGG. Uma curiosidade observada
nos dados é que a taxa implícita de juros média da DBGG entre 2023 e 2026 foi
de 11%. A taxa implícita de juros é uma boa proxy do custo de rolagem da
dívida, uma vez que condensa em um único número as despesas com juros e
encargos com o saldo da dívida.
Como dito, a taxa implícita média no triênio
iniciado em 2023 foi de 11%. Permaneceu nesse patamar mesmo durante aquele
curto período entre agosto de 2023 e setembro de 2024, quando o Banco Central
(BC) reduziu a Selic de 13,75% para 10,5%, indicando que o custo de rolagem da
dívida pública praticamente não absorveu o afrouxamento monetário experimentado
no país naquele período. Isso lança incertezas adicionais sobre o problema; uma
vez que o BC volta a implementar um ciclo de afrouxamento monetário, parece que
isso não irá reverberar sobre o custo de financiamento do governo.
Em resumo, o custo implícito da dívida do
governo manteve-se imutável em torno de 11% ao ano em termos nominais. Esse
valor não cedeu à evidente melhora do resultado primário que foi citada acima,
tão pouco respondeu a ciclos, ainda que curtos, de afrouxamento da política
monetária. Ademais, nada garante que uma nova rodada de esforço fiscal que leve
a economia de um deficit de 0,4% do PIB para um superavit de 2% do PIB (esforço
fiscal de 2,4% no total) produza qualquer impacto relevante na relação
dívida/PIB se o custo de rolagem da dívida não tem respondido ao fiscal.
Esse fenômeno merece uma investigação
acadêmica de maior profundidade. No entanto, dado que esse custo de rolagem é
um preço fixado a partir de um equilíbrio no mercado de títulos, em que o
governo emite títulos de dívida e o mercado os compra, parece haver uma
cobrança desproporcional dos detentores da dívida pública para demandar esses
papéis. Isso pode estar relacionado com uma crença generalizada nesses
segmentos, porém pouco respaldada em dados, de que a política fiscal em curso é
insustentável.
Se essa hipótese tiver fundamento, solucionar
o problema fiscal passa por uma reversão profunda dessa crença e uma revisão do
estado de expectativas dos agentes, particularmente daqueles que adquirem a
dívida do Tesouro. Em suma, solucionar o problema fiscal passará por um pacto
pela dívida pública que vai exigir do governo um amplo esforço de reconstruir
sua reputação e credibilidade nesse tema, mas também uma maior boa vontade do
mercado que adquire essa dívida.
*Benito Salomão — professor do Instituto de Economia e Relações Internacionais e do Programa de Pós-Graduação em Economia da Universidade Federal de Uberlândia.

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