O Globo
Instituições nunca tiveram credibilidade. A
população brasileira nunca confiou de fato nas autoridades
O escândalo do Banco Master tem sido objeto
de intensos debates na intelectualidade. É foco de reflexões no Direito, na
economia, na sociologia e na ciência política. Todos os dias aparecem novos
fatos que inundam o noticiário. Mas já parou para pensar como, na prática, isso
realmente gera impacto no povo?
Explico.
Muito se fala que as instituições perderam a credibilidade, mas discordo dessa visão. Infelizmente, nunca tiveram. A população nunca confiou de fato nas autoridades. Não à toa, a figura do “rouba, mas faz” é tão difundida e exitosa em nossa história política. O escândalo deixou de gerar comoção e se tornou comum, sem qualquer capacidade de surpreender.
Em 2021, dados coletados pelo Índice de Confiança na Justiça
(ICJBrasil) apontavam que apenas 40% dos brasileiros confiavam no Poder
Judiciário, 29% na Presidência da República, 12% no Congresso Nacional e 6% nos
partidos políticos. Em 2017, os números eram ainda piores: 24% no Poder Judiciário,
6% na Presidência, 7% no Congresso e 7% nos partidos, revelando “queda na
confiança da população em praticamente todas as instituições analisadas, na
comparação com o relatório de 2016. As que sofreram as quedas mais acentuadas
foram o Poder Executivo (45%) e o Congresso Nacional (30%)”.
Sabendo desse histórico, o resultado não
poderia ser outro. Foi confirmado na última semana com a Pesquisa Quaest.
Para 46% dos entrevistados, a descoberta de todos esses esquemas “afetou
negativamente, de forma semelhante, a imagem do governo Lula, do governo
Bolsonaro, do STF,
do Congresso Nacional e do Banco Central”.
A pior conclusão extraída disso é que a
população não tem esperança em alguma opção realmente boa e honesta para as
próximas eleições. No mínimo, é muito triste. O cenário se mostra bastante
preocupante: se todo mundo está envolvido, se ninguém está surpreso, que
alternativa resta? Falamos de compliance empresarial, códigos de ética e outros
mecanismos como saídas extremamente necessárias, mas mal conseguimos respeitar
as regras que já existem, como a Constituição e o Código Penal.
Confesso também ter dificuldade de entender
que caminhos seriam realmente eficientes para lidar com a situação atual. As
ferramentas devem ser outras, partindo de um diagnóstico mais preciso — o
Master é resultado, e não sintoma da doença do Brasil —, avançando para a
disposição de arregaçar as mangas e pôr em prática o que só está no papel.
Desde a Lei Feijó, de 1831, somos a terra do “para inglês ver”, o “país do futuro” que nunca chega; um projeto de poder que tem “dado certo” e que, ao mesmo tempo, precisa ser quebrado. Para tanto, precisamos recuperar a esperança e nos reenergizar. Proponho que vejamos esses fatos como algo que sempre existiu no escuro e é trazido para a luz. Isso representa um avanço. Para combater a doença, toda a sua extensão e profundidade precisam ser vistas, e sugiro que entendamos ser este o momento que vivemos.

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