O Globo
Até onde se sabe, a pauta do encontro
de Lula e Donald Trump,
marcado de última hora para hoje, será tomada pelos assuntos “de sempre”: a
investigação sobre concorrência desleal envolvendo principalmente o Pix, a exploração das
terras-raras e o combate ao crime organizado na América Latina, incluindo o
impasse sobre considerar Comando Vermelho e Primeiro Comando da Capital
organizações terroristas.
Embora não se saiba ainda ao certo por que se decidiu fazer a reunião agora, nem seja possível antecipar os resultados, é fácil concluir que os dois presidentes procurarão tirar dividendos eleitorais da ocasião.
Ambos enfrentarão eleições neste ano — Trump
para Legislativo e governos estaduais, Lula pela reeleição — e precisam dar uma
guaribada na imagem. Trump está enfiado no atoleiro que virou a guerra com
o Irã e
Lula numa crise de governabilidade depois da rejeição de Jorge Messias como
ministro do Supremo Tribunal Federal (STF).
Mas, apesar do otimismo que as assessorias
dos dois fizeram questão de espalhar, incluindo o “vazamento” de um “I love
you” de Trump a Lula ao telefone, uma sombra surgiu nos últimos dias: o
grupo JBS,
dos irmãos Batista.
Joesley
Batista é hoje um dos maiores empresários dos Estados
Unidos e, dos brasileiros, o mais próximo de Trump. Despejou US$
5 milhões na festa da posse e se tornou próximo de figuras do
círculo íntimo do presidente. Foi, ainda, um dos principais artífices da
primeira reunião entre Lula e Trump depois do tarifaço, em outubro passado
na Malásia,
e, segundo reportagens da BBC e da CNN, deu também um empurrãozinho para o
encontro de agora acontecer.
Só que, um dia antes de confirmar
oficialmente a agenda com Lula, o governo Trump anunciou conduzir uma
investigação antitruste contra as quatro maiores produtoras de carne do país,
que concentram 85% do mercado. O chefe do Departamento de Justiça (DOJ),
Todd Blanche, ofereceu recompensas a quem apresentar evidências de crimes
cometidos pelos frigoríficos. E a secretária de Agricultura, Brooke Rollins,
citou expressamente as brasileiras Marfrig e
JBS como ameaça aos Estados Unidos e à segurança alimentar dos americanos:
“Uma empresa de propriedade brasileira detém
cerca de um quarto do mercado e tem histórico documentado de corrupção e
atividades ilícitas. A realidade brutal é que essa propriedade estrangeira de
frigoríficos tem sido associada não apenas a corrupção, mas também a cartéis e,
recentemente, ao trabalho escravo, o que já é ruim por si só, mas também
prejudica os grandes fazendeiros e consumidores”.
A inflação da carne é um enorme problema para
Trump, e a concentração de mercado no setor tem sido alvo de protestos
frequentes dos agricultores — os rednecks, eleitorado tradicional dos
republicanos. Desatar esses nós é questão de sobrevivência política, e o
anúncio da investigação às vésperas da visita de Lula faz a gente se perguntar
se Trump não poderia, num arroubo, aproveitar a reunião para faturar junto ao
público interno, atacando os “vilões brasileiros” do momento.
Os diplomatas de Lula não acreditam nessa
hipótese, e empresários próximos de Joesley relatam que ele tampouco teme que a
investigação vá longe. Aposta, evidentemente, na relação que construiu com
Trump e seu entorno. Entendidos em trumpismo tanto nos Estados Unidos quanto
aqui também avaliam que a ofensiva contra os frigoríficos pode ser muito mais
uma forma de dar satisfação à base indignada do que uma guerra com
consequências reais.
Pode ser, mas, tratando-se de Trump, nada é
garantido, até porque seu governo está compartimentado em grupos que não se
coordenam e muitas vezes se detestam. A investida contra os produtores de carne
brasileiros é obra de Peter
Navarro, o influente idealizador do tarifaço e um nacionalista
ferrenho, obcecado por combater a influência chinesa no mundo.
Além disso, o discurso da secretária de
Agricultura mostra que nem ela e nem o pessoal do DOJ esqueceram que, em 2020,
o grupo dos Batistas fechou um acordo para pagar US$ 128 milhões à Securities
and Exchange Commission, a CVM americana,
e ao DOJ para encerrar processos por corrupção, falhas nos controles e
registros contábeis e práticas anticoncorrenciais.
Foi só depois disso que Joesley e companhia
puderam lançar ações em Wall Street e se tornar uma potência com faturamento de
US$ 28 bilhões, 90 fábricas e 70 mil funcionários só nos Estados Unidos. É um
poderio capaz de fazer qualquer presidente se curvar, tanto lá como cá, mas que
também serviria como um belo pretexto para guerra de narrativas
geopolítico-eleitoral — ainda mais no Trumpverso.

Nenhum comentário:
Postar um comentário