quinta-feira, 7 de maio de 2026

O tempo passou e Lula não viu, por Paulo Celso Pereira*

O Globo

Não existe mais o Congresso com que ele lidou em seus primeiros mandatos, quando a Presidência tinha poder imperial

Lula testou a água por três vezes. Na primeira, emplacou seu advogado pessoal Cristiano Zanin, que liderou com sucesso a campanha para desmonte da Lava-Jato. Depois, veio Flávio Dino, seu ministro da Justiça e por 15 anos um dos maiores expoentes do PCdoB. Na terceira vez, optou por Jorge Messias, um discreto procurador da Fazenda que se tornou conhecido nacionalmente pela confiança que Lula e a ex-presidente Dilma Rousseff depositavam nele, a ponto de torná-lo emissário da carta que garantia a nomeação do líder petista como ministro no auge da Lava-Jato. O Senado, de inclinação oposicionista, não aprovou o terceiro companheiro.

A soberba é a véspera do erro, diz o ditado, e só ela explica o fato de Lula ter ignorado avisos de aliados e as enormes diferenças que separavam essa escolha das anteriores. Messias tem trajetória jurídica menos reluzente que Zanin e Dino, mas semelhante à de Dias Toffoli ao ser indicado à Suprema Corte. Sozinha, não seria impeditivo para sua aprovação, não fossem dois fatos que o presidente menospreza desde o início do terceiro mandato: tanto a sociedade brasileira quanto os três Poderes mudaram radicalmente desde 2010, quando ele desceu a rampa apoiado por 83% dos brasileiros.

Não existe mais o Congresso com que Lula lidou em seus primeiros mandatos, quando a Presidência tinha poder imperial, e os parlamentares faziam fila na porta de um subsecretário para implorar a liberação de tostões para seus redutos. O Congresso se apoderou do orçamento público, sem partilhar responsabilidade na gestão, e os parlamentares hoje têm autonomia para dizer “não” ao Planalto, seja para atender a outros acordos pouco republicanos, seja para representar legitimamente um eleitorado que pendulou à direita.

Quando indicou Zanin e Dino, Lula ainda vivia a trégua tradicionalmente oferecida ao vencedor no primeiro ano de mandato. No comando do Senado, estava o moderado Rodrigo Pacheco. Ao escolher o nome para a vaga aberta por Luís Roberto Barroso, Lula teria de dialogar com o voraz Davi Alcolumbre e garantir o apoio de ao menos parte de uma bancada de senadores que vota fazendo stories para o eleitor que vai às urnas em outubro.

Lula demorou 42 dias para escolher o nome de seu indicado e optou por alguém sem qualquer outro padrinho. Quando o presidente do Senado anunciou que faria uma tramitação célere para a indicação, dando pouco tempo para Messias se articular, Lula manobrou e decidiu adiar o envio da mensagem já anunciada. Alcolumbre estrilou, mas ficou publicamente derrotado naquela batalha. Só não esqueceu.

A lentidão presidencial fez o tema ficar quatro meses em banho-maria, lançando a análise da indicação para o período pré-eleitoral num país dividido, com o caso Master assombrando Brasília e num Senado em que a oposição parte de 30 votos. Bastou Alcolumbre se movimentar sem alarde, até participando risonho de eventos no Planalto, para garantir a primeira rejeição de um nome indicado ao STF em 132 anos.

A visão histórica sobre o que representa a derrota, no entanto, será definida pelo que pode significar para o futuro do país. Nos próximos dias ou semanas, Lula deverá exercer sua prerrogativa de indicar outro nome ao STF. Seja adotando uma estratégia de enfrentamento, seja optando pela conciliação, não terá desculpas para deixar de se engajar intensamente nas negociações, algo que não fez durante a busca de Messias por votos.

Caso perca essa indicação, Lula transformará a eleição de outubro num vale-tudo ainda maior do que já se anuncia. Os eleitores não escolherão “apenas” quem comandará o país pelos próximos quatro anos, mas também se liberdades individuais e políticas públicas estabelecidas há décadas poderão ser revertidas por uma nova maioria construída pelas quatro vagas que serão abertas até o fim de 2030 no Supremo.

A possibilidade de desmonte do Estado brasileiro como conhecemos poderá se tornar a plataforma preferencial de aventureiros. E a sobrevivência deste, a tábua de salvação de quem já não tem grandes novidades a oferecer.

*Paulo Celso Pereira é editor executivo do GLOBO

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