Folha de S. Paulo
Imagem do ex-presidente como mártir de
perseguição política é pilar da herança do pai ao filho
Por outro lado, é mais difícil fiscalizar
eventuais articulações políticas do ex-presidente em casa
A volta de Jair
Bolsonaro para casa, na condição de condenado
a 27 anos por tentativa de golpe, não é exatamente uma boa notícia para o
seu filho Flávio, ungido pelo ex-presidente para disputar a eleição
presidencial deste ano pelo PL.
Ainda que inicialmente por 90 dias, uma espécie de "test drive" acerca das intenções do ex-presidente, ela projeta o enfraquecimento do discurso do senador pelo Rio caso seja estendida.
Desde que a condenação do pai se tornou
incontornável, e com o irmão deputado Eduardo (SP) nos Estados Unidos para
uma operação
fracassada visando salvar Bolsonaro da cadeia com uma campanha contra
o Brasil do governo de Donald Trump, Flávio tomou o controle retórico do clã
—atropelando a ambição da ex-primeira-dama Michelle.
Parte importante da montagem de sua
pré-candidatura ungida por um bilhete vindo do cárcere foi retomar a ideia de
Bolsonaro como uma espécie de mártir da própria causa e Flávio, o carregador do
seu estandarte.
Não era nada novo: desde a facada de setembro
de 2018, que solidificou sua campanha rumo ao Planalto, Bolsonaro é tratado
como o proverbial messias por seus seguidores. Sempre que possível, a cada
internação emergiam
fotografias de gosto duvidoso do político e suas agruras médicas.
Nada muito diferente na essência de seu ídolo
Trump em 2024, quando além de condenado, levou um tiro de raspão na orelha em
um comício de sua caminhada vitoriosa de volta à Casa Branca.
A facada, por evidente, foi muito mais séria,
e ao fim o motivo do agravamento de quadro que levou Bolsonaro para casa. De
quebra, a decisão de Alexandre
de Moraes reduz um pouco a pressão a que o ministro, já
muito enrolado no caso do Banco Master, é submetido.
Foi Flávio que convocou a "vigília de
orações" com ares de cobertura para uma tentativa de fuga no dia em que
Bolsonaro protagonizou
a surreal tentativa de rompimento de sua tornozeleira eletrônica. Era
ele em frente à Polícia Federal quando o pai foi preso.
Com o relativo alívio das condições de
detenção do ex-presidente, o discurso se enfraquece. Moraes, afinal, não poderá
ser arrolado na campanha como um carrasco dedicado a torturar Bolsonaro
diuturnamente com o mesmo afinco de antes.
Além disso, há sempre o risco de uma
tornozeleira 2.0, algo insondável quando se trata de um personagem tão
mercurial quanto Bolsonaro. Por mais fiéis que sejam os bolsonaristas, uma
repetição do episódio ou quiçá uma tentativa mais
sóbria de fuga poderiam ter impacto no apoio.
Por outro lado, e sempre o há, a fiscalização
sobre eventuais articulações políticas a serem feitas de dentro de casa pelo
ex-presidente é bem mais difícil do que na Papudinha. Além disso, a etapa
doméstica pode animar o discurso público dos que dizem acreditar numa anistia
mais ampla.
Mais importante, por ora foi Flávio quem
assumiu o papel político do pai. Quando o senador sai do nada para 12%
de menções espontâneas no Datafolha em três meses flanando sem
obstrução como pré-candidato, isso indica transferência maciça.
Ela não pode ser atribuída apenas ao martírio
que os bolsonaristas veem em seu líder. Há o fator do antipetismo
e do antilulismo, no momento as forças de atração mais fortes do país
ao lado da ojeriza a Bolsonaro. Não por acaso, o presidente e o senador empatam
com rejeições enormes na casa de 45%.
Com tudo isso, se o pilar da vitimização da
mística bolsonarista se enfraquece, seu impacto eleitoral pode ser compensado
pela consolidação da coluna do não ao Lula.

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