segunda-feira, 6 de abril de 2026

Incapacidade de surpreender, por Diogo Schelp

O Estado de S. Paulo

Lula 3 falha em popularidade porque perdeu a chance de surpreender

Em outros tempos, o plano de reeleição de Lula não deveria parecer tão incerto. Seu terceiro mandato desfruta de estabilidade política, sem as tensões produzidas pelo Poder Executivo contra o Judiciário, o Legislativo e os governadores estaduais durante o governo de Jair Bolsonaro, e cumpriu a promessa de manter a ordem democrática no País, apesar das fragilidades que persistem. Os indicadores econômicos não são dos piores – riscos fiscais à parte. O PIB faz o seu tradicional voo de galinha, o índice de inflação em 2025 foi o mais baixo desde 2019 e a taxa de desemprego está na mínima da série histórica (a informalidade, porém, continua alta). Deveria ser o suficiente para obter a continuidade no poder.

O que se tem verificado, contudo, é uma avaliação negativa do governo Lula que supera a positiva e uma leve tendência de queda nas pesquisas de intenção de voto. Existem explicações de todos os gostos para esse fenômeno. Há, por exemplo, abismos entre renda média e percepção de renda individual que não são captados pelos indicadores oficiais. Além disso, a segurança pública e a corrupção se consolidam como principais preocupações dos brasileiros, mas o governo do PT não conseguiu apresentar legitimidade e apetite para enfrentá-las. Por fim, programas assistencialistas agora são considerados fatos da vida. A parcela da população que precisa deles assume que o governante não faz mais do que a obrigação em mantê-los e ampliá-los.

Essas e outras razões para a falta de entusiasmo com Lula podem ser resumidas no maior fracasso do seu terceiro mandato: a incapacidade de surpreender. Lula não foi eleito em 2022 com grandes expectativas por parte dos eleitores. Menos da metade achava que ele faria um governo bom ou ótimo, segundo pesquisa Datafolha feita após a sua posse. Seu maior mérito como candidato era ser um anti-Bolsonaro. Não havia ideias nem promessas novas. Os primeiros atos de Lula consistiram no relançamento de programas já existentes ou descontinuados pelo governo anterior.

Lula se propôs a restaurar uma linha do tempo interrompida pelas gestões de Michel Temer e Bolsonaro – ignorando que, por muitos outros motivos, nem todos relacionados à política, o Brasil mudou. O petista passou os últimos três anos desperdiçando a chance de mostrar que tem uma visão de futuro conectada aos anseios e medos atuais. Sem isso, só lhe restará recorrer, mais uma vez, ao espantalho do bolsonarismo para vencer as eleições.

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