EUA completarão 250 anos com democracia em crise
Por O Globo
Estudos comparativos demonstram que, sob
Trump, liberdades e direitos civis estão em recuo flagrante
No fim do século XVIII, as nações bem-sucedidas no mundo eram basicamente monarquias. O experimento democrático inaugurado nos Estados Unidos com a independência em 1776 e a Constituição em 1789 foi, sob qualquer aspecto, revolucionário. De lá para cá, a ideia de uma república democrática se espalhou pelo mundo. É irônico, diante disso, que os americanos estejam prestes a comemorar os 250 anos de sua independência justamente numa época em que a democracia sofre forte erosão. Os efeitos negativos do primeiro ano do segundo governo de Donald Trump têm sido constatados nas principais avaliações objetivas de democracia e liberdade publicadas nos últimos dias.
Para a Freedom House, com sede em Washington,
Estados Unidos, Bulgária e Itália registraram os maiores declínios no ano de
2025 entre os países classificados como livres. Para o V-Dem, da Universidade
de Gotemburgo, o segundo governo Trump é marcado por rápida e agressiva
concentração de poderes na Presidência. “A velocidade com que a democracia
americana tem sido desmantelada não tem precedentes na História moderna”,
afirma o relatório publicado em março, cuja capa estampa uma bandeira americana
com a sigla SOS.
A análise da Freedom House descreve a
escalada da disfunção legislativa e do domínio do Executivo. A situação é pior
com o Congresso dominado por parlamentares republicanos temerosos de perder
apoio de Trump. “A crescente pressão sobre a capacidade da população de exercer
a liberdade de expressão e as ações do novo governo para enfraquecer as
salvaguardas anticorrupção contribuíram para a mudança negativa”, afirma a
Freedom House em sua análise de 195 países. Trump acabou por acelerar a
tendência já em curso mesmo antes de sua volta ao poder. Desde 2005, os Estados
Unidos perderam 12 pontos numa escala de 100, mais que qualquer outro país
classificado como livre no mesmo período, exceto Nauru e Bulgária.
No ranking do V-Dem, os Estados Unidos caíram
do 20º para o 51º lugar entre 179 nações. A leitura do primeiro ano do governo
Trump guarda pontos em comum com a feita pela Freedom House. Para o V-Dem, a
perda de vigor da democracia tem sido pontuada por excessos do Executivo,
ataques à imprensa, às universidades e a quem pensa diferente do governo. Ao
descrever a erosão democrática, o relatório afirma: “Talvez o exemplo mais
ilustrativo seja a própria declaração do presidente de que o único limite a seu
poder é ‘sua própria moral’ e de que apenas os tribunais — e não o Congresso —
têm poder para restringir sua agenda doméstica ‘em certas circunstâncias’
O nível democrático nos Estados Unidos hoje,
diz o V-Dem, equivale ao de 1965, ano marcado pela lei que proibiu a
discriminação racial nas eleições, assinada pelo presidente Lyndon Johnson na
presença de Martin Luther King Jr. Mas isso não significa que os Estados Unidos
tenham voltado àquela era. “As falhas que afetavam a democracia americana
durante a era do Movimento por Direitos Civis diziam respeito principalmente a
dispositivos legais sobre o direito ao voto e outros direitos políticos ou
civis. As graves deficiências criadas na administração Trump são profundamente
diferentes”, afirma o relatório. No ano que marca um quarto de milênio desde a
independência, a situação é dramática para um país que já foi sinônimo de
democracia.
ECA Digital não exime plataformas de
vigilância para proteção infantil
Por O Globo
Mesmo em áreas tidas como seguras, circulam
conteúdos nocivos a crianças e adolescentes, constatou estudo
Tem falhado a proteção a adolescentes e
crianças em plataformas de transmissão ao vivo, mesmo em espaços indicados para
essa faixa etária, como constatou monitoramento do pesquisador Humberto Torres
Marques-Neto, da PUC-Minas, sob orientação de Jussara Almeida, do Departamento
de Ciência da Computação da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG).
Por cerca de um mês, a pesquisa acompanhou
conteúdos nessas plataformas por meio de seis robôs simulando usuários de 13,
15 e 18 anos do Brasil e dos Estados Unidos que assistiam às transmissões. Eles
acessaram a plataforma seis vezes por dia, em horários variados. Ao simular o
acesso, o estudo pôde analisar 4.260 transmissões, 2.040 canais e
aproximadamente 443 mil mensagens de chats. A pesquisa constatou, mesmo em
espaços com rótulos como “indicado para família” ou “seguro para criança”, a
exibição de jogos para adultos, com violência, linguagem forte e temas sexuais.
De acordo com o estudo, crianças e
adolescentes mantêm contato com conversas agressivas, insultos, discursos de
ódio, racismo e homofobia. Há ainda circulação de conteúdos com incentivo a
doações a patrocinadores, uma mistura de entretenimento e consumo desaconselhada
para menores de idade. A pesquisa concluiu que 5% do material investigado
continha conteúdo tóxico para crianças e adolescentes. Não é pouco, levando em
conta que se trata de milhares de transmissões por hora.
A pesquisa coincide com a entrada em vigor do
ECA Digital, legislação para proteger crianças e adolescentes no acesso às
redes. A nova lei estabeleceu limites e obrigações das plataformas, como a
vinculação da conta de menores de idade à dos pais ou responsáveis legais e
ferramentas para controlar o cardápio de conteúdos acessados pelos filhos. Um
ponto nevrálgico é a identificação, que deixa de ser meramente declaratória e
passa a usar métodos mais eficazes, entre eles o reconhecimento facial. Mesmo
com o ECA Digital, porém, persistem brechas para a infiltração de conteúdos
nocivos. “Há muito ainda a fazer para que a lei seja realmente eficaz”, afirma
Jussara.
A aferição de idade prevista no ECA é necessária, mas não suficiente para tornar os ambientes seguros. “As plataformas têm ciência de que recebem crianças. Alegam que têm práticas de proteção, mas isso não ocorre em alguns momentos”, diz Marques-Neto. De 1º de janeiro a 31 de julho de 2025, o canal de denúncias mantido pela ONG SaferNet recebeu 49.336 denúncias anônimas de abuso e exploração sexual infantil, 64% do total de notificações. A situação deverá melhorar com o ECA Digital, mas nenhuma lei terá o condão de resolver o problema sem a determinação ativa das plataformas para monitorar com mais eficácia os espaços on-line frequentados por crianças e adolescentes.
Lula se arrisca a agravar endividamento das
famílias
Por Folha de S. Paulo
Governo federal estuda novo programa de
renegociação com recursos públicos em ano eleitoral
A causa está na estratosférica taxa de juros,
oriunda da expansão fiscal petista, que obrigou o BC a aprofundar a política
contracionista
O governo Luiz Inácio Lula da
Silva (PT) faz saber que estuda nova tentativa de aliviar o endividamento das
famílias brasileiras. Identificado como um motivo de impopularidade do
mandatário, em contraste com o bom desempenho do mercado de trabalho, o tema
ganha urgência em ano eleitoral.
Dados do Banco Central apontam
que a dívida das famílias atingiu 49,7% da renda anual acumulada em janeiro
—patamar próximo do recorde histórico de 49,9% de julho de 2022— e subiu 1,1
ponto percentual em 12 meses.
Já o comprometimento da renda com o pagamento
de juros e
amortizações alcançou
29,3%, pico da série iniciada em 2011 e alta de 1,6 ponto no
mesmo período.
Em termos de fluxo de recursos, as famílias
pagaram liquidamente aos bancos o equivalente a 1,5% do Produto Interno Bruto (PIB) nos 12
meses encerrados em janeiro, ante não mais que 0,2% um ano antes. Mesmo com a
alta desses desembolsos, o estoque do passivo não para de crescer.
Diante do quadro dramático, noticia-se que a
pasta da Fazenda estuda um programa de descontos para famílias com renda de até
três salários mínimos (R$ 4.863 mensais), após a frustração com a iniciativa
anterior, batizada de
Desenrola.
Os objetivos seriam renegociar dívidas caras
(cartão de crédito, cheque especial, crédito pessoal sem garantia), oferecer
abatimentos de até 80% e refinanciar o restante com eventual garantia da
União, por meio da
criação de um fundo ou do uso de parte dos R$ 10,5 bilhões em
valores não procurados no BC. O modelo aventado traz riscos evidentes para as
contas públicas, com provável impacto nas regras fiscais.
A experiência recente recomenda cautela. O
Desenrola, promessa de campanha de Lula em 2022, renegociou cerca de R$ 50
bilhões em dívidas. O resultado ficou muito abaixo do esperado e não resolveu o
problema.
Nem poderia, já que a raiz do mal é outra e
conhecida —a estratosférica taxa básica de juros, hoje em 14,75%, base de toda
a estrutura de preço do crédito no país. O patamar anômalo decorre da política
de expansão desenfreada de gastos do governo e de estímulo ao crédito
favorecido.
O expansionismo petista de sempre alimentou a
demanda acima da capacidade da oferta da economia,
manteve em alta as pressões inflacionárias e obrigou o BC a aprofundar a
política monetária contracionista.
É verdade que há espaço para avanços
regulatórios e maior concorrência no sistema financeiro, mas nada disso será
suficiente sem redução duradoura do custo do capital no país.
Lula colhe os frutos de sua própria gestão
perdulária e inconsistente, iniciada mesmo antes da posse, com a emenda
constitucional que elevou as despesas do Tesouro em R$ 150 bilhões anuais de
modo permanente.
Ações precipitadas agora, na busca de mais
expansão de crédito com novos subsídios, podem ter o efeito contrário ao
desejado.
A tola investida americana contra o Pix
Por Folha de S. Paulo
Documentos do governo dos EUA apontam
preocupação com sistema de pagamentos brasileiro, sem dados sólidos
Lula aproveitou chance de se apresentar como
defensor do interesse nacional; em breve, Trump deve recomeçar sua guerra
comercial
O governo dos Estados Unidos mencionou
expressamente o brasileiro Pix em um
relatório anual recém-divulgado que compila barreiras ao comércio exterior
americano.
O sistema de pagamento é também objeto
de investigação do Representante Comercial dos EUA (USTR, na
sigla em inglês) sobre leis, políticas e práticas que o país julga prejudiciais
a seus interesses econômicos, inquérito que começou em julho de 2025.
A julgar pelo que escreve, o USTR parece não
compreender o que seja o Pix, mas registra a queixa de lobistas e empresas
interessadas no assunto.
Como já ocorrera no tarifaço aplicado
por Donald Trump sobre
produtos brasileiros, a investida americana deu discurso de campanha para um
desgastado Luiz Inácio Lula da
Silva (PT).
"Os EUA fizeram um relatório nesta
semana sobre o Pix, e eles dizem que o Pix distorce o comércio
internacional", discursou o petista. "É importante a gente dizer para
quem quiser nos ouvir: o Pix é do
Brasil e ninguém, ninguém, vai fazer a gente mudar o Pix pelo
serviço que ele está prestando à sociedade brasileira."
Lula aproveitou nova oportunidade de se
apresentar como defensor do interesse nacional, tomando para si uma bandeira do
rival Jair
Bolsonaro (PL), em cujo governo o Pix
foi introduzido.
Nos relatórios oficiais, não se veem até o
momento ameaças claras. Os temas principais da investigação americana são
comércio digital e serviço de pagamento eletrônico; tarifas de importação ditas
injustas, policiamento de corrupção, proteção de propriedade intelectual,
mercado de etanol e desmatamento ilegal.
No relatório inicial do inquérito, poucas
linhas são dedicadas às "vantagens para o serviço de pagamento eletrônico
desenvolvido pelo governo", mas há ênfase e explicação especiais sobre
mídias sociais e dados.
O relatório do USTR deste ano tem 516
páginas, das quais 8 são reservadas ao Brasil. Destas, uma parcela minúscula
relata "preocupações" de interessados americanos quanto ao Pix,
"plataforma de pagamento instantâneo" que o Banco Central "criou,
possui, opera e regula".
A mera menção, embora desinformada, não deixa
de ser preocupante. Mas o livro de reclamações comerciais inteiro deve merecer
atenção, inclusive quanto a problemas inegáveis.
Em breve, Trump deve recomeçar sua guerra comercial, ao menos para mitigar a derrota que sofreu na Suprema Corte no que diz respeito ao tarifaço. Os brasileiros precisam ser informados desses riscos, sem demagogia.
A farsa do PT ‘antissistema’
Por O Estado de S. Paulo
Esforço do partido para posar de alternativa
ao ‘sistema’ chega a ser um deboche, já que os petistas governaram o País por
quase 20 anos e moldaram as estruturas que hoje criticam
O presidente do PT, Edinho Silva, publicou um
vídeo numa rede social no qual defende que o partido deve “enfrentar a
polarização” dialogando, ora vejam, “com quem está do outro lado”. O discurso,
que em outra boca poderia soar como um raro sopro de sensatez em meio à
crispação do ambiente político brasileiro, mal esconde o cinismo de quem o
profere. Mais ainda quando, no mesmo fôlego, o dirigente petista sustentou que
o PT seria o verdadeiro partido “antissistema”, rótulo que, obviamente, tenta
colar à candidatura de Luiz Inácio Lula da Silva à reeleição.
É difícil saber por onde começar a desmontar
essa mistificação. Talvez pelo que é mais evidente: o PT exerceu o poder
central por 18 dos últimos 24 anos. Não é nem jamais pode ser associado a
qualquer coisa que soe “antissistema”. O PT não apenas governou o País por
longos períodos desde a redemocratização, como moldou práticas políticas,
apresentou ou sancionou leis que construíram o “sistema” tal como isso se
apresenta hoje, povoou órgãos públicos e influenciou decisivamente o
funcionamento das instituições. Se há algo que não cabe em qualquer petista, a
começar pelo mais poderoso e proeminente deles, é essa fantasia de outsider.
A tentativa de Edinho Silva de promover uma
espécie de rebranding do
PT seria risível, não fosse tão ofensiva à memória coletiva da Nação. Este
jornal não nega a legitimidade de um partido político que venceu eleições
limpas e que assumiu e deixou o poder, alternadamente, de acordo com as regras
do jogo democrático. Mas não podemos aceitar calados essa deliberada distorção
da realidade factual. Esse “sistema” que ora tanto se critica – com seus
vícios, distorções e afastamento do interesse público – foi, em grande medida,
construído sob governos petistas.
O segundo ponto é ainda mais desconcertante.
O apelo ao diálogo feito por Edinho Silva contrasta frontalmente com o
comportamento de seus próprios correligionários petistas. Foi sob a liderança
de Lula, é sempre bom lembrar, que se consolidou no Brasil a divisão simplista
da sociedade entre “nós” e “eles” como método de atuação política. Após o
escândalo do “mensalão”, que desconstruiu o mito do PT como o partido da “ética
na política”, o recurso à polarização – vale dizer, a negação da voz de
adversários políticos – passou a ser um instrumento de mobilização e ação
política desde o Palácio do Planalto.
Essa lógica atravessou governos e campanhas.
Nem Dilma Rousseff nem Lula, enquanto presidentes da República,
notabilizaram-se por esforços consistentes de pacificação nacional. Ao
contrário: a retórica de confronto permanente com críticos e adversários do PT
é que foi estimulada. Nem membros históricos do partido escaparam da virulência
petista – Marina Silva que o diga. A radicalização posterior, insuflada por
Jair Bolsonaro, não tem o condão de apagar esse passado.
Hoje, um petista de quatro costados, como o
sr. Edinho Silva, chamar ao diálogo depois de anos de incentivo ao dissenso
entre os cidadãos soa menos como autocrítica e mais como cálculo eleitoral. Não
se está diante de um reconhecimento sincero da parcela de responsabilidade que
cabe ao PT por essa polarização estéril que paralisa o Brasil, mas de uma
tentativa de explorar o genuíno mal-estar de um eleitorado cansado de conflitos
e descrente de que as instituições republicanas – o tal “sistema” – trabalham
em seu benefício, e não em prol dos interesses corporativos das castas que as
ocupam.
Ademais, flertar com o ideário
“antissistema”, sobretudo em se tratando de um partido estruturado e
representativo como o PT, tem consequências nefastas que vão muito além da
disputa eleitoral. Ao sugerir que a concertação entre a miríade de interesses
da sociedade pode ser feita fora do “sistema” – vale dizer, fora da política e
das instituições republicanas –, abre-se perigoso espaço para a negação da
ordem democrática. A história recente, não só do Brasil, mostra que esse tipo
de discurso, quando levado às últimas consequências, não dá em coisa boa.
O País precisa de diálogo. Mas precisa também
de reformas que aproximem o Estado da sociedade. Quando um partido central para
a política nacional, como o PT, tenta se vender como a antítese do sistema que
ajudou a moldar, não só ofende a inteligência do eleitor, como agrava a
desordem que marca o debate público.
Educação entre o fascínio e o medo da IA
Por O Estado de S. Paulo
IA já está no cotidiano dos alunos no Brasil.
Ignorá-la ou tratá-la como solução mágica são erros similares. O desafio da
escola é ensinar a usá-la com senso crítico e autonomia intelectual
Em entrevista ao Estadão, a empreendedora Iona
Szkurnik, uma das curadoras do São Paulo Innovation Week – evento que o jornal
realizará em maio, com foco em tecnologia, inovação e negócios –, apontou um
equívoco recorrente no debate sobre inteligência artificial (IA) na educação. O
erro mais comum no uso da IA, disse ela, é enxergá-la apenas como um robô que
fará as coisas pelos estudantes, e não como complemento de quem a utiliza. E
admitiu: “Claro que tenho medo, como todo mundo, do que vai acontecer. Só que,
em vez de ficar congelada ou em pânico, a gente tem de saber como se preparar
para usar essas inteligências que já estão aí e não vão parar”.
Este é um dos principais problemas
relacionados ao mau uso da IA: quando a tecnologia passa a ocupar o lugar do
raciocínio do estudante, substituindo o processo de elaboração intelectual que
constitui o próprio sentido da aprendizagem. Ao deixar que a máquina tome o
lugar da reflexão e da construção de ideias, a escola deixa de formar
pensamento e passa apenas a administrar expedientes. Por outro lado, quanto
mais o estudante exercitar pensamento crítico, criatividade e clareza de
objetivos, mais a IA “vai catapultá-lo para onde quer chegar”, nas palavras da
curadora.
A observação ilumina um dilema das escolas:
como lidar com uma tecnologia já disseminada entre os alunos, mas ainda pouco
compreendida pelo sistema educacional. A IA já ingressou no cotidiano dos
estudantes. Pesquisa do Comitê Gestor da Internet no Brasil revelou que sete em
cada dez alunos do ensino médio utilizam ferramentas de IA para pesquisas ou
trabalhos escolares, mas apenas uns poucos dizem ter recebido orientação sobre
como usar esses recursos. Ou seja, a tecnologia avança entre os alunos,
enquanto a escola permanece, em grande medida, despreparada para mediá-la.
O debate público, assim, oscila entre dois
impulsos igualmente improdutivos. Um é o entusiasmo acrítico. Multiplicam-se
discursos que tratam a inteligência artificial como solução quase automática
para problemas históricos da educação brasileira, como se bastasse introduzir
novas ferramentas digitais para resolver déficits de aprendizagem que se
arrastam há décadas. Convém cautela. O sistema educacional já viveu outros
momentos de fascínio com equipamentos e plataformas apresentados como atalhos
para a modernização. Em geral, a tecnologia chegou antes da reflexão
pedagógica, e os resultados ficaram muito aquém do prometido.
O outro extremo é a reação defensiva, que
tenta enfrentar a novidade pela via da proibição. É também uma resposta
ilusória. A IA já faz parte do ambiente informacional em que crianças e jovens
vivem diariamente. Está nos celulares, nos aplicativos de estudo e nas
plataformas digitais que estruturam a circulação contemporânea do conhecimento.
Pretender excluí-la não impedirá seu uso, apenas deslocará esse uso para fora
do alcance de professores. Quanto mais a escola tentar ignorar a inteligência
artificial, mais ela será usada sem critérios pelos estudantes.
O desafio, portanto, não é decidir se a
tecnologia entrará ou não na educação – ela já entrou. A questão é em que
condições ela será incorporada ao processo de aprendizagem. Se servir apenas
para produzir respostas prontas, tenderá a empobrecer o trabalho intelectual
dos alunos. Se usada como apoio à investigação, à organização de informações e
à comparação de argumentos, poderá ampliar as possibilidades pedagógicas. Para
que isso aconteça, porém, a escola precisa se preparar. Isso implica formar
professores para lidar com as ferramentas, revisar práticas de avaliação e
reforçar a missão fundamental da educação. Num ambiente em que respostas
estarão sempre disponíveis a poucos cliques – e nem sempre confiáveis,
sublinhe-se –, torna-se ainda mais importante ensinar os alunos a formular
perguntas, interpretar informações e sustentar argumentos.
É o momento de o País evitar tanto o
entusiasmo ingênuo quanto a recusa estéril. A tecnologia avançará
independentemente das hesitações do sistema educacional. A verdadeira escolha é
outra: aprender a utilizá-la de modo crítico ou permitir que se espalhe entre
estudantes sem orientação. A escola brasileira ainda pode escolher o primeiro
caminho e, assim, provar se o País é capaz de compreender as transformações do
seu tempo.
Ar poluído até no interior
Por O Estado de S. Paulo
Estudo da USP mostra que ar pode ser mais
tóxico em Piracicaba do que na capital do Estado
Uma pesquisa do Instituto de Química da
Universidade de São Paulo (IQ-USP) revelou que o ar do interior paulista pode
ser pior que o da capital. Isso porque, segundo o estudo conduzido pela química
Aleinnys Yera, pesticidas associados ao risco de câncer foram detectados na
zona agrícola de Piracicaba em concentração superior à registrada na cidade de
São Paulo e no polo petroquímico de Capuava, entre Mauá e Santo André. E chama
a atenção o fato de as substâncias prejudiciais à saúde terem sido encontradas
tanto na zona rural como nas áreas urbana e industrial.
O trabalho identificou em Piracicaba um nível
mais alto de atrazina, um composto usado para controle de pragas nas culturas
de cana-de-açúcar. Na área urbana da capital e na industrial de Capuava, o
estudo mapeou o malationa e permetrina, que são usados no combate a mosquitos
transmissores de doenças, como a dengue. E nos três pontos de medição houve
registro de alta exposição diária ao heptacloro, que, embora seja proibido há
anos no Brasil, ainda está presente no ar.
Um dos principais achados da pesquisa é o
potencial impacto dos pesticidas para além da região onde são usados. O estudo
afirma que, considerando o peso da atividade agrícola e o uso intensivo de
agrotóxicos no País, é “provável” que haja a presença generalizada de
pesticidas no ar. O cultivo da cana-de-açúcar, por exemplo, é o que mais recebe
pulverização aérea no Estado, que, aliás, é o maior produtor de cana do Brasil.
Trata-se, portanto, de uma evidência de que, transportados pelo ar, esses
produtos alcançam áreas muito afastadas de onde foram aplicados.
Não menos importante, outro achado
preocupante é o fato de a mistura dos diferentes pesticidas potencializar ainda
mais a toxicidade no ar. Professora do IQ-USP e responsável por estimular Yera
a pesquisar os níveis de pesticidas, Pérola Vasconcellos afirmou ao Estadão que “a pesquisa
comprova que estamos respirando pesticidas, e que isso faz mal à saúde”. Não à
toa, os pesticidas presentes nos pontos de medição causaram estresse e morte de
células pulmonares, o que atesta o efeito perverso da poluição e o risco de
desenvolvimento de doenças.
Para minimizar tudo isso, o governo paulista
disse que capacita produtores rurais para que façam o manejo racional dos
defensivos agrícolas e afirmou que fiscaliza o uso dos pesticidas e pune os
infratores. Parece insuficiente. Do contrário, os resultados da pesquisa do
IQ-USP não seriam tão ruins.
O Estado de São Paulo é uma potência agrícola, o interior paulista é pujante e o agronegócio impulsiona a economia, mas nada pode colocar em risco a saúde da população. São necessárias práticas ainda mais sustentáveis. Os aviões poderiam ser substituídos por drones, por exemplo, para que a aplicação dos defensivos seja circunscrita a uma determinada área, sem risco de dispersão. São Paulo tem tecnologia, técnicas e recursos financeiros para melhorar esse quadro. E o governo tem o dever de, com suas agências, intensificar o monitoramento e elevar a qualidade do ar.
Crise do petróleo já pressiona os índices de
inflação
Por Valor Econômico
A combinação de expansão econômica
pós-pandemia com programas sociais mostrou ser, como já se sabia, uma fórmula
poderosa para melhorar as condições sociais
A crise do petróleo apareceu com força na
zona do euro, onde a prévia do índice de preços de março jogou a inflação a
2,5%, para fora da meta do Banco Central Europeu (BCE). Nos Estados Unidos, o
maior produtor de óleo do mundo, o galão de gasolina (3,87 litros) ultrapassou
US$ 4 e o de diesel, US$ 5. Países da Ásia, em especial Japão e Índia, estão
agindo para impedir maiores desvalorizações de suas moedas. Em um vislumbre do
que serão as projeções do Fundo Monetário Internacional (FMI) para a economia
mundial após o choque causado pela guerra de EUA e Israel contra o Irã, os
principais economistas da instituição apontaram que “todos os caminhos levam a
preços mais altos e menor crescimento”.
Março foi o mais cruel dos meses para as
cotações do petróleo, que subiram 60%. No primeiro mês da guerra, analistas
calculam que deixaram de fluir diariamente 10 milhões de barris, enquanto os
bombardeios de infraestrutura dos países da região retiraram do mercado, por um
bom tempo, algo entre 2 milhões e 2,5 milhões de barris/dia. As cotações dançam
ao sabor das declarações contraditórias do presidente Donald Trump, mas se
mantêm, apesar de tudo, acima de US$ 100 o barril. Fertilizantes, enxofre,
alumínio, hélio e outros produtos que necessitam de passagem pelo Estreito de
Ormuz estão subindo de preço, com o risco mais grave de escassez desses
produtos.
Um choque do petróleo da magnitude do atual
tem vários efeitos. O mais evidente é a alta dos preços, tão mais aguda quanto
mais tempo durar o conflito com o Irã. O impacto da inflação sobre o consumo é
forte e a economia reduz seu crescimento ou entra em recessão. A presença de
ambos modifica os preços dos ativos financeiros e commodities, não
necessariamente de forma ordenada e rotineira. O otimismo nas bolsas e na
economia americana, por exemplo, se baseava em grande parte nos investimentos
em inteligência artificial, que pressupõe energia abundante a preços razoáveis,
duas condições que deixaram de existir. Lucros cadentes das empresas retiram
atratividade das bolsas, que, nos EUA, atrai recursos de 50% das famílias.
Os efeitos financeiros são variados. Países
mais dependentes do petróleo podem sofrer desvalorização da moeda em relação ao
dólar, emitido pelo maior produtor da commodity no mundo. É o que começou a
ocorrer no Japão, onde uma intervenção para conter a perda de valor do iene
pode ocorrer logo. Na Índia, para defender a rúpia, o governo limitou a US$ 100
milhões a posição dos investidores no mercado de derivativos de moedas para
frear a especulação contra a moeda, ao passo que intensificou a venda de
dólares.
A pressão simultânea de inflação em alta e
economia em baixa (estagflação) é um enorme problema para os bancos centrais,
em geral acostumados a considerar esses movimentos como excludentes (uma
economia em retração em geral é menos propícia a apresentar surtos
inflacionários). Agora, se a guerra continuar por mais algum tempo, terão de
escolher a arma dos juros contra a inflação, sem provocar com isso a recessão.
Os principais BCs do mundo enfrentam hoje esse dilema, em condições diferentes.
O BCE tinha a inflação abaixo da meta até
fevereiro (1,9%). Não mais. O BCE explicitou sua reação futura ao choque de
preços. O núcleo de inflação caiu de 2,4% para 2,3% em março, o que não indica
ainda transmissão generalizada da alta para os demais setores da economia. Se
essa alta ocorrer e for moderada, um aumento suave dos juros pode ser
justificado. No caso de ameaça de forte e persistente transmissão, não hesitará
em elevar os juros. A contraindicação é o pesado endividamento dos governos da
zona do euro, cujos bônus soberanos estão subindo.
O Federal Reserve prefere dizer que, com os
juros perto do nível neutro, pode esperar para observar o que ocorrerá com os
preços na economia, segundo Jerome Powell, presidente da instituição. Os investidores
não esperam novos cortes de juros no ano nos Estados Unidos, mas Powell poderá
ser substituído no mês que vem por Kevin Warsh, indicado por Trump, que tende a
reduzir os juros em um momento em que a inflação estará em ascensão. As
expectativas de médio e longo prazos da inflação estão ancoradas e esse
comportamento é relevante para que o Fed não precise de ações contundentes para
enfrentar a alta dos preços, dentro de certos limites.
O Banco Central do Brasil ainda avalia o efeito do choque de preços do petróleo na economia e decidiu dar início a um ciclo de corte de juros que não deverá ser intenso ou mesmo contínuo nos próximos meses, sem descartar uma elevação da taxa Selic, como ficou claro no Relatório de Política Monetária de março. Colabora para diminuir as dificuldades do BCB a continuidade da entrada de recursos externos para portfólio e a consequente estabilização do dólar. Se o IPCA se afastar muito da meta, não haverá como reduzir muito os juros. O limite é evidente: a conta de juros em 12 meses é de pouco mais de R$ 1 trilhão, porque o governo se recusa a conter gastos e obter superávits primários, e seria importante diminuí-la o mais rapidamente possível.
Medicina de precisão no futuro da saúde
Por Correio Braziliense
O equilíbrio entre a medicina tecnológica e a
explicação humanizada é uma necessidade funcional
A medicina da era da inteligência artificial
(IA) vive um momento sem precedentes. Cirurgias robóticas com precisão
milimétrica, diagnósticos emitidos pela internet em alguns segundos e
possibilidades sem número transformaram o que antes era enredo de filmes de
ficção científica em rotina para as pessoas e os profissionais de saúde. No
entanto, junto de tantos avanços positivos na área vêm questionamentos
importantes. Um dos mais preocupantes diz respeito à eficiência do que é
apresentado na tela para o leigo que procura um tratamento. Outro, não menos
relevante, levanta a dúvida sobre a relação entre médico e paciente.
Hoje, quem procura o serviço de saúde — seja
em consultas, seja em atendimento de emergência — não é mais um agente passivo
no processo, como antes acontecia. Agora, com o ilimitado acesso ao ecossistema
digital, qualquer um consegue informações sobre sintomas e medicamentos, que
aparecem traduzidos e até mesmo "analisados" pela IA. Porém, é
preciso considerar que esse "saber" automatizado exige vigilância
constante.
Um chatbot pode gerar respostas que pareçam
tecnicamente corretas e confiáveis, mas que estejam baseadas em fatos
inexistentes. Diante disso, há, por exemplo, o risco da interpretação de um
exame que mascare uma urgência real ou que aponte uma patologia inexistente. Os
algoritmos, treinados a partir de dados, refletem o que está disponível nesse
universo, sem considerar o contexto clínico e a avaliação física.
Em termos da jornada do paciente, a
tecnologia mudou a dinâmica dos consultórios e fragilizou o vínculo humano. A
desumanização da atenção, com a consequente perda do senso de acolhimento, pode
afetar a adesão a longos procedimentos. Uma relação terapêutica distante, e que
passa a ser ocupada por software, pode reduzir o nível de confiança de quem
está em tratamento.
Sem dúvida, a medicina de precisão é uma
conquista histórica, que deve receber cada vez mais investimento e atenção para
se desenvolver e ser aplicada de forma ampla. Entretanto, é necessário ainda
discutir os limites da automatização, dos sistemas de suporte, dos dispositivos
como smartwatches e dos aplicativos específicos voltados para esse campo. A IA
na saúde não é sobre máquinas e processos, mas sobre a vida e, com isso, a
defesa do usuário do sistema tem de ser uma prioridade, pautando debates e
ações governamentais.
Nesse cenário, o Brasil tem a oportunidade de
dar início a um projeto que assegure o equilíbrio entre dados e diagnósticos.
No último dia 11, foi aprovado o Estatuto dos Direitos do Paciente, que
estabelece um marco legal sobre o tema. Nele, a busca pela garantia do
atendimento humanizado, com foco na dignidade, é um dos objetivos em destaque.
No rol de procedimentos, o uso de tecnologia de ponta — com o acréscimo de
novos tratamentos de alta complexidade e a inclusão da robótica — possui
diretrizes estabelecidas.
O equilíbrio entre a medicina tecnológica e a explicação humanizada é uma necessidade funcional. A máquina é imbatível na detecção de padrões, mas o profissional é único na interpretação de contextos. O exame identifica lesões e doenças, porém o diálogo é capaz de contextualizar a situação e perceber o impacto daquela dor no cotidiano do paciente. Ignorar essa camada do processo pode significar praticar uma medicina incompleta, por mais moderna que ela seja. A automação deve auxiliar o médico, e não substituí-lo completamente. O futuro da saúde plena depende do equilíbrio entre a tecnologia e a capacidade humana de análises.
Uma nova TV O POVO
Por O Povo (CE)
O POVO entende que é seu compromisso como
agente de apoio na reflexão crítica do público reforçar o jornalismo televisivo
e investir na transmissão da informação em diversas plataformas, focando também
em cultura. Às vésperas de seu centenário, a responsabilidade com a verdade, em
todas as plataformas, se fortalece
A qualidade do bom jornalismo que O POVO
tradicionalmente faz, ao longo de quase 100 anos, se intensifica e se expande
em mais uma iniciativa de força e profissionalismo. A TV O POVO estreia, nesta
segunda-feira, 6 de abril, uma nova frequência, o canal 48,1, com programação
diferenciada e novo elemento marcante: a parceria com a TV Cultura, da Fundação
Padre Anchieta. A partir do novo canal, a TV O POVO passa a agregar a sua grade
os programas da Cultura, alguns já conhecidos do público, como "Roda
Viva", "Metrópolis", "Provoca" e "Cultura
Livre".
O público pode continuar acessando, de forma
gratuita, os programas desenvolvidos pelo Grupo de Comunicação O POVO, em uma
ação de democratizar, cada vez mais, a informação de qualidade e levar a mais
gente os assuntos produzidos, verificados e publicados de forma séria e
responsável.
Assim, a TV O POVO abre, às 8 horas, com a
primeira edição do "O POVO News", com o jornaista Ítalo Coriolano.
Das 9h às 11 horas, de segunda-feira a sábado, é exibido "O POVO no
Rádio", com Jocélio Leal, programa já conhecido pelos ouvintes da Rádio O
POVO CBN. Às 11 horas, é a vez do "Esportes O POVO" e, às 14 horas, é
exibido "O POVO da Tarde", com Maisa Vasconcelos, também conhecido
pelos ouvintes. Às 16 horas, o "Debates do POVO", da Rádio O POVO
CBN, entra na programação da TV. O espaço das 17 horas é reservado para
diferentes programas de segunda a sexta-feira, como "Jogo Político",
"Futcast", "Guia Econômico", "Jogo Político" e
"Pause". Assim, a grade do O POVO é encerrada às 18 horas, com a
segunda edição do "O POVO News", apresentada pelo jornalista Marcos
Tardin.
Há praticamente um ano, em abril de 2025, a
TV O POVO "renascia", um canal aberto que trazia ali consigo novos
públicos em um momento que, dinâmico por si só, já era caracterizado por
profundas transformações na comunicação. E elas não param de ocorrer. A TV
anunciava 10 horas de conteúdo jornalístico durante o dia, atendendo à demanda
de um público exigente que demandava mais programação jornalística e cultural.
É sob essa perspectiva também que a TV O POVO, que ora se apresenta, se mostra
mais modernizada e mais atualizada. Visa, assim, contemplar as exigências do
público que quer bastante informação e cultura.
Desse modo, O POVO entende que é seu
compromisso como agente de apoio na reflexão crítica do público reforçar o
jornalismo televisivo e investir na transmissão da informação em diversas
plataformas, focando também em cultura. Às vésperas de seu centenário, a
responsabilidade com a verdade, em todas as plataformas, se fortalece.
E a TV O POVO, que se renova, se reinventa e dá as boas-vindas à TV Cultura, é mais uma prova disso.

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