O Globo
'Conspiração Condor' reconta, quase em
sequência, o fim dos ex-presidentes Juscelino Kubitschek e Jango Goulart e do
ex-governador Carlos Lacerda
Em 1961, Jango Goulart estava em visita oficial à China quando Jânio Quadros renunciou à Presidência. Os protobolsonaristas usam esse episódio para tentar pespegar em Jango a pecha de comunista. Mais de dez anos depois, em 1972, Richard Nixon, um direitista corrupto, foi à China atrás de relações e negócios. Nixon pulou do cargo para não ser cassado (era desonesto). Jango, um latifundiário gaúcho, típico reformista social, se viu obrigado a fugir do país por um golpe militar. Por trás de sua (e nossa) desgraça, estava o governo dos Estados Unidos, que manietou e financiou políticos brasileiros.
Gravações de conversas na Casa Branca e
documentos secretos de agências de espionagem e do serviço diplomático
americano mostram não apenas a articulação do golpe em conluio com militares e
políticos brasileiros. Mostram apoio às perseguições, cassações e torturas nos
adversários do regime ditatorial.
Esta é a parte sobre a qual não existem mais
dúvidas: os americanos financiaram o golpe de Estado no Brasil e noutros países
da América do Sul. No Chile, os golpistas
bombardearam o Palácio de La Moneda até a morte de Allende.
Outra parte nebulosa da ditadura militar
brasileira volta à tona com a estreia de “Conspiração Condor”, dirigido por
André Sturm. (Vale lembrar que os mortos sempre reclamam por justiça.) Em forma
de ficção, no filme são recontados os episódios das mortes, quase em sequência,
dos ex-presidentes Juscelino Kubitschek e Jango Goulart e do ex-governador
Carlos Lacerda. JK morreu em 22 de agosto de 1976, em acidente de carro na
Dutra; Jango morreu de ataque cardíaco em 6 de dezembro de 1976, no exílio; e
Lacerda, também do coração, em 21 de maio de 1977, na Clínica São Vicente, no
Rio. Sobre cada morte, sempre houve suspeita de assassinato por ordem do
governo militar. Por essa tese, o acidente de JK era simulação; Jango e Lacerda
morreram por envenenamento. No caso de JK, existe o que poderia ser ironia, se
não fosse verdade: 15 dias antes sua morte saiu no jornal, só que na rodovia em
direção à sua fazenda, em Luziânia. Estranhamente, na mesma hora em que ele
viria a morrer na Dutra.
À obra de Sturm se juntam os livros de Carlos
Heitor Cony e Anna Lee (“O beijo da morte” e “Conspiração Condor”) e o
documentário de Paulo Henrique Fontenelle (“Dossiê Jango”). Os títulos de
Cony/Lee podem ser lidos como reportagens ou ficção. A obra de Fontenelle, em
contraste, traz uma série de depoimentos de personagens em torno do exílio e da
morte de Jango. Expõe documentos e informes das polícias de Brasil, Uruguai e Argentina (onde
ele morreu, em Corrientes). De acordo com os autores, e agora no filme de
Sturm, ocorreu operação de colaboração entre as ditaduras para eliminar
adversários dos regimes totalitários. Além dos líderes brasileiros, políticos
de Uruguai, Argentina e Chile foram vítimas de atentados na “Conspiração
Condor”.
A história da ditadura brasileira aos poucos
é contada à luz do tempo e dos documentos trazidos à cena. Foi assim com os
áudios das decisões dos presidentes John Kennedy e Lyndon Johnson (ambos
democratas), em que se mostram favoráveis ao golpe no Brasil. O interesse era
menos ideológico que financeiro — não interessava aos Estados Unidos perder um
parceiro comercial. Jango desenvolveu uma política externa independente. Não
entro aqui em seus múltiplos erros de avaliação política (ele não é meu herói).
Eleito para o cargo, se viu levado à esquerda diante da chantagem de políticos
brasileiros financiados por Washington.
Assista ao filme de Sturm e acompanhe nossa
política. Ambos se complementam. Assim como os mortos pedem justiça, os
fantasmas voltam com as figuras dos Bolsonaros. O deputado cassado Eduardo
buscou o tarifaço trumpista, que resultou em desemprego em várias áreas. Ungido
pelo pai, Flávio esteve em Dallas, no encontro de extrema direita, e ofereceu a
soberania brasileira e o subsolo das terras-raras aos americanos. Em troca de
apoio a sua eleição. Segundo ele, para afastar o Brasil da China. Sim, da China
do direitista Nixon, hoje maior compradora de produtos brasileiros. Até então,
o entreguismo da direita jamais fora tão explícito.
Não é apenas a soberania que Flávio oferece no encontro da extrema direita. É a liberdade democrática conquistada há 40 anos. Seu pai — que ele promete indultar se eleito — está preso por tentar um golpe de Estado. Seus comparsas queriam matar Lula, Alckmin e Alexandre de Moraes. Isso não é obra de ficção.

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