Folha de S. Paulo
A maior ameaça à vitalidade da cidadania está
hoje no caos criminogênico dos clãs cuja tendência é a desvitalização
Com a proximidade das eleições, agudiza-se a
preocupação com a saúde da democracia entre nós
Daniel Vorcaro: "Fala irmãozão ro (sic) na igreja, terminando te chamo". Flávio Bolsonaro: "Irmão, estou e estarei contigo sempre, não tem meia conversa entre a gente. Só preciso que me dê uma luz!" Nesta troca de mensagens entre o maior fraudador financeiro da história do país e o candidato da ultradireita à Presidência, "luz" tem novo sentido: dinheiro. Mais precisamente, R$ 134 milhões; destes, R$ 61 milhões já haviam sido destinados ao filme sobre Jair Bolsonaro e que, pelo visto, sumiram no caminho. Agora, o rachadão, farisaico: "O que tem demais?"
É outra maneira de dizer que presidir a
República não requer moralidade nenhuma, nada é demais num espaço sem valor.
Por isso, com a proximidade
das eleições, agudiza-se a preocupação com a saúde da democracia
entre nós. Exaustivo é o balanço das crises de sentido não mais assimiladas por
visões de mundo supostamente hegemônicas. Fala-se do esvaziamento da
representação política, da corrosão institucional, da falência do progresso
como horizonte coletivo, mas nada da desvitalização do espaço-campo de todas as
ações sociais. Talvez esse espaço não mais esteja sendo vivido.
É que o sentimento de ausência de vida
perpassa hoje a cidadania em toda a diversidade dos segmentos sociais. A mesma
falta de convicção de que se vive sob a regência concreta de um valor
identificado como democracia. Valor é princípio de orientação da vida e, entre
nós, construído principalmente pela razão discursiva. Mas vale atentar
para João Cabral
de Melo Neto: "É difícil defender, só com palavras, a
vida" (em "Vida e Morte Severina").
Esse é o impasse do progressismo entregue a
análises sócio-históricas com palavras esvaziadas por crises moleculares
(microestruturais e psíquicas). O espaço social imediato, moldado por capital
financeiro e fluxos eletrônicos, dissocia-se da esfera do possível das ações
individuais, ampliando a uniformidade do vazio e da indiferença às condições
vitais de existência. Depressão psíquica espreita a falta de sentido e de
esperança.
Nessa conjuntura sócio-histórica, expressões
antes tidas como vitais (crescimento do PIB, conquistas sociais etc.) não mais
repercutem num eleitorado submerso na miséria objetiva de macrorrealizações distanciadas
da vida cotidiana. A própria ideia de democracia deixa de mobilizar
identificações, relegando o pleito eleitoral ao ressentimento e às fantasias
compensatórias que brotam no lodaçal do extremismo de direita. A corrupção pode
até ser esquecida se fizer parte do jogo.
Existe também anestesia coletiva. Mas não é
lavagem cerebral que faz um zero cívico competir nas pesquisas com o atual
presidente: a memória volátil dos 57% de eleitores é variável importante.
Irmãozãos e corruptores contam com isso. E o Lula global ainda não encontrou o
mapa de um espaço interno compatível com estabilidade social. A maior ameaça à
vitalidade da cidadania está hoje no caos criminogênico dos clãs, cuja
tendência é a desvitalização, senão o desmonte do Estado. Não é mais caso de
"pacote" pré-eleitoral enxuga-gelo, e sim de um durável pacto
nacional de classes contra o crime e seus rebentos antidemocráticos.
*Sociólogo, professor emérito da UFRJ, autor, entre outras obras, de “Pensar Nagô” e “Fascismo da Cor”

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