O Estado de S. Paulo
Humor dos cidadãos poderá melhorar se houver condições para juros menores
Boa notícia para a direita e para o précandidato Flávio Bolsonaro: o mau humor dos cidadãos impõe ao presidente Lula um desafio singular. A redução da popularidade presidencial contrasta com alguns dos principais indicadores econômicos. O desemprego de 6,1% no primeiro trimestre foi o menor para esse período na série iniciada em 2012. O ganho médio mensal dos brasileiros em 2025, R$ 3.367,00, foi 5,4% maior do que o do ano anterior. O bolo dos ganhos também foi recorde. A massa de rendimento mensal real de todos os trabalhos, R$ 361,7 bilhões no ano passado, foi a maior da série, superando por 7,5% a de 2024 e por 23,5% a de 2019.
Com isso se completaram quatro anos
consecutivos de expansão da massa de rendimento do trabalho, com taxas anuais
superiores a 6%. Mas a desaprovação do governo tem subido e chegou a 52%,
segundo pesquisa realizada entre 2 e 4 de maio pelo Instituto Real Time Big
Data. A aprovação foi indicada por 42% dos consultados, com redução de dois
pontos em relação à consulta de março, enquanto 6% deixaram de responder.
A piora da avaliação do governo ocorre numa
fase de alto endividamento, de juros muito altos e de aperto financeiro para a
maior parte das famílias, apesar do aumento dos ganhos e do amplo acesso a bens
e serviços essenciais. A boa oferta de alimentos deve repetir-se neste ano,
facilitada por mais uma grande safra. Isso deve deixar às famílias, novamente,
um espaço orçamentário para outras despesas ou para poupança, se as pessoas
forem cautelosas diante da multiplicidade de apostas.
A parcela de famílias endividadas subiu de
80% em março para 80,9% em abril, completando quatro meses consecutivos de recordes,
segundo a Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC).
Os consumidores têm sido estimulados a se endividar e as poucas advertências
quanto ao risco têm partido principalmente do Ministério da Fazenda.
Uma nova etapa do programa Desenrola,
anunciada pelo ministro Dario Durigan, deve ser focada no devedor adimplente,
isto em dia com seus pagamentos. Além disso, o socorro deverá ser condicionado
ao abandono de apostas. Não adianta, obviamente, o governo trabalhar pela ajuda
a um endividado disposto a continuar arriscando dinheiro em jogo.
O uso bem calculado e cuidadoso do
financiamento pode beneficiar consumidores e empresas, facilitando um
crescimento econômico bem ordenado e seguro. É difícil falar em crédito seguro
e produtivo, no entanto, com juros básicos de 14,50% ao ano. Mesmo com novos
cortes, as taxas continuarão muito altas por longo tempo, se cada redução for
de apenas 0,25 ponto porcentual.
Dirigentes do Banco Central (BC) têm-se
mostrado dispostos a aliviar a política monetária, favorecendo a expansão e o
barateamento dos empréstimos. Mas isso dependerá, em boa parte, da gestão
financeira do governo federal. Sem uma clara perspectiva de gastos públicos
mais controlados e mais bem programados, o poder central continuará sendo o
responsável principal pelo crédito caro. Permanecerá atuando, portanto, como
entrave principal a uma expansão econômica segura, sustentável e mantida em
ritmo superior ao da maior parte do último quarto de século.
Empresários têm expressado apoio ao governo e
otimismo quanto à provável evolução da economia. Mas as projeções colhidas no
sistema financeiro contrariam esse aparente otimismo. No começo de maio, a
mediana das projeções apontou crescimento econômico de 1,85% neste ano, de
1,75% no próximo e de 2% anuais nos períodos seguintes. A inflação esperada
para este ano subiu durante várias semanas e chegou a 4,89%, no final de abril,
de acordo com o boletim Focus. O mesmo conjunto de estimativas apontou uma taxa
de 4% em 2027 e uma redução para 3,50% no ano seguinte, sem perspectiva de se
atingir a meta de 3% pelo menos até 2029.
Com inflação resistente, o mesmo conjunto de
projeções inclui juros básicos de 13% no final deste ano, 11% em dezembro de
2027 e 10% em 2028 e 2029. Se essas estimativas estiverem corretas, o custo do
crédito continuará incompatível com uma expansão mais veloz dos negócios e com
um aumento significativo do investimento em meios de produção. A expectativa de
baixo investimento em máquinas, equipamentos e obras é compatível com a
projeção de crescimento medíocre ainda por muitos anos.
Veloz, medíocre ou lenta, a expansão
econômica é muito mais do que um número mais ou menos atraente. No dia a dia
das famílias, o crescimento econômico mais ou menos acelerado pode corresponder
a condições mais ou menos amplas de bem-estar e a oportunidades mais ou menos
significativas de desenvolvimento pessoal e de cada geração. Essas
oportunidades também dependem da distribuição mais ou menos equitativa dos
ganhos, uma questão econômica e também política. Não adianta muito discutir
essa distribuição, no entanto, sem cuidar também, e prioritariamente, de um
dinamismo econômico sustentável, previsível e garantido, é claro, pelo uso
prudente e eficiente de recursos. O governo tem dado pouca segurança em relação
ao último item.

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