domingo, 10 de maio de 2026

Gonet e o canto das sereias no Master, por Thiago Bronzatto*

O Globo

A dúvida que ainda paira é se ele estará disposto a escalar as apurações em Brasília

Quando assumiu a Procuradoria-Geral da República, Paulo Gonet costumava comparar o desafio do cargo ao de Ulisses na “Odisseia”. Na volta a Ítaca, o herói quis ouvir o canto das sereias, mas sabia que, seduzido pela melodia, poderia perder a razão e se lançar ao mar. Para sobreviver, pediu aos marinheiros que vedassem seus ouvidos com cera, enquanto ficaria amarrado ao mastro da embarcação. A estratégia permitiu que a tripulação atravessasse ilesa a zona de perigo. Inspirado nessa história, o chefe do Ministério Público Federal (MPF) dizia que teria de se manter atado à missão de cumprir seu dever, sem distrações. Passados dois anos e quatro meses, Gonet enfrenta um dilema: ser enredado por vozes políticas ou se manter firme em seu propósito?

No escândalo do Banco Master, Gonet tem diante de si o seu maior desafio. Caberá a ele avaliar as provas colhidas na investigação e a proposta de colaboração premiada do banqueiro Daniel Vorcaro — que poderão provocar um abalo sísmico em Brasília. No entanto sua disposição em mexer em vespeiros políticos tem sido questionada tanto pela Polícia Federal como pelo ministro André Mendonça, responsável pelo caso no Supremo Tribunal Federal (STF). Por trás dessa desconfiança, está o fato de Gonet ter rejeitado pedidos de apurações e suspeições dos ministros Alexandre de Moraes e Dias Toffoli, que mantiveram relação lucrativa com Vorcaro.

Na avaliação do procurador-geral, não há elementos para investigar o aporte milionário orquestrado por Vorcaro num resort de Toffoli nem o contrato de R$ 130 milhões entre o Master e o escritório da advogada Viviane Barci, mulher de Moraes, para defender interesses do banco em Brasília. Se Gonet entende que faltam indícios mínimos de irregularidades, o relator do caso na Corte, André Mendonça, tem dito a pessoas próximas que considera graves os fatos envolvendo Moraes.

Esse descompasso também ficou evidente na prisão de Vorcaro. Mendonça discordou de Gonet, que pediu mais tempo para analisar o caso e não viu a mesma urgência em interromper a atuação do banqueiro, suspeito de manter uma milícia particular para dar uma surra em um jornalista e invadir sistemas de órgãos públicos. Colocar o dono do Master na Papuda provocaria consequências incontornáveis. Por isso, o procurador-geral afirmou que não podia agir de modo imponderado.

A posição garantista de Gonet foi um ingrediente considerado determinante para ele ser alçado ao posto pelo presidente Lula e receber a bênção de Moraes e do decano do Supremo, Gilmar Mendes, de quem já foi sócio. Respeitado pelo saber jurídico, o procurador-geral desempenhou papel central nas denúncias que levaram à inelegibilidade e à condenação do ex-presidente Jair Bolsonaro por tramar um golpe contra as instituições. Sabendo que sua cadeira pode projetá-lo para uma vaga do STF, também entende que colecionar inimizades com integrantes da cúpula dos Poderes Judiciário e Legislativo poderia dinamitar pontes importantes. Ainda mais depois de a dupla Moraes e Davi Alcolumbre, presidente do Senado, ter minado o caminho do advogado-geral da União, Jorge Messias, ao Supremo.

Ao acolher o pedido da PF para investigar o senador Ciro Nogueira, expoente do Centrão, Gonet deu uma amostra de que pode avançar no terreno político. A dúvida que ainda paira é se estará disposto a escalar as apurações em Brasília. No passado, a figura do procurador se submetia às vontades do soberano e era a voz jurídica do poder. No Brasil, com a Constituição de 1988, o MPF ganhou mais autonomia e passou a ser o guardião da ordem jurídica e do interesse público.

Essa é a régua que medirá Gonet no caso Master. Sua tarefa não é agradar a ministros ou preservar alianças. Também não é substituir prudência por heroísmo. É exigir provas com lastro, recusar pressões e tratar poderosos e adversários com o mesmo padrão. Em Brasília, o canto das sereias costuma vir disfarçado de cautela, amizade, conveniência ou mesmo expectativa de poder. O desafio de Gonet será permanecer amarrado à sua missão para evitar um desvio de rota.

*Thiago Bronzatto é diretor da sucursal do GLOBO em Brasília

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