O Estado de S. Paulo
Uma semana antes de visitar Xi Jinping em
Pequim, Donald Trump se reuniu com Lula. Embora fosse um pedido antigo do
Brasil, a reunião foi marcada às pressas. Não havia agenda preparada com
antecedência pelos diplomatas dos dois lados. A substância dos assuntos não era
importante. Para Trump e Lula, a reunião bastava.
Por isso ela foi um sucesso: as muitas
divergências não foram endereçadas. Cada um disse o que quis, sem contestação.
Os assuntos foram lançados, sem um objetivo que não a simples ocorrência de uma
conversa longa e amistosa.
O quase monopólio da China sobre minerais críticos fragiliza os EUA. A guerra contra o Irã agravou a situação. O Pentágono informou em sessões sigilosas com integrantes das Comissões de Defesa da Câmara e do Senado que consumiu metade dos seus mísseis mais sofisticados – Tomahawk, Atacms, Thaad e Patriot.
A principal hipótese de emprego dessas armas
é contra a China, diante de eventual anexação de Taiwan e das disputas na
região Ásia-Pacífico. Agora, para repor os estoques, os EUA precisam de
minerais críticos. É aí que entra a reunião com Lula.
O Brasil tem a segunda maior reserva de
terras raras do mundo, com cerca de 17%, embora esse mapeamento esteja
incompleto e a fatia possa ser maior. A China encabeça o ranking, com cerca de
40%. Trump quis demonstrar que o Brasil não está sob a órbita chinesa.
MARCO REGULATÓRIO. A empresa americana USA
Rare Earth comprou por US$ 2,8 bilhões uma mina em Minaçu, Goiás, a única fora
da China com matérias-primas para a produção de ímãs permanentes.
Na véspera da cúpula, a Câmara aprovou o
marco regulatório para os minerais críticos, para dar segurança jurídica a
investimentos. Lula disse a Trump que o Senado também o aprovaria naquela mesma
noite, o que não ocorreu, mas revela o entusiasmo dele por esse fator de
magnetismo do Brasil em face aos EUA.
Quando lhe perguntaram como foi a reunião,
Trump respondeu que tinha sido boa, que Lula é um “bom homem”, um “cara
inteligente”, que os EUA querem mais comércio com o Brasil, e que os
brasileiros pediram “alívio nas tarifas”.
Essas frases, combinadas com o post no Truth
Social em seguida ao encontro, revelam a boa vontade de Trump, que aceitou
criar um grupo de trabalho com prazo de 30 dias para discutir o tarifaço
americano. Nada disso garante que ele vá desistir de impor novas tarifas.
Lula, por sua vez, tinha o interesse de se
projetar como estadista e provar capacidade de lidar com Trump, apesar das
intrigas da oposição. O timing para ele era importante também, depois de duas
derrotas sucessivas no Congresso.
Política é teatro, e Trump e Lula sabem
atuar.

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