O Estado de S. Paulo
O mundo rico começa a descobrir que estabilidade monetária não é algo permanente
O mundo rico passou décadas ensinando estabilidade monetária ao resto do planeta. Entre os anos 1990 e 2020 prevaleceu um ambiente relativamente estável – a chamada Grande Moderação – sem eliminar crises ou recessões. O que mudou naquele período foi a forma como os mercados passaram a reagir aos choques: após cada crise, inflação e juros tendiam a cair, enquanto bancos centrais estabilizavam o sistema com liquidez abundante. A crise de 2008 reforçou essa lógica. O problema atual é diferente.
Guerras, tarifas, fragmentação geopolítica,
envelhecimento populacional, transição energética e déficits públicos elevados
passaram a produzir choques mais inflacionários e juros mais altos e voláteis.
O mundo desenvolvido não está aprendendo a conviver com crises – sempre
conviveu com elas. Está aprendendo a conviver com crises inflacionárias em um
ambiente de dívida elevada e menor previsibilidade monetária. E isso mudou até
mesmo a lógica da proteção financeira.
Por muito tempo, os títulos públicos
americanos funcionaram como porto seguro quase automático em períodos de
turbulência. Agora, nem mesmo os títulos protegidos contra a inflação – os TIPS
(Treasury Inflation-Protected Securities) – conseguem reproduzir a sensação de
segurança que esses papéis transmitiam no passado.
Essa situação tem levado grandes investidores
a preferir hedges reais, não financeiros. Buscando porto seguro indireto via:
commodities, petróleo, ouro, ações de energia, infraestrutura, empresas com
poder de repasse de preços – em vez de TIPS. A lógica é simples: se a inflação
nasce de guerras, energia cara e fragmentação global, ativos reais talvez
ofereçam proteção mais eficiente do que títulos públicos indexados.
Isso aproxima o mundo do ambiente em que
mercados emergentes vivem há tempos. Podemos entender o Brasil como “prévia
imperfeita” do futuro. Nós sempre fomos tratados como uma exceção, um país
instável. O mundo rico não virou Brasil. Mas começou a descobrir algo que já
sabíamos: estabilidade monetária não é algo permanente – e preservação de
riqueza deixou de ser um detalhe técnico para ser uma necessidade existencial.
Mesmo os títulos do Tesouro atrelados à
inflação podem oscilar violentamente, juros reais mudam preço de tudo e a
marcação a mercado importa. O mundo rico sempre recomendou disciplina monetária
aos emergentes. Agora, começa a descobrir os prazeres da volatilidade cambial,
dos juros imprevisíveis, da inflação resiliente e da marcação a mercado.
Bem-vindos ao clube. O Brasil não exportou estabilidade ao mundo. Mas talvez
tenha exportado experiência em sobreviver sem ela.

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