sábado, 23 de maio de 2026

Como o Jair de 'Dark Horse', Flávio Bolsonaro está à espera de um milagre, por Angela Alonso

Folha de S. Paulo

Filme financiado por Vorcaro propagandeia liberalismo radical, embaralha fatos e ficções e esquece o filho 04

Manifestações pró-Mito são a única referência ao 8 de Janeiro; não espere oração para pneu nem patriota do caminhão

Flávio B. deve estar pedindo misericórdia aos céus. Depois dos chocolates, malogrou no cinema e periclita na política. O perrengue da vez veio de Raleigh, na Carolina do Norte, a terra escravista da qual o roteiro de "Dark Horse" é assinado.

O título alude àqueles tempos por repetir o de livro sobre o reformista James Garfield. Levado à Presidência graças ao racha no Partido Republicano (que fez a abolição) em 1881, levou bala no primeiro ano de governo. Seu assassinato virou série da Netflix. Já a facada em Bolsonaro deu filme. A semelhança acaba aí. Nos dois casos, há um azarão, mas o segundo faz também jus ao apelido juvenil: Cavalão.

É um filme descomplicado, mas faz vários serviços. Propagandeia um liberalismo radical. Jair-ator pragueja contra "socialistas, trabalhistas, comunistas": "Vou deixar você em paz —e proteger você— para que o que você construiu não seja roubado". Programa anti-Estado, prática patrimonialista: "Dark Horse" veio do mesmo mundo do qual saíram as festas de Daniel Vorcaro, regadas a prosecco e recursos públicos. Ali, políticos bolsonaristas e empresários fizeram amizades e negócios. Por que não um filme?

O enredo é nacionalista, mas o "a Amazônia é nossa" vem redigido em inglês e por estrangeiros. A conjuntura nacional se reduz à meia dúzia de eventos na abertura: fim da ditadura, "levantes comunistas/socialistas", eleição e prisão de Lula, derrota na Copa do Mundo por 7 a 1, eleição de Bolsonaro.

A política é tripartite: há o "Far Left Progressives" ("vermelhos"), o "Ruling Party" (corrupto) e o antissistema. Os "socialistas radicais" aparecem na tramoia para matar Bolsonaro.

É um filme pró-família, mas família à moda do Jair. Flashbacks constroem sua persona de "alto e bonito", sedutor e desbocado. Sua origem é clã de machos. Desenha-se um capitão que prende traficante (e minimiza-se sua ida para a reserva do Exército). Depois, vem o casamento romântico com a "linda" Michelle e se materializa o pai rigoroso, mas amoroso, de Laura e três zeros (esqueceram o 04!).

Bolsonaro é um escolhido de Deus. Além das preces do casal e de seguidores, há uma senhora humilde que provê pílulas salvadoras. Assim se explica o "milagre" da sobrevivência pós-atentado. Nas paredes do hospital estão "Pietà" e "A Ressurreição de Lázaro". No hospital, Bolsonaro, como Lázaro, se levanta e anda até os braços do povo, enquanto os planejadores do atentado são mortos.

É uma drama de inadvertidos efeitos cômicos. Há a peruca fora de lugar do protagonista, o "papai" de Carluxo salpicado no enredo e uma mescla de português e espanhol: a milagreira se chama Dolores, o bandido toma "cerveza" e, em vez do "seu Jair" da averiguadora da tornozeleira, temos o "senhor Bolsonaro".

A narrativa embaralha fatos e ficções. Amaina, sem negar, o politicamente incorreto, como o ataque a Maria do Rosário. O preconceito some na cordialidade —amigo de um negro, simpático com enfermeiro gay.

A fabulação cresce ao longo do roteiro, desclassificando os inimigos: a imprensa é inescrupulosa e esquerdista, o "Ruling Party" é quem arma complôs para matar o Mito. Tecem-se suspeitas sobre o resultado eleitoral de 2022. Um possível ministro do STF calvo e um empresário-traficante (o mesmo preso pelo capitão) mancomunam-se. É a apoteose da teoria da conspiração.

A única referência à tentativa de golpe de Estado são manifestações pró-Mito "em todo o Brasil, em sua maioria pacíficas". A sentença do STF condenando Bolsonaro vem no final. Não se espere mais que isso sobre o 8 de Janeiro, nada de oração para pneu nem patriota do caminhão.

"Dark Horse" é maniqueísta como o bolsonarismo: há bons e maus, fortes e fracos, nós e eles. Bolsonaro é pintado como vítima do "sistema" à espera de um novo milagre. Mas quem agora precisa dele é o 01. A santa Dolores não opera livramentos na vida real, e a "linda" Michelle já encomendou a alma do enteado: "Pergunta para o Flávio".

 

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