sábado, 21 de fevereiro de 2026

Olha elas, por Flávia Oliveira

O Globo

Festa foi da onipresente Conceição Evaristo, escritora que, feita enredo pelo Império Serrano, frequentou a quadra, se vestiu de baiana

O carnaval 2026, que chega hoje ao sábado derradeiro, premiou um sambista, Ciça, o mestre dos mestres de bateria, enredo campeão da Unidos do Viradouro; homenageou um astro, Ney Matogrosso, via Imperatriz Leopoldinense; reverenciou um intelectual negro, Nei Lopes, autor de “Ifá Lucumí”, livro que inspirou o desfile da Paraíso do Tuiuti. Pôs holofotes em Luiz Inácio Lula da Silva, tema da rebaixada Acadêmicos de Niterói, e na movimentação dos adversários pela disputa eleitoral. Espantou-se com o prefeito da cidade brincando de deficiente visual no camarote na Avenida; e com o pré-candidato ao governo do Rio, o mesmo Eduardo Paes, apoiado pelo presidente de esquerda, acertando a sério a vaga de vice com o clã de Washington Reis, hegemônico em Duque de Caxias, bolsonarista raiz.

A festa, sobretudo, coroou mulheres. Na Beija-Flor, foi o carnaval das iabás, Iemanjá e Oxum, orixás festejadas no Bembé do Mercado, o maior candomblé de rua do mundo, que toma Santo Amaro da Purificação, no Recôncavo Baiano, no 13 de maio, em celebração pela liberdade, desde 1889. Foi o carnaval de Stephanie Vanira, bailarina no Theatro Municipal, integrante desde 2022 da comissão de frente dos coreógrafos Jorge Teixeira e Saulo Finelon. Foi ela que encarnou, na escola de Nilópolis, a divindade do mar, mãe de todas as cabeças, no elemento alegórico em forma de barco, ora em travessia atlântica, ora em cortejo de fé.

O carnaval foi de Selminha Sorriso, porta-bandeira que dança há 35 anos com o mesmo par, Claudinho, e há 30 na mesma escola, onde também se tornou diretora cultural e presidente da agremiação mirim, Sonho do Beija-Flor. Na mesma noite/madrugada, ela cruzou a Sapucaí duas vezes seguidas. Primeiro, defendeu a Deusa da Passarela; depois, passou em honra de Ciça, com quem ela e o parceiro foram campeões pela Estácio de Sá, em 1992, no desfile “Pauliceia desvairada — 70 anos de Modernismo”. Foi o carnaval de Jessica Martin, que formou com Ninno a dupla de vozes encarregada de substituir Neguinho da Beija-Flor, depois de meio século como intérprete oficial. Ela ainda ganhou o Estandarte de Ouro de Revelação.

Foi o carnaval de dona Lea Garcia (1933-2023), atriz negra, homenageada pela Mocidade Alegre, campeã do Grupo Especial de São Paulo. E da filósofa e ativista Sueli Carneiro, que passou pelo Anhembi com cofundadoras, equipe e amigos de Geledés Instituto da Mulher Negra, enredo da Mocidade Unida da Mooca no desfile que manteve a escola no olimpo do carnaval paulistano.

O carnaval foi da onipresente Conceição Evaristo, escritora que, feita enredo pelo Império Serrano, frequentou a quadra, se vestiu de baiana, circulou por Madureira, balançou bandeirão, participou do minidesfile na Cidade do Samba e do ensaio técnico na Sapucaí. Ajudou a escola da Serrinha, campeã nove vezes da primeira divisão das escolas cariocas, a conquistar o vice-campeonato da Série Ouro deste ano, depois de um 2025 em que a agremiação ficou fora da competição por perder as fantasias num incêndio. A escola de Vovó Maria Joana, Tia Maria do Jongo, Dona Ivone Lara e Jovelina Pérola Negra agora é também da mineira premiada por “Ponciá Vicêncio” e “Olhos d’água”.

Conceição também passou na Sapucaí pela Unidos da Tijuca. Na escola nascida no Morro do Borel, o carnaval foi de Carolina Maria de Jesus, autora de “Quarto de despejo”, entre outros. Pelas mãos do carnavalesco Edson Pereira, da diretora de carnaval Elisa Fernandes, pioneira na função, e da professora Fernanda Felisberto, consultora do enredo, Carolina afirmou-se não como a catadora de recicláveis que escrevia, mas como a escritora a quem o racismo e a desigualdade brasileiros impuseram sobrevivência na miséria, no precário.

O carnaval foi de Leci Brandão, cantora, compositora, quatro vezes deputada estadual em São Paulo, enredo da Unidos de Bangu, escola da Zona Oeste carioca. Foi das pombagiras da Em Cima da Hora e das ganhadeiras dos balangandãs da União de Maricá. O carnaval foi de Laísa Lima, primeira mulher a comandar uma bateria de escola de samba na Marquês de Sapucaí. A jovem, 25 anos, é filha de Laíla (1943-2021), diretor de carnaval e multiartista tornado enredo campeão da Beija-Flor em 2025. Atua há uma década como diretora dos tamborins na escola de Nilópolis. Ano que vem, passará pela segunda vez à frente da Bateria Sensação, do Arranco do Engenho de Dentro, escola que tem, além da mestra, mulheres como presidente (Diná Santos), vice (Tatiana Santos) e carnavalesca (Annik Salmon, no biênio 2025-26).

Foi o carnaval das rainhas de bateria Mayara Lima (Paraíso do Tuiuti), Viviane (sempre ela) Araújo (Salgueiro), Sabrina Sato (Vila Isabel), Evelyn Bastos (Mangueira). E de Juliana Paes, agora campeã, mãos dadas com Ciça. Foi o carnaval de Rita Lee (1947-2023), padroeira, sim, da Liberdade e da Mocidade; e de Rosa Magalhães (1947-2024), a professora campeonérrima do carnaval, feita enredo pelo Salgueiro. Ô lê-lê, elas brilharam.


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