terça-feira, 31 de março de 2026

Caiado na pista, por Merval Pereira

O Globo

Ronaldo Caiado, candidato do PSD a presidente da República é uma tentativa de abrir espaço alternativo à polarização entre lulistas e bolsonaristas.

A escolha do governador de Goiás, Ronaldo Caiado, para candidato do PSD a presidente da República é uma tentativa de abrir espaço alternativo à polarização entre lulistas e bolsonaristas. A ideia é que o eleitorado está cansado dessa disputa, existente desde a eleição de 2018, e anseia por uma novidade que o mobilize. Caiado não é exatamente uma novidade na política, mas é um fator novo na disputa, com a vantagem de ter experiência em cargos públicos que o credencia. Novidade seria o governador do Rio Grande do Sul, Eduardo Leite, mas não há indícios de que ele teria condições de enfrentar o presidente Lula ou o clã Bolsonaro.

Dois políticos com alavancagem própria — os governadores de São Paulo, Tarcísio de Freitas, e do Paraná, Ratinho Junior — foram abandonados justamente por falta de condições de disputar com os favoritos. Caiado tem a vantagem de ser um representante histórico da direita, que já foi radical na época da União Democrática Ruralista (UDR) e hoje faz mais o gênero direita moderada. Não vejo como tirará votos da esquerda, mas é um bom nome para disputar os eleitores pendulares de centro, que podem votar ou em Lula ou em Bolsonaro, dependendo da situação eleitoral e das circunstâncias.

Os analistas de pesquisas entendem que esse grupo definirá a eleição no segundo turno. Isso dá uma vantagem ao Caiado moderado, que disputará com o Bolsonaro moderado. O primeiro já provou sua mudança, enquanto o outro terá de fazer um esforço redobrado para convencer os eleitores de que representa esse espécime raro do bolsonarismo. O passado radical do governador de Goiás está mais longe que o do senador Flávio Bolsonaro, portanto ele terá vantagem ao tentar convencer o eleitorado de que reapresenta uma direita não radicalizada.

Não é à toa que o presidente Lula prefere que seu adversário principal seja um Bolsonaro, dando sequência à disputa de extremos que lhe dá vantagem. Em 2018, Jair Bolsonaro uniu a vontade do eleitorado de mudar de rumo ao fato de Lula estar na cadeia e não disputar a eleição. Além do mais, o então ex-presidente deixou para a undécima hora a indicação de Fernando Haddad como seu substituto, facilitando a vida de Bolsonaro.

Desta vez, não foi possível a Jair esticar a indicação até o final do prazo, pois havia em seu encalço o governador de São Paulo, preferido de setores da direita, enquanto Bolsonaro pai e seu grupo temiam sua “independência” do bolsonarismo. Mostrou-se acertada a escolha de Flávio para sucessor do movimento, embora não haja certeza de que, quando começar a ser atacado, seu telhado de vidro seja resistente o suficiente para garantir a competitividade. Se não for, abre-se um novo caminho na direita.

Em um ponto importante, Caiado tem vantagem, o programa de governo. Lula foi eleito em 2022 sem apresentar projeto, apoiou-se em sua imagem pública e nas realizações dos dois governos anteriores. Bolsonaro tentou a reeleição prometendo aprofundar o que havia feito no primeiro governo, e talvez isso tenha sido fundamental para perder, embora por pequena margem. O eleitorado de centro estava sob o impacto do governo belicoso anterior e temia que uma vitória nas urnas avalizasse a radicalização. Viu-se, depois, que o perigo era muito maior do que se supunha, pois estava em construção um golpe de Estado, não apenas a radicalização retórica.

Caiado, embora mais conhecido que os demais candidatos à Presidência, precisará expandir suas ideias nacionalmente e, para tal, terá de usar não apenas os sucessos que vem tendo no governo de Goiás, mas convencer o eleitorado de que soluções locais para problemas nacionais, como a segurança pública, são viáveis. Se não aparecerem novidades, terá outra vantagem, que também teriam o gaúcho Eduardo Leite e outros candidatos: não pesam sobre ele acusações de corrupção, que ajudam tanto o presidente Lula quanto o senador Flávio Bolsonaro a ter taxa de rejeição altíssima. Caiado começou sua campanha ressaltando a inexperiência do candidato do bolsonarismo. Terá de fazer mais.

 

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