Folha de S. Paulo
O personagem de Lula que falava aos pais e
avós já não exerce o mesmo fascínio sobre os filhos
Além disso, o PT perdeu o discurso da ética na política ao estrelar dois históricos escândalos de corrupção
Têm sido frequentes as notícias sobre a justificada preocupação do governo com o crescimento da oposição nas pesquisas de intenção de votos. Esse noticiário diz que no ambiente palaciano não se compreende as razões para tal e, de maneira contraditória, ao mesmo tempo ali se tenta emplacar a ideia de que a eleição pode ser resolvida no primeiro turno em favor de Lula (PT).
Ou bem esses autores querem enganar alguém ou
estão empenhados em enganar a si mesmos. Para fins de economia de argumentos,
destaquemos apenas dois pontos dessa alegada incompreensão.
Os governistas não entendem por que os
benefícios sociais e a retórica do presidente não têm o mesmo efeito de antes;
tampouco se conformam com o fato de escândalos de corrupção caírem
no colo do Planalto, sendo que gente do governo anterior teve participação até
maior.
Uma leitura desprovida de miopia deliberada
contribuiria para esclarecer as dúvidas. No primeiro caso, os leitores
compreenderiam que o personagem Lula cansou. Não renovou o texto nem a
cenografia de um repertório dos anos 1980 que passou por algumas adaptações,
mas vende o mesmo na essência: a saga do migrante vindo do Nordeste, que viu no
sindicalismo uma oportunidade e venceu como presidente da República.
O protagonista fala a linguagem do povo
simples, compreende suas dificuldades porque já sofreu com elas. Ignora,
contudo, que essa conversa colava com os pais (quiçá, os avós), mas não
emociona os filhos mais interessados em se afastar desse tipo de identificação.
No capítulo dos escândalos, o descolamento só
seria possível se não houvesse ninguém da atual gestão enroscado no Banco Master e
nas fraudes do
INSS, e caso os hoje oposicionistas já não tivessem sido aliados de
governos do PT. Ajudaria também se o partido não tivesse estrelado o mensalão e
o petrolão e,
com isso, perdido o tal do lugar de fala da época em que pregava a ética da
política.
Como se vê, não é um mistério difícil de se
desvendar. Basta querer enxergar para compreender.

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