terça-feira, 3 de março de 2026

Lula tropeça e abre espaço para o adversário, por Dora Kramer

Folha de S. Paulo

A conferir se as pesquisas registram uma tendência ou só captaram um momento ruim para o governo

Seja como for, presidente perdeu a aura de imbatível e deve a isso à ação do ego inflado, seu pior inimigo

Aguardemos as próximas pesquisas para conferir se as primeiras depois do desastroso Carnaval apontaram uma tendência ou se apenas captaram um mau momento para o governo.

Seja como for, um dado é inquestionável: Luiz Inácio da Silva (PT) perdeu a aura de imbatível e pode perder o lugar de favorito habitualmente reservado aos ocupantes do poder. Escrita quebrada na derrota de Jair Bolsonaro, em 2022, e sinal de que o instituto da reeleição não tem taxa de sucesso garantido.

É cedo para constatações definitivas, mas o cenário traz de volta a questão sobre a permanência do presidente na disputa, dúvida afastada por ele mesmo depois que os erros dos adversários no ambiente do tarifaço lhe deram a chance de recuperação.

A oportunidade pode, ou não, ter sido perdida no embalo da bajulação afrontosa na Sapucaí. Ali houve de fato um desperdício, cuja extensão está para ser demonstrada, a depender de vários fatores, sendo o principal o comportamento de Lula.

Ele é bom no quesito volta por cima, mas tem no ego inflado um inimigo. O excesso de autoconfiança faz mal à análise da conjuntura e favorece o autoengano. O presidente tem de si uma imagem que não é a mesma projetada nas lentes de metade da população.

Não vivesse a ilusão da quase unanimidade de anos atrás, Lula teria tido ao menos alguma desconfiança de que o candidato e o presidente deveriam brincar separados no ambiente transgressor do Carnaval.

Antes disso, a suposição de que está acima das críticas já havia levado o presidente a agir ao arrepio da lei, que veda ao governante o uso do aparelho de Estado, patrimônio público, em prol do interesse individual. No caso, eleitoral. O episódio do desfile chamou atenção para o que até então era tratado na base da cegueira deliberada e ainda contrariou setores que precisariam ser conquistados.

Resultado: recuou casas na escala de intenção de votos e cedeu espaço ao adversário. Só por achar que estava abafando e, como vemos, não é bem assim.

 

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