Folha de S. Paulo
Trump tenta reproduzir no Irã fórmula usada
na Venezuela
País persa coloca cenário muito mais incerto
e desafiador
A psicologia infantil é uma ferramenta útil para entender Donald Trump. Uma de suas características marcantes, conhecidas já desde o primeiro mandato, é que ele com frequência se deixa convencer pela última pessoa com a qual conversou. Nos tempos em que ainda havia assessores republicanos adultos tentando contê-lo, a ordem era nunca deixar que integrantes do Team Crazy (turma dos malucos) fossem os últimos a sair do salão oval.
Algo parecido vale para ações
militares. Trump decide lançá-las ou não com base nos resultados da
última intervenção. Ainda inebriado
pelo que considera sucesso venezuelano, o Agente Laranja foi para
cima do Irã na
esperança de obter algo parecido. Ele parece estar em busca de uma Delcy Rodríguez persa,
que seria o melhor modo de cumprir seus objetivos sem ter de despachar soldados
americanos para ocupar o solo nem precipitar o país numa guerra civil.
Não digo que esse seja um desfecho
impossível. Se as lideranças iranianas remanescentes quiserem manter suas vidas
e privilégios, acertar-se com Trump é o melhor caminho. Mas são tantas e tão
grandes as diferenças entre o Irã e a Venezuela que
é preciso ou excesso de fé ou falta de visão geopolítica para achar que um
resultado semelhante seja o cenário mais provável. Para começar, no caso do
país caribenho, os indícios são de que, quando Trump ordenou o ataque, já
estava tudo previamente acertado entre Washington e Caracas. No caso do Irã,
não há nada combinado.
Na Venezuela, a ideologia bolivariana não era
mais do que uma camada de verniz; no Irã, as bases teocráticas do regime são
bem mais sólidas. Não são poucos os agentes que sacrificariam esta vida por um lugar
na "jannah", o paraíso islâmico. No mais, o Irã fica no Oriente Médio,
onde crises se espalham para múltiplos países e minorias transnacionais. EUA
e Israel abriram
uma caixa de Pandora.
Minha impressão é que o último a conversar
com Trump foi Netanyahu.
A guerra interessa muito mais ao premiê israelense do que ao presidente
americano.
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