terça-feira, 3 de março de 2026

A última conversa, por Hélio Schwartsman

Folha de S. Paulo

Trump tenta reproduzir no Irã fórmula usada na Venezuela

País persa coloca cenário muito mais incerto e desafiador

A psicologia infantil é uma ferramenta útil para entender Donald Trump. Uma de suas características marcantes, conhecidas já desde o primeiro mandato, é que ele com frequência se deixa convencer pela última pessoa com a qual conversou. Nos tempos em que ainda havia assessores republicanos adultos tentando contê-lo, a ordem era nunca deixar que integrantes do Team Crazy (turma dos malucos) fossem os últimos a sair do salão oval.

Algo parecido vale para ações militares. Trump decide lançá-las ou não com base nos resultados da última intervenção. Ainda inebriado pelo que considera sucesso venezuelano, o Agente Laranja foi para cima do Irã na esperança de obter algo parecido. Ele parece estar em busca de uma Delcy Rodríguez persa, que seria o melhor modo de cumprir seus objetivos sem ter de despachar soldados americanos para ocupar o solo nem precipitar o país numa guerra civil.

Não digo que esse seja um desfecho impossível. Se as lideranças iranianas remanescentes quiserem manter suas vidas e privilégios, acertar-se com Trump é o melhor caminho. Mas são tantas e tão grandes as diferenças entre o Irã e a Venezuela que é preciso ou excesso de fé ou falta de visão geopolítica para achar que um resultado semelhante seja o cenário mais provável. Para começar, no caso do país caribenho, os indícios são de que, quando Trump ordenou o ataque, já estava tudo previamente acertado entre Washington e Caracas. No caso do Irã, não há nada combinado.

Na Venezuela, a ideologia bolivariana não era mais do que uma camada de verniz; no Irã, as bases teocráticas do regime são bem mais sólidas. Não são poucos os agentes que sacrificariam esta vida por um lugar na "jannah", o paraíso islâmico. No mais, o Irã fica no Oriente Médio, onde crises se espalham para múltiplos países e minorias transnacionais. EUA e Israel abriram uma caixa de Pandora.

Minha impressão é que o último a conversar com Trump foi Netanyahu. A guerra interessa muito mais ao premiê israelense do que ao presidente americano.

 

 

 

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