terça-feira, 2 de junho de 2026

O que a mídia pensa | Editoriais / Opiniões

Uso de criptoativos por criminosos requer atenção

Por O Globo

Operações contra finanças do PCC descobriram esquemas sofisticados de lavagem de dinheiro e golpes digitais

As operações recentes contra o Primeiro Comando da Capital (PCC), maior organização criminosa do Brasil, expuseram como o avanço da digitalização financeira abre espaço a novos crimes, permite integração à economia formal e cria inúmeras oportunidades para lavar o dinheiro resultante das atividades criminosas, como demonstrou reportagem do GLOBO. A transformação progressiva no perfil dos crimes — de assaltos e violência nas ruas para golpes digitais — tem pressionado o sistema de segurança pública e órgãos reguladores e de fiscalização, como o Banco Central (BC) e a Comissão de Valores Mobiliários. Entre os recursos empregados pelos criminosos, tem se destacado o uso crescente de criptoativos.

Os limites da reação do México aos EUA e as lições para o Brasil, por Maria Cristina Fernandes

Valor Econômico

Discurso soberanista de Claudia Sheinbaum é movido pela política doméstica, assim como o de Lula

“O México não é saco de pancadas de ninguém”. Ao comemorar os dois anos de sua eleição, neste domingo, Claudia Scheinbaum deixou sua decantada moderação de lado e partiu pra cima dos EUA no seu discurso mais duro desde a posse. “Será que estamos vendo como setores da ultradireita americana usam nosso país para se posicionar em suas eleições de 2026? Ou acaso pretendem influir nas eleições de 2027 em nosso país?”, indagou. “Quando se normaliza a ideia de que outro país pode intervir em assuntos que só dizem respeito aos mexicanos, já não estamos falando de cooperação, mas de ingerência”.

O Brasil só aprende pela dor, por Luiz Schymura*

Valor Econômico

Nenhum dos candidatos competitivos à eleição deste ano sinalizou disposição de apresentar, no primeiro ano de governo, um programa estruturado de contenção de gastos

Se alguém sobrepuser a linha do tempo das reformas fiscais brasileiras aos momentos de deterioração econômica - inflação elevada, desemprego em alta, recessões -, encontrará um padrão inequívoco: o país não reforma quando pode; reforma quando não tem alternativa. Não há episódio relevante de ajuste estrutural aprovado em ambiente de prosperidade. Todos nasceram da crise. No Brasil, a disciplina fiscal raramente é escolha deliberada; é, quase sempre, reação tardia a uma realidade que se impõe.

Entre Keynes e Leão XIV, por Luiz Gonzaga Belluzzo

Valor Econômico

Entre o maior economista do século XX e Leão XIV há mais do que afinidades ocasionais

“Devemos abandonar os falsos princípios morais que nos conduziram nos últimos dois séculos. Eles colocaram as características humanas mais desagradáveis no lugar das mais elevadas virtudes. Não há nenhum país, nenhum povo que possa vislumbrar a era do tempo livre e da abundância sem um calafrio [...]. Pois fomos educados para o esforço aquisitivo e não para fruir [...]. Se avaliarmos o comportamento e as realizações das classes abastadas de hoje, as perspectivas são deprimentes [...]. Os que dispõem de rendimentos diferenciados, mas não têm deveres ou laços, falharam, em sua maioria, de forma desastrosa no encaminhamento dos problemas que lhes foram apresentados”. Assim escreveu John Maynard Keynes, em 1930, no ensaio “Possibilidades Econômicas de Nossos Netos”.

A advertência de Keynes não era apenas econômica. Era moral, histórica e civilizatória. O economista de Cambridge percebia que o capitalismo moderno havia convertido a acumulação em finalidade suprema da existência humana. As paixões menos nobres - a cobiça, o medo, a competição desenfreada, o desejo ilimitado de riqueza - deixaram de ser vícios tolerados para se transformarem em virtudes públicas. A sociedade moderna foi educada para o esforço aquisitivo, não para a fruição da vida, para a convivência comunitária ou para a realização espiritual do homem.

O poder do dinheiro, por Merval Pereira

O Globo

Sendo ou não o chefão, Vorcaro terá de assumir esse papel, ou designar o chefão por trás dele, para que sua delação premiada seja homologada.

Tudo indica que o caso Master provocará no terreno fértil da política brasileira o mesmo efeito que uma chuva persistente tem numa área íngreme: levará por água abaixo, com seu protagonista visível, o ex-banqueiro Daniel Vorcaro, boa parte de nossas estruturas institucionais, que apenas fingem funcionar, mas na verdade servem de fachada para que o compadrio continue prevalecendo na nossa sociedade. Escrevo “protagonista visível” porque cresce a desconfiança de que Vorcaro era apenas o lobista político do grupo criminoso que provocou o maior rombo da história financeira do país.

A economia tem diversos ângulos, por Míriam Leitão

O Globo

“O próximo governo, seja qual for, terá o desafio de segurar o crescimento do gasto. E o Congresso terá que entender isso’, diz Mansueto Almeida, do BTG

A economia não é simples. Nem sempre o indicador tem apenas um ângulo. Como o IBGE mostrou na semana passada, houve crescimento no primeiro trimestre, só que daqui para a frente cada trimestre será mais fraco do que o anterior. Há outros dados que precisam ser vistos por diversos lados. A dívida pública subiu, mas o déficit primário caiu durante o governo Lula. A guerra do Irã piorou o cenário econômico. Contudo, por causa do conflito, o saldo comercial do petróleo será de R$ 45 bilhões, uma das razões para o real ser a moeda que mais se valorizou no mundo. O crescimento das despesas foi forte neste início de 2026, porém não apenas no governo federal.

Eleição é chance para mudar triste política do Rio, por Fernando Gabeira

O Globo

É preciso eleger alguém que compreenda o potencial do Rio e queira fazer algo decente por um estado que vem sendo saqueado ao longo do tempo

Quem mora no Rio e não pensa em se mudar precisa considerar a possibilidade que se abre de abolir a triste tradição de ver os governadores saindo do Palácio Guanabara para a cadeia.

As eleições nos dão uma chance, talvez a única, de nos livrarmos desse tipo de governo. É preciso eleger alguém que compreenda o potencial do Rio e queira também fazer algo decente por um estado que vem sendo saqueado ao longo do tempo.

Conhecendo (bem) o Brasil, por Eliane Cantanhêde

O Estado de S. Paulo

O Brasil que muita gente conhece, mas o ‘Dark Horse’ dos Bolsonaro não conta

Essa gente é realmente criativa, muito engenhosa, tanto para botar a mão no dinheiro, seja público, seja sujo, quanto para disfarçar a sua trajetória e, no fim das contas, negar o seu destino. Entram, nessas operações, resorts, contratos, filmes, ONGs, bancos, empresas fantasmas, laranjas, fundos de pensão e, numa frequência assustadora, emendas parlamentares.

Um exemplo fresquinho une dois personagens curiosos: Mário Frias, deputado do PL, ex-secretário de Cultura no governo Bolsonaro e produtor executivo e roteirista do filme Dark Horse, e Karina Ferreira da Gama, sócia da produtora Go Up, responsável pelo filme, e dona de uma ONG com o sugestivo nome de Instituto Conhecer Brasil (ICB). Conhece mesmo!

Há problemas e há soluções, por Jorge J. Okubaro

O Estado de S. Paulo

Boas escolhas podem levar ao avanço das condições de vida e dos indicadores econômicos e sociais, ainda que muitas mazelas persistam

O êxito com que certos brasileiros, em viagem político-eleitoral ao exterior ou ali homiziados, agem contra o Brasil chega a dar a sensação de que este país está sem rumo e não parece preocupado em reencontrá-lo. Alguns até desejam, sem compreender a extensão dos riscos à segurança institucional e à soberania nacional de seus desejos, que potências estrangeiras invadam o País para resolver problemas que, na sua opinião, os brasileiros não sabem resolver.

Avanços econômicos ou sociais nunca serão suficientes para parte da população que parece descrente do futuro do Brasil. A qualquer melhora, sempre será possível contrapor um fato negativo, um dado ruim, uma situação precária que a desminta ou a torne quase nada. E aos descrentes, ou aos que querem semear a descrença, argumentos, de fato, não faltam. Mas essa não é a única maneira de enxergar o mundo.

Passo certo, bons resultados, por Paulo Hartung*

O Estado de S. Paulo

Apesar de desafiador quadro internacional, abrem-se oportunidades para o Brasil 

Em tempos de tantos desarranjos e incertezas, tive a oportunidade de revisitar a história recente do Brasil e refletir sobre êxitos que podem servir de inspiração no enfrentamento de nossos desafios atuais. A convite de Celso Lafer e Sergio Fausto, dois nomes que qualificam o debate público, participei do Ciclo de Debates “O Brasil na Visão das Lideranças Públicas”, da Fundação FHC, para discutir o cenário político e econômico brasileiro diante do atual panorama internacional. Falei de um mundo convulsionado que, não obstante, nos enseja muitas oportunidades. Citei justas indignações de nossa sociedade, mas também exemplos concretos de um Brasil que deu certo, os quais devem iluminar o caminho neste momento tortuoso. A palestra está disponível no canal da fundação no YouTube.

Escala 6 X 1: não estamos falando apenas de horas de trabalho, por Giuliana Franco Rodrigues*

Correio Braziliense

O Brasil envia uma mensagem clara para o mercado e o ambiente internacional em que a produtividade não pode mais caminhar separada do bem-estar do trabalhador?

O fim da escala 6x1 foi aprovado pela Câmara. Em breve, será uma realidade no papel. Essa votação expressiva (472 votos no primeiro turno, 461 no segundo) não foi uma maioria, mas um consenso. E quem acompanha o Congresso sabe que esses consensos são uma resposta à pressão social que o sistema político finalmente não pôde ignorar, especialmente em ano eleitoral. 

Essa proposta de emenda constitucional (PEC) estava pendente desde 2019, ressurgindo quando a deputada Erika Hilton (PSol-SP) apresentou a PEC 8/2025, prevendo uma escala 4 X 3, e alimentou o debate nas redes sociais, passando da esfera sindical para uma discussão sbre a qualidade de vida da população. 

Renan Santos e a revolta dos lascados da direita, por Juliano Spyer

Folha de S. Paulo

Líder do partido Missão e do MBL tem 6,9% das intenções de voto no primeiro turno

Ele traz o DNA da nova direita de dizer o que pensa

Neste ano, um nome ainda desconhecido da maioria dos brasileiros roubou o protagonismo de Lula e Flávio Bolsonaro. Se sobreviver à campanha, Renan Santos, líder do partido Missão e do MBL, terá se tornado um político influente —e talvez presidente da República.

Renan defende causas impopulares, mas o caso Master abriu para ele uma avenida de oportunidades para se apresentar ao eleitor.

Um banqueiro vive como príncipe, tendo desviado R$ 60 bilhões e aliciado para a operação aliados nos três Poderes. Enquanto isso, o país se vê travado pela polarização, há uma sensação geral de insegurança e milhões de brasileiros recorrem a aplicativos de transporte e entrega para trabalhar.

Trump e os Bolsonaro vão ajudar Lula de novo? Por Joel Pinheiro da Fonseca

Folha de S. Paulo

Flávio Bolsonaro identificou que endurecimento no combate ao crime é ponto fraco de Lula

Consequências de classificação de CV e PCC como terroristas dependerão de governo Trump

Em julho de 2025, depois de lobbying de Eduardo Bolsonaro, o governo Trump anunciou um tarifaço de 50% contra o Brasil bem como sanções contra autoridades brasileiras. No momento do anúncio, Eduardo Bolsonaro comemorou efusivamente. Dias depois, já estava claro que o ato de agressão contra o Brasil não era positivo, e sim embaraçosamente negativo para seu grupo.

Em maio de 2026, depois de lobbying de Flávio Bolsonaro, o governo Trump anuncia que passará a designar PCC e CV como organizações terroristas. Flávio e seus colegas celebram efusivamente. A pergunta se impõe: estaremos diante de outro erro bolsonarista?

Políticos têm um olho em 2026 e outro em 2030, por Dora Kramer

Folha de S. Paulo

Última eleição de Lula incentiva centro-direita a reeditar frente ampla para barrar avanço bolsonarista

Fim do ciclo do PT e reinício da era Bolsonaro pautam decisões dos independentes à direita e à esquerda

Se é precipitado fazer apostas definitivas sobre o resultado da eleição presidencial que acontecerá daqui a quatro meses, soa a temeridade mergulhar em projeções sobre o cenário de 2030.

No entanto, é exatamente o que já se faz no mundo político, levando em conta dois fatores: o fim do ciclo de êxitos do PT e a longevidade da era de influência da franquia Bolsonaro no poder central.

Imoralidade tributária, por Hélio Schwartsman

Folha de S. Paulo

É preocupante a aprovação, na Câmara, de PEC que amplia imunidade de igrejas a impostos

Entidades assistenciais ligadas a templos e que concorrem com iniciativa privada também seriam beneficiadas

O Brasil não vai dar certo. Falta-nos o sentido de comunidade. Se um dia já circulou por aqui a ideia de que os custos para a manutenção do Estado precisam ser divididos de forma mais ou menos equânime entre todos, pessoas e instituições, essa é uma noção que foi abandonada.

Mais um eloquente exemplo disso foi dado pelos deputados na semana passada, quando aprovaram uma emenda constitucional que amplia para níveis absurdos a imunidade tributária das igrejas. Pela PEC, que ainda precisa passar pelo Senado, o poder público fica impedido de cobrar impostos sobre tudo o que elas possuem, pelos serviços que contratam e até por itens que consomem. É isso mesmo, templos não pagariam um centavo de imposto seja sobre os jatinhos que compram para espalhar a palavra de Deus, seja sobre a comida com que saciam a fome de seus ministros, do pão ázimo ao caviar.

O repórter que descobre qualquer coisa, até vaca falante, por Alvaro Costa e Silva

Folha de S. Paulo

Livro narra trajetória de Luarlindo Ernesto, do auge da imprensa marrom ao caráter investigativo de hoje

Aos 82 anos, ele é capaz de desvendar o mistério do dinheiro investido no filme "Dark Horse"

No romance "O Piano e a Orquestra", de Carlos Heitor Cony, o narrador está obcecado por uma vaca. Uma vaca que fala em perfeito francês: "À votre service".

Ele só a encontrara uma vez, empacada no meio da estrada, e gostaria de revê-la e mergulhar de novo na doce alucinação. Só uma pessoa no mundo poderia ajudá-lo: o repórter policial Luarlindo, cuja fama era saber de tudo e ser capaz de descobrir qualquer coisa. Em troca de alguns chopes, o jornalista dá o serviço. A vaca se escondia no bairro do Lins de Vasconcelos, na zona norte do Rio de Janeiro.

Ernst Bloch, utopia e ideologia, por Thomas Amorim*

Portal A terra é redonda

Uma defesa da função utópica no pensamento marxista a partir de Ernst Bloch, demonstrando que a esperança é uma capacidade cognitiva orientada para o “ainda-não-ser” do mundo

1.

Em suas origens, o materialismo histórico censurou o utopismo como produto ideológico, como idealismo sobre a construção da harmonia social a despeito da compreensão do sistema econômico, dos interesses antagônicos e da luta de classes. O ideal, a fé na razão e o otimismo de Henri de Saint-Simon, Joseph Fourier e Robert Owen eram cegos para a inércia de uma sociedade replicadora insaciável.

Com justiça, Karl Marx e Friedrich Engels buscaram contrapor essa ingenuidade iluminista à compreensão das determinações concretas que constituíam as leis férreas de um sistema capitalista capaz, afinal, de mantê-lo em funcionamento até os dias de hoje, não importando todos os projetos bem-intencionados que tenham se contraposto a ele no curso dos últimos dois séculos.

Mas o risco de abandonar a projetividade e a especulação utópica é recair no fatalismo, na adesão resignada ao curso mecânico do mundo. No século XX, tal “realismo” concorreu para os sucessivos desastres do pragmatismo de esquerda, como a capitulação da socialdemocracia europeia ao social-chauvinismo e a conivência de parte da esquerda com os gulags. Desde as Teses Sobre Feuerbach, Karl Marx não gostaria de suprimir o ideal em favor do material, mas de compreender ambos como parte da “atividade sensível humana”, pois “a discussão sobre a realidade ou não realidade de um pensamento que se isola da práxis é uma questão puramente escolástica”.[i]

Poesia | Carlos Pena Filho - Circuito da Poesia do Recife

 

Música | Gal Costa - As rosas não falam (Cartola)