Decisão do Supremo sobre ‘penduricalhos’ foi frustrante
Por O Globo
Apesar de criar regra objetiva, Corte agiu
corporativamente, preservou distorções e recriou regalia extinta
É até possível enxergar méritos na decisão do Supremo Tribunal Federal (STF) que tenta disciplinar as verbas indenizatórias que inflam os supersalários de juízes e procuradores, popularmente conhecidas como “penduricalhos”. Ao menos, ela estabelece critérios objetivos para regular os auxílios que proliferam sem controle e extingue algumas barbaridades. Mas é evidente que o resultado, a pretexto de corrigir as distorções, preserva um sistema de remuneração iníquo e injusto.
As novas regras são frustrantes, sobretudo
depois das liminares rigorosas dos ministros Flávio Dino e Gilmar Mendes sobre
o tema, da criação de um grupo de trabalho com representantes dos três Poderes,
de audiências públicas e manifestações da sociedade civil. Esperava-se medida
mais eficaz contra os supersalários. Sem conseguir impor o teto constitucional,
a Corte agiu corporativamente e preferiu ampliar o teto, avalizando o que tanto
se criticava. Perdeu-se a chance de enfrentar o problema de modo sensato.
Pelo que foi estabelecido de forma unânime,
criou-se um novo teto para a remuneração: a soma das verbas indenizatórias não
poderá exceder em 70% o valor estipulado na Constituição (R$ 46,4 mil, salário
de um ministro do STF). Na prática, as regras elevam o teto a R$ 78,9 mil.
Metade do excesso passa a ser autorizada para auxílios de toda sorte,
eliminando apenas os mais escandalosos (vale-peru, concessão em dinheiro do
equivalente a um dia de folga para três de trabalho, remuneração de curso no
exterior etc.).
A maior aberração está no resto do excesso
autorizado — 35% do teto —, que poderá ser concedido na forma de Adicional por
Tempo de Serviço, o famigerado quinquênio, promoção automática a cada cinco
anos sem relação com mérito, regalia extinta pelo Congresso há 20 anos. Foi
também autorizada a conversão em dinheiro de 30 dias de férias anuais, na
prática um décimo quarto salário. Outros “penduricalhos” foram mantidos fora do
teto (auxílio-saúde, abono previdenciário e gratificação por acúmulo de função
eleitoral). Tudo isso cria brechas para que ele volte a ser furado. E os
“penduricalhos” ficam isentos de Imposto de Renda e contribuição
previdenciária.
É verdade que o teto é sistematicamente
desrespeitado — a média de remuneração dos magistrados está em torno de R$ 95
mil mensais. Segundo o Supremo, a previsão é de economia de R$ 7,3 bilhões por
ano. Mas esse número está superestimado, na avaliação do cientista político
Sérgio Guedes-Reis, pesquisador da Universidade da Califórnia. Só de
auxílio-saúde e abono-permanência, os gastos apenas com juízes superaram R$ 1
bilhão no ano passado. “Seria viável que quase um terço dos magistrados
ganhasse quase R$ 90 mil de forma legal, de acordo com as novas regras”, diz
ele. “O Supremo legalizou o salário de R$ 1 milhão por ano.”
Juízes brasileiros, diz ele, continuarão a
receber mais que seus pares em países como Estados Unidos, México, Argentina ou
Portugal. Preocupa ainda que a decisão abra brecha para outras categorias
reivindicarem o mesmo tratamento. Ao menos, o Supremo teve o bom senso de
considerá-la provisória. Não cabe mesmo à Corte legislar sobre o tema, ainda
que tenha sido instada a agir ante a omissão do Congresso. Infelizmente,
manteve distorções inaceitáveis. Diante disso, é urgente que deputados e
senadores regulamentem os “penduricalhos” incorporando os acertos do STF e
anulando as aberrações.
Crise financeira das empresas reforça
necessidade de ajustar contas públicas
Por O Globo
Enquanto não houver equilíbrio fiscal, juro
alto contribuirá para mais endividamento das corporações
Não faltam análises sobre os efeitos nocivos
da alta taxa de juros no endividamento público e na inadimplência das famílias.
A saúde financeira das empresas também sofre com o dinheiro mais caro. No ano
passado, 80 companhias entraram com pedidos de recuperação extrajudicial, um
recorde (quase sete vezes os pedidos feitos em 2020). De janeiro para cá, foram
quase dez. Sempre haverá empresas em dificuldade por falhas de gestão. Mas,
quando a quantidade se avoluma nessa magnitude e se espalha por vários setores,
é razoável suspeitar de causa estrutural. Num ambiente hostil em que o juro
segue nas alturas por tempo prolongado, dívidas corporativas disparam e
comprimem o caixa. Mais uma razão para o governo rever sua política
expansionista de gasto, que mina a confiança, pressiona a inflação e força o
Banco Central a manter os juros no alto.
Como
mostrou reportagem do GLOBO, o endividamento das grandes companhias
não para de crescer. Uma amostra com 129 empresas dá a dimensão do problema. Em
2020, elas somavam uma dívida de R$ 1,12 trilhão. Em cinco anos, o montante
cresceu 53%, para R$ 1,71 trilhão, segundo levantamento da Elos Ayta
Consultoria. Mesmo no competitivo setor do agronegócio tem havido sinais de
alerta. Os pedidos de recuperação judicial chegaram perto de 2 mil no ano
passado, crescimento de 56% ante 2024. “A recuperação extrajudicial se tornou a
alternativa natural para empresas que ainda mantêm condições de negociação com
seus principais credores, têm algum fluxo de caixa, mas precisam de um tempo para
estruturar esse processo”, diz Brenno Mussolin Nogueira, do Rayes e Fagundes
Advogados.
Mesmo com a expansão da economia acima do
previsto, muitas companhias não conseguiram encontrar o equilíbrio. Do setor de
saúde ao siderúrgico, várias enfrentam dificuldades. O índice que mede a capacidade
das empresas médias listadas em Bolsa de pagar o custo de suas dívidas segue
preocupante. Não é coincidência que, no período de cinco anos, a taxa básica de
juros tenha subido de 2% para 15%. O corte recente para 14,75% não muda o
cenário. Desde fevereiro de 2022, o Brasil tem uma Selic de dois dígitos. O
juro real — descontada a inflação — está entre os três mais altos do planeta.
“O choque dos juros no Brasil é sistêmico, mas o grau de impacto em cada
companhia depende da estrutura de capital e da eficiência da operação”, diz
Rodrigo Gallegos, sócio da consultoria RGF, especialista em reestruturação. A
Selic perto de 15%, diz ele, representa 18% a 30% para quem empresta dinheiro,
em virtude do spread bancário.
E não há garantia de queda significativa no futuro. Se o endurecimento da política monetária desde 2020 tivesse ocorrido em período de corte de impostos, a pressão sobre o caixa das empresas teria sido menor. Mas aconteceu o oposto. A carga tributária equivalia a 31,2% do Produto Interno Bruto em 2022, no atual governo aumentou para 32,3%. Não há sinal mais eloquente da necessidade de mudança na política fiscal.
Como a guerra pode afetar a economia global
Por Folha de S. Paulo
Com desfecho mais rápido do conflito,
projeta-se mais 0,8 ponto percentual de inflação e menos 0,5 de PIB
Em caso de petróleo acima de US$ 100 por mais tempo, o mundo se aproximaria de um quadro recessivo
A escalada da guerra no Irã eleva
sobremaneira os riscos para a economia mundial.
Desde o início de março, está interrompida
boa parte do fluxo de cerca de 20% do petróleo e
do gás natural
liquefeito (GNL) consumidos no planeta.
Como resultado, os preços do barril Brent
dispararam para acima de US$ 100 no pior momento —alta de quase 50% desde o
início do conflito iniciado por Estados
Unidos e Israel.
Insumos químicos, fertilizantes e produtos petroquímicos que dependem da rota
também ficaram retidos.
Ao mesmo tempo, ataques iranianos danificaram
infraestrutura energética na região. A produção de gás natural foi reduzida de
forma significativa, ampliando o choque para a geração de energia e para
indústrias que dependem do gás como matéria-prima.
Num cenário de interrupção mais duradoura do
fluxo, haveria uma elevação ainda maior dos preços, com o esgotamento de
reservas estratégicas e estoques comerciais. Nesse caso, além da destruição de
demanda provocada pelo encarecimento, o perigo é o desabastecimento.
O Brasil já sente o problema no cotidiano.
Como os preços domésticos de diesel e gasolina permanecem abaixo da paridade
internacional, as importações foram reduzidas sensivelmente neste mês.
Agricultores enfrentam custo maior de frete e risco de falta de combustível.
Os cenários para o preço do petróleo ilustram
a diferença entre choque administrável e uma crise maior. Por ora, a curva de
futuros do Brent ainda projeta queda para cerca de US$ 80 o barril no segundo
semestre —um choque que seria moderado ao final.
Já no cenário mais adverso, com danos
duradouros à infraestrutura e ao fluxo de petróleo, o Brent pode ficar acima de
US$ 100 boa parte do ano.
Para a economia mundial, no primeiro caso, a
alta de energia adiciona 0,8 ponto porcentual à inflação global
nos próximos 12 meses e reduz o crescimento do PIB mundial
em até 0,5 ponto, segundo estimativas como as do Goldman Sachs. No cenário
adverso, os impactos sobem para 2 pontos na inflação e redução de 1 a 1,5 ponto
no crescimento, na prática um quadro recessivo.
Até aqui, o maior reflexo nos mercados financeiros
foi nos juros.
As expectativas de cortes nos EUA e na Europa foram revistas. O mesmo ocorre no
Brasil, agora com menor projeção de alívio monetário. A esperança de um
desfecho em breve da guerra ainda mantém positiva a perspectiva para a
atividade econômica.
Mas o prazo para que as condições piorem não
é longo. Negociações,
aparentemente, estão em curso. O americano Donald Trump tem
pressa diante do impacto nos mercados e da proximidade das eleições
legislativas em que se arrisca a perder a maioria em ambas as Casas; o Irã lida
com custos crescentes.
Reabrir o fluxo de energia, ainda que em
condições precárias, é condição necessária para afastar o risco recessivo
global.
Enfrentamento da violência sexual passa pela
escola
Por Folha de S. Paulo
Pesquisa aponta que, em cinco anos, total de
estudantes forçados a ter relação no país saltou de 6,3% para 8,8%
Não falar sobre sexo seguro é uma forma não
de protegê-los, mas de acobertar os casos de violência
Mais de 1,1 milhão de adolescentes entre 13 e
17 anos dizem já ter sido forçados a
ter relação sexual no Brasil. O número representa 8,8% dos
estudantes na PeNSE (Pesquisa Nacional de Saúde Escolar), divulgada na
quarta-feira (25) pelo IBGE e
realizada em 2024.
O dado expõe a extensão da violência sexual
contra adolescentes no país; em 2019, o percentual era 2,5 pontos menor (6,3%),
o que indica uma trajetória preocupante nos relatos de abusos.
Trata-se de pesquisa de fôlego. O IBGE
coletou, de forma sigilosa, dados de mais de 118 mil estudantes de escolas
públicas e privadas em 1.282 municípios.
Há disparidades significativas: a violência
foi mais comum
entre meninas (11,7%) do que entre meninos (5,8%); o índice é
maior em escolas públicas (9,3%) que na rede privada (5,7%); e é mais elevado
na região Norte (11,7%).
Ao contrário dos que pregam visões
obscurantistas sobre o tema, a escola tem um papel fundamental na prevenção e
encaminhamento de casos de violência sexual contra adolescentes.
A maior parte dos registros ocorreu quando os
alunos tinham 13 anos ou menos (66,2%), e em sua maioria os agressores eram
conhecidos das vítimas, como um familiar (35,5%) ou namorado(a) ou ex (22,6%).
Seja pela idade, seja pela proximidade do abusador, é de esperar que jovens
encontrem na escola um dos poucos espaços para relatar os casos.
Sabe-se que a violência sexual é um tipo de
crime que, em geral, sofre de subnotificação. Logo, o alto número reportado
preocupa ainda mais porque, de acordo com os pesquisadores, muitos desses casos
nem sequer foram denunciados à Justiça.
É fundamental, pois, que escolas e outros
mecanismos de proteção a crianças e adolescentes, como conselhos tutelares,
tenham papel ativo em orientação, prevenção e encaminhamento de casos de
violência sexual.
O Brasil, contudo, parece caminhar no sentido
contrário. Entre 2019 e 2024, houve queda dos que relatam ter recebido orientações
sobre sexo seguro nas escolas.
Menos alunos disseram em 2024 ter sido
instruídos sobre como prevenir gravidez (de 75,5% para 66,7%) e infecções
sexualmente transmissíveis (de 82,1% para 71,4%). Os que contaram ter recebido
preservativos gratuitos caíram de 67,6% para 56,1%.
Esse aparente retrocesso merece investigação. Não falar sobre sexo seguro nos estabelecimentos de ensino, em conteúdos apropriados para cada idade, é uma forma não de proteger crianças e adolescentes, mas de acobertar os casos de violência.
A urgência de um projeto nacional sólido
Por O Estado de S. Paulo
Candidatura de centro fracassará de saída se
se deixar aprisionar pelos interesses do bolsonarismo. É urgente uma proposta
genuinamente democrática e que olhe com seriedade para o futuro
Estamos acompanhando nos últimos dias a
entediante novela da escolha do candidato do PSD à Presidência da República. Em
razão dos prazos eleitorais, estamos prestes a saber quem será o ungido de
Gilberto Kassab, se o governador do Rio Grande do Sul, Eduardo Leite, ou o
governador de Goiás, Ronaldo Caiado – o terceiro postulante nessa disputa, o
governador do Paraná, Ratinho Jr., tido como favorito de Kassab e mais bem
colocado nas pesquisas, desistiu em razão de problemas políticos paroquiais a
administrar. Quem quer que vá para a disputa, no entanto, já sabe que terá
chances remotíssimas ante a cada vez mais cristalizada polarização entre o
presidente Luiz Inácio Lula da Silva e o senador Flávio Bolsonaro. Ainda assim,
ou talvez até por isso mesmo, qualquer candidatura alternativa de centro
precisa se diferenciar decisivamente de Lula e Bolsonaro, que não disputam a
eleição senão para satisfazer seus projetos pessoais de poder.
E essa diferenciação se dá justamente na
oferta de um projeto factível e sólido de país, conduzido com base no diálogo
com diferentes forças. Essa oferta pode não ser capaz de ganhar a eleição, mas
ao menos deixará claro que há no País quem queira recuperar a capacidade de
fazer política – longe do embate estéril entre as duas forças retrógradas que
ora engessam o Brasil – e de pensar nas gerações futuras. Seria um ganho enorme
para os brasileiros.
Coube ao governador gaúcho chamar a atenção
para isso, em entrevistas recentes, nas quais procurou se diferenciar de seu
concorrente goiano. Se é Eduardo Leite quem encarna esse ideal, ainda
saberemos, mas ele merece ser ouvido quando diz que é preciso construir uma
candidatura capaz de escapar do atoleiro do debate sobre anistia a Bolsonaro,
como defende Caiado, e oferecer ao Brasil uma alternativa real de centro.
“Quero muito que a gente possa ter a opção da candidatura de centro, e não
simplesmente uma candidatura na esquerda e três candidaturas do lado da direita
mais radicalizada”, resumiu o governador à CNN, referindo-se às candidaturas dele
próprio, de Caiado e do governador de Minas Gerais, Romeu Zema (Novo). O recado
é direto: o campo não lulista corre o risco de se fragmentar enquanto parte de
suas lideranças permanece presa, por cálculo eleitoral, à órbita do
bolsonarismo.
Em outra entrevista, à GloboNews, Leite
reforçou a defesa de uma candidatura genuinamente de centro – a única que,
segundo ele, ainda não está representada na disputa. Tem razão. Mais do que
evitar a dispersão, o País precisa recuperar “o bom senso” e voltar-se ao debate
sobre “um novo Brasil”. Isso exige uma alternativa que se descole tanto do
populismo da esquerda quanto da vassalagem ao bolsonarismo, à qual nomes de
centro e de direita ainda se mostram atados.
Partidos como o PSD e lideranças como Ratinho
Jr., Caiado, Zema e o governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas, precisam
decidir que papel desejam exercer: ou assumem a condição de forças políticas
com identidade e projeto próprios, ou seguirão como linha auxiliar do
bolsonarismo. Não há mais espaço para essa ambiguidade.
A política não pode se limitar à disputa
entre um populismo já conhecido – que aposta na expansão desmedida do Estado
sem o devido lastro e um modelo que se repete há décadas – e uma reação que se
agarra a lideranças e agendas personalistas e golpistas. Essa dicotomia corrói
a capacidade de formular soluções e impede o amadurecimento democrático.
Por isso, não se trata apenas de discutir a
viabilidade eleitoral, pura e simples, de uma alternativa. A candidatura de
centro, para ter razão de existir, deve ser expressão de uma ideia nova,
baseada na conciliação de diferentes perspectivas e que tenha os olhos no
futuro. Ainda que não triunfe, cumpre papel essencial ao qualificar o debate.
Consolidou-se no Brasil a ideia de que só importa o que vence. Eis o equívoco.
Democracias maduras também se constroem a partir de ideias que sobrevivem às
derrotas e elevam o nível da discussão pública. Mais do que disputar eleições,
isso significa devolver sentido à política.
O apagão da gestão escolar em SP
Por O Estado de S. Paulo
Blitz do TCE expôs a falta de controle sobre
materiais, livros e equipamentos, o que reforça a necessidade de um novo
paradigma: as parcerias público-privadas na administração das escolas
Uma blitz realizada pelo Tribunal de Contas
do Estado de São Paulo (TCE) em escolas municipais revelou um apagão
administrativo nas unidades de ensino. O resultado das visitas-surpresa feitas
por mais de 300 servidores em colégios de 300 cidades paulistas é alarmante. Na
operação deflagrada simultaneamente em quase metade dos 644 municípios
fiscalizados pelo TCE, o que não inclui a capital, os auditores encontraram
material escolar guardado em ambientes sujos e mofados, livros didáticos empilhados
sem uso pelos estudantes e uniformes em condições precárias.
Esses achados indicam uma ineficiência
generalizada: não há procedimentos de controle de material didático em 66% das
escolas visitadas; há materiais obsoletos, como máquinas de escrever, ou
imprestáveis, como computadores inutilizados, em 28% dos locais vistoriados; e
não há registro de perda, extravio, furto ou avaria em 90% das unidades
inspecionadas. Item básico para o dia a dia dos alunos, os uniformes escolares
nem sequer chegam a 59% dos colégios alvos da operação. Ou seja, o quadro
parece ser de total descontrole.
Não à toa, a presidente do TCE, Cristiana de
Castro Moraes, disse ter ficado “espantada” com tudo o que viu. Apesar de já
ter acompanhado o resultado de mais de 50 auditorias, ela afirmou que, desta
vez, as imagens “chocaram muito”. Como bem sublinhou, trata-se de “desperdício
de dinheiro público”.
Mas os problemas vão muito além. Os fiscais
encontraram graves falhas de segurança: nove em cada dez escolas visitadas não
têm um plano de contingência para incêndios ou enchentes e 75% das unidades
vistoriadas funcionam sem o Auto de Vistoria do Corpo de Bombeiros. Se é
inaceitável o atual quadro de gestão dos materiais didáticos, é intolerável o
descaso com a segurança dos alunos.
Tamanho descalabro implica múltiplas perdas.
Faltam procedimentos básicos para a destinação de materiais, para o
armazenamento dos itens e para o controle dos bens que deveriam dar suporte
pedagógico às crianças do ensino fundamental. Mas há também perdas intangíveis,
como a má qualidade do ensino e a defasagem no aprendizado.
Segundo a auditoria do TCE, 28% das escolas
estocam materiais didáticos que nunca foram usados. Sem acesso aos livros ou a
itens básicos, os alunos não aprendem e, quando aprendem, aprendem mal. Isso
talvez ajude a explicar os indicadores sofríveis da educação paulista: enquanto
o Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (Ideb) nas séries iniciais do
Ceará, por exemplo, é de 7,7 pontos, em São Paulo é de apenas 6,2.
A auditoria do TCE escancarou a incompetência
dos gestores no trato da coisa pública, sua negligência no cuidado das crianças
e sua responsabilidade pelo mau desempenho dos estudantes. O poder público
precisa urgentemente encontrar alternativas administrativas que garantam a
eficiência da gestão das escolas. E a concessão da gestão escolar à iniciativa
privada pode ser uma boa solução.
O governo de São Paulo entendeu bem a
importância de mudar o paradigma. A gestão Tarcísio de Freitas já fez leilões
de parceria público-privada (PPP) para a construção, manutenção, conservação
predial, gestão e operação dos serviços não pedagógicos de 33 novas escolas. E
foi autorizada ainda a transferência da gestão de 143 escolas públicas do
Estado à iniciativa privada. Os contratos de concessão não incluem as
atividades pedagógicas: ou seja, quem sabe administrar cuida da gestão escolar
e quem sabe ensinar dá suas aulas.
Como já está provado que boa parte dos
municípios paulistas não tem gestores com aptidão alguma para fazer uma boa
administração escolar, seus prefeitos deveriam se inspirar em iniciativas como
a do governo do Estado e repassar a gestão das unidades de ensino ao setor
privado. Em São Paulo, há inúmeras cidades de médio e grande portes, ricas e
com capacidade para atrair os investidores, enquanto as menores podem formar
consórcios para estruturar PPPs. Todos ganham: as escolas serão bem geridas, e
os alunos terão plenas condições de terem uma educação ao menos satisfatória.
Luz barata na marra
Por O Estado de S. Paulo
Com Lula patinando nas pesquisas, governo
prepara gambiarra para evitar alta da energia
Já se pode dizer que o governo Luiz Inácio
Lula da Silva entrou no modo desespero, o mesmo que caracterizou os últimos
dias da administração de Jair Bolsonaro na Presidência. A meses das eleições, e
na tentativa de reverter os resultados das pesquisas de intenção de voto que
indicam empate técnico entre Lula e o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), o
petista decidiu atuar em todas as frentes possíveis e, agora, quer encontrar
uma maneira de segurar os reajustes nas tarifas de energia elétrica neste ano.
Em ofício enviado à Agência Nacional de
Energia Elétrica (Aneel), o Ministério de Minas e Energia revelou que o governo
estuda ações para “mitigar os impactos dos reajustes tarifários para os
consumidores” e pediu ao órgão regulador que adie decisões que possam resultar
em aumentos na conta de luz.
Pelas projeções da Aneel, se nada for feito,
as contas de luz subirão, em média, 8% neste ano, mas há casos em que os
aumentos podem ser ainda maiores – em Roraima, por exemplo, a tarifa aumentou
24,13% em janeiro.
O documento não diz que alternativas são
essas, mas tudo indica que a bondade será viabilizada por meio de um empréstimo
junto ao Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), de R$ 7
bilhões, para limitar os reajustes à inflação, no máximo.
Segurar preços por meio de empréstimos
bilionários em ano eleitoral não é algo inovador – e, justiça seja feita, nem
foi Bolsonaro quem inaugurou o expediente, mas Dilma Rousseff, em 2014. Naquele
ano, o alívio no bolso do consumidor foi imediato, e a presidente,
diferentemente de Bolsonaro, conseguiu ser reeleita.
Assim que a ex-presidente tomou posse, no
entanto, o rebote chegou, e as tarifas subiram cerca de 50% em 2015. O reajuste
represado, afinal, não desaparece como num passe de mágica – volta ainda mais
salgado nos anos seguintes. Como todo empréstimo, há incidência de juros, e
quem paga não são as concessionárias, mas o próprio consumidor, em sua conta de
luz.
Controlar preços, por si só, já é uma ideia
ruim e inócua, uma vez que ataca a consequência e não a causa do problema. São
momentos como esse que mostram que o País parece condenado a repetir os mesmos
erros, pois nem mesmo um longo histórico de planos econômicos que falharam em
conter a inflação usando desse mesmo artifício parece ter ensinado algo às
autoridades.
O pior é que o reajuste a ser represado não
está relacionado a um descasamento entre oferta e demanda, nem servirá para
arcar com investimentos para evitar um racionamento ou para cobrir o aumento do
custo da energia em razão de uma estiagem prolongada. O que tem puxado as
faturas de energia elétrica para cima nos últimos anos é a explosão de
subsídios escamoteados nas tarifas.
O consumidor pode até não saber, mas é ele quem banca o lucro de empresários que investem em todo o tipo de fonte de energia, seja limpa ou fóssil – de painéis fotovoltaicos, fazendas solares e eólicas a usinas a carvão, diesel e óleo combustível. O custo dessas benesses está embutido em sua conta de luz, e contra esses interesses nem o governo nem o Congresso ousam se insurgir.
É preciso sair do pântano da baixa política
Por Correio Braziliense
O Rio vive uma situação de vacância
institucional rara e perigosa. O que está em jogo é a própria capacidade de o
Estado do Rio de Janeiro ser governado dentro dos marcos republicanos
O Rio de Janeiro vive mais um capítulo de sua
longa decadência política, agora elevado ao paroxismo com a renúncia de Cláudio
Castro e a consequente inelegibilidade que encerrou de forma melancólica seu
ciclo no Palácio Guanabara. Não se trata de um episódio isolado, mas da
expressão mais recente de uma engrenagem institucional que vem falhando
reiteradamente, com crises políticas e administrativas em cadeia. O estado, que
já foi vitrine política e cultural do país, afunda-se num pântano onde se
misturam corrupção estrutural, desorganização administrativa e, de forma ainda
mais alarmante, a crescente infiltração do crime organizado nas estruturas de
poder.
A sucessão improvisada expõe esse quadro com
crueza. Sem vice-governador, com o presidente da Assembleia Legislativa do
Estado do Rio de Janeiro (Alerj) afastado e o comando do Executivo entregue
interinamente ao presidente do Tribunal de Justiça, o desembargador Ricardo
Couto, o estado vive uma situação de vacância institucional rara e perigosa. A
solução prevista — uma eleição indireta pela Alerj — deveria ser um mecanismo
de estabilização. Contudo, transformou-se em mais um fator de incerteza e
descrédito.
A decisão do Supremo Tribunal Federal (STF),
que formou maioria pela votação secreta na eleição indireta, embora
juridicamente defensável, revela o grau de desconfiança que cerca o processo
político fluminense. Ao permitir que deputados escolham o futuro governador sem
transparência, a Corte reforça a percepção de que o jogo se dá nos bastidores,
longe do escrutínio público. A divergência aberta por ministros como Alexandre
de Moraes, Gilmar Mendes, Flávio Dino e Cristiano Zanin, favoráveis à eleição
direta, evidencia que não se trata apenas de uma questão técnica, mas de um
dilema político sobre legitimidade.
O problema de fundo, entretanto, vai além do
método de escolha. O que está em jogo é a própria capacidade de o Estado do Rio
de Janeiro ser governado dentro dos marcos republicanos. A captura de parcelas
do poder por interesses ilícitos e pelo crime organizado corrói as bases da
representação política e compromete a autoridade das instituições. Quando
facções criminosas controlam parte considerável das principais cidades,
economias locais e, indiretamente, processos eleitorais, a democracia deixa de
ser plenamente funcional. Trata-se de uma patologia política.
Esse quadro não surgiu de repente. Ele é
resultado de décadas de permissividade, fisiologismo e ausência de reformas
estruturais. Governos sucessivos falharam em estabelecer mecanismos eficazes de
controle, transparência e responsabilização. A Assembleia Legislativa, que
agora terá a responsabilidade de eleger um governador-tampão, carrega também o
peso da própria crise de credibilidade. Sem uma profunda mudança de
comportamento, corre o risco de apenas reproduzir as práticas que levaram o
estado a essa situação. A glamourização da malandragem é o caldo de cultura
para a baixa política.
É nesse contexto que as eleições de outubro
ganham centralidade. Mais do que uma disputa convencional, elas representam uma
oportunidade — talvez a última de iniciar um processo de reconstrução
institucional. Não haverá solução mágica nem imediata. O Rio precisa de um
projeto político que combine enfrentamento firme ao crime organizado,
reestruturação das finanças públicas e, sobretudo, reconstrução da confiança
entre governantes e governados. Ou seja, um projeto de resgate da boa política,
austeridade e inovação administrativas e reformas das estruturas de gestão.
Emergir do pântano da baixa política exige mais do que trocar nomes. Requer romper com padrões arraigados de clientelismo e opacidade. Significa adotar práticas de governança baseadas em mérito, transparência e responsabilidade fiscal. Implica também em fortalecer os órgãos de controle e garantir que atuem com independência e vigor.
Um combate necessário aos abusos
Por O Povo (CE)
O custo de tudo isso haveria de chegar aos
nossos postos e ao bolso do consumidor brasileiro, mas acontece que ações
mitigadoras adotadas pelo governo foram ignoradas e acabaram servindo para
ampliar os lucros de empresários do setor. Gente inescrupulosa, não há outra
forma de definição
A megaoperação realizada ontem em 11 estados
brasileiros, Ceará incluso, e o Distrito Federal, tornara-se uma necessidade
diante do quadro de abusos observado no País em relação à prática de preços na
comercializaçao de gasolina, óleo diesel e outros derivados
de petróleo. Os aumentos aplicados, tendo como justificativa os acontecimentos
recentes no Oriente Médio, não encontram justificativa no que realmente já
é possível sentir como efeito da guerra que envolve Estados Unidos, Israel e
Irã.
É evidente que se espera algum tipo de
consequência, considerando que os eventos violentos que começaram em 28 de
fevereiro e se estendem até os dias atuais acontecem numa região do globo
terrestre responsável por grande parte da produção que atende diariamente ao
mercado mundial. Portanto, o custo de tudo isso haveria de chegar aos nossos
postos e ao bolso do consumidor brasileiro, mas acontece que ações
mitigadoras adotadas pelo governo foram ignoradas e acabaram servindo
para ampliar os lucros de empresários do setor. Gente
inescrupulosa, não há outra forma de definição.
É importante que os setores competentes do
Estado tenham atenção com o problema, algo demonstrado pelo envolvimento na
operação de ontem da Secretaria Nacional do Consumidor (Senacon) e da Agência
Nacional do Petróleo (ANP), em articulação com os Procons das
unidades federais alcançadas por ela. Há indicações de que distribuidoras e
postos aumentaram os ganhos em, até, escandalosos 70% pelos reajustes nos preços que aconteceram depois do começo da
crise gerada por combates violentos que acontecem a milhares de quilômetros do
Brasil.
O governo federal agiu de imediato,
anunciando uma série de medidas com o objetivo de reduzir o impacto de
acontecimentos sobre os quais não tinha controle. Anunciou a isenção de impostos
federais (Cofins e PIS) sobre o diesel, aumentou o imposto de exportação
sobre o petróleo e criou um incentivo financeiro para produtores e importadores
(subvenção), mas, acontece que toda essa situação foi absorvida como ganho por
muitos empresários do setor, ampliando seus lucros diante da
necessidade de adequar os preços nas bombas à nova realidade de uma queda na
oferta pelos produtores.
É importante que o Estado seja duro com maus comerciantes, até maus brasileiros, que buscam tirar proveito de uma situação crítica para aumentarem os ganhos próprios, até como forma de, na outra ponta, homenagear e reconhecer aqueles que optam pelo caminho da ética e da honestidade em momentos como este que vivenciamos. É preciso considerar ainda, como elemento dificultador, o ambiente cartelizado que caracteriza o setor, meio que impondo preços uniformes e evitando os efeitos positivos de uma concorrência, quando ela é salutar.

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