sábado, 28 de março de 2026

A próxima vítima, por Eduardo Affonso

O Globo

Nesta semana ele matará, com outro nome, outra arma, outras mãos, por outros meios, outra Dana, outra Daniella, outra Claudia

Ângela está caída na areia de Búzios, com três perfurações à bala no rosto e uma na nuca. Tem 32 anos. Em pé, a seu lado, Doca, empresário, entrega a arma ao engenheiro Roberto, que disparará seis vezes contra Jô, 36 anos, em Belo Horizonte. Outro engenheiro, Márcio, descarregará o revólver em Eloísa, 32 anos, enquanto ela dorme. Nas mãos do paisagista Eduardo, o mesmo gatilho será acionado, e mais seis tiros acertarão Maria Regina. É no palco que Lindomar encontra Eliane, 25 anos, e a abate com cinco disparos.

Cláudia também está caída, mas no costão da Niemeyer. Tem 21 anos. Foi violentada e estrangulada pelo traficante Michel e pelo cabeleireiro Georges. Um pouco adiante, quem jaz na calçada da Avenida Atlântica é Aída, 18 anos — abusada e jogada, ainda viva, do 12º andar por Ronaldo e Cássio, estudantes, com a ajuda de Antônio, porteiro. A quilômetros dali, sangra até a morte Daniella, 22 anos, 18 perfurações pelo corpo. O ator Guilherme e sua mulher seguram a faca — ou punhal — que entregarão a Maicol, mecânico. Em Cajamar, ele golpeará Vitória, 17 anos, a quem agrediu e cujos cabelos raspou. A lâmina logo estará com José Cícero, que a usará para dar fim a Yasmin, 27 anos, que tinha contra ele uma medida protetiva e acionara, em vão, o botão de pânico do aplicativo SOS Mulher, de Mato Grosso.

Maria de Lourdes, 25 anos, queima no chão do quartel, em Brasília, depois de levar duas facadas no pescoço. Tainara, de 31, é arrastada pelo asfalto da Marginal Tietê, em São Paulo. O soldado Kevin esfaqueou e ateou fogo. Douglas atropelou e acelerou o carro. Maria da Conceição, 15 ou 16 anos, é degolada, esquartejada e enterrada no quintal pelo desembargador José Cândido. Maria Mercedes, 21 anos, grávida de seis meses, é desmembrada, colocada numa mala e despachada de navio por Giuseppe.

Soa um tiro, e é Sandra quem cai, baleada nas costas — e depois, de novo, na cabeça. O revólver que estava na mão do jornalista Antônio vai para a do motoboy Lindemberg, que atira também duas vezes em Eloá, sua refém por cinco dias. Outras balas atingem o queixo e a mão de Mércia, 28 anos, mas é afogada que ela morrerá, no carro submerso pelo policial Mizael. Isamara, 41 anos, está na festa de réveillon, interrompida por Sidnei, técnico de laboratório contra quem havia feito cinco boletins de ocorrência. Ele a mata a tiros, e a seu filho e a mais nove parentes.

Para Lorenza, a morte vem silenciosa, pelas mãos do promotor de Justiça André, que a dopa e asfixia. São as mãos de Giovane que, após o estupro, apertam o pescoço de Catarina, 31 anos, até que ela não mais respire e jamais chegue à aula de natação, em Florianópolis. Luana, 41 anos, é esfaqueada e estrangulada, e o mecânico Wellington grava a cena, no celular.

Alice, trans, 33 anos, é espancada pelos garçons William e Arthur e não resiste às fraturas e à perfuração do intestino. Gisele está caída na sala, em São Paulo, com um filete de sangue escorrendo pela têmpora e o revólver cenograficamente encaixado na mão. Ainda sem camisa, o tenente Geraldo recebe o abraço do amigo desembargador e a solidariedade do amigo coronel. Nesta semana ele matará — com outro nome, outra arma, outras mãos, por outros meios — outra Dana, outra Daniella, outra Claudia, outra Sandra, outra Catarina, outra Vitória, outra Raiane, outra Tainara, outra Mércia, outra Maria, outra Aída, outra Eloá, outra Gisele, outra Ângela.

 

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