Valor Econômico
Nos últimos quatro anos todos os pretendentes
à direita fora da família Bolsonaro não tiveram a coragem de buscar a
independência, seja por amor ou medo do patriarca
O bolsonarismo tem significado a redenção e a
desgraça da direita brasileira. Esse paradoxo está ficando cada vez mais claro
com a crise na campanha presidencial de Flávio Bolsonaro. Suas relações com
Daniel Vorcaro são mal contadas e injustificáveis, pensam aliados e outros
candidatos do lado direitista. Porém, como criticar profundamente ou abandonar
o filho de um grande líder popular que reordenou o mapa ideológico do país,
antes com predomínio inconteste do espectro que vai do centro para a esquerda?
Compreender as razões desse dilema é fundamental para a direita não bolsonarista. Ela vive hoje uma espécie de Síndrome de Estocolmo, caracterizada por uma simpatia ou lealdade irrestrita em relação ao sequestrador. O bolsonarismo sequestrou quase todos os políticos direitistas e mesmo uma parcela mais ao centro. Tal aprisionamento impede críticas às posições ou atos da família Bolsonaro e dificulta sobremaneira um projeto efetivamente independente de poder, mesmo quando hoje temos mais presidenciáveis à direita do que à esquerda.
Não se trata de um feitiço político. Há
quatro razões objetivas que explicam essa dificuldade de se libertar do
sequestrador. A primeira é que o bolsonarismo conseguiu tornar a direita
palatável e popular no país, pois Jair Bolsonaro nunca mascarou suas ideias e
por meio delas chegou ao Palácio do Planalto. Claro que políticos direitistas
sempre foram fortes no país, particularmente no Legislativo e nos governos
locais. Contudo, tinham medo de dizer seu próprio nome, e isso ficou ainda mais
destacado a partir da redemocratização, quando as ideias da direita eram
remetidas ao período da ditadura militar e a um certo elitismo social.
O bolsonarismo deu amparo para quem quisesse
ser chamado de direitista. Mais do que isso, gerou um projeto de poder com base
popular, capaz de eleger um presidente da República. Isso não quer dizer que a
direita, sozinha, seja capaz de ter hegemonia política no país - e nem a
esquerda tem esse poder. Também não é verdade que haja um único ideário de
direita - ao contrário, há várias tonalidades possíveis. Basta lembrar que os
bolsonaristas concentram seu discurso no campo moral e quando estiveram no
poder não levaram adiante nem uma agenda liberal à Javier Milei, nem foram
nacionalistas econômicos como Trump está tentando ser no seu segundo mandato.
A diversidade de posições à direita e de
centro-direita de fato existe em forças sociais e políticas brasileiras. No
entanto, quem gritou mais alto e sem vergonha que era direitista foi o
bolsonarismo, mesmo que sua corrente seja uma das formas possíveis desse
espectro político, num ponto mais extremo dele.
Verdade que desde a década passada o MBL -
hoje um partido, o Missão - trouxe à tona essa identidade, só que não ganhou a
liderança do movimento. Isso coube a Jair Bolsonaro e sua vitória eleitoral em
2018, que levou direitistas ao poder, depois o distribuiu entre os aliados e
tentou reverter a hegemonia mais à centro-esquerda que dominava a eleição
presidencial e o discurso político-cultural.
Numa democracia, o peso eleitoral faz muita
diferença. E aqui entra uma segunda razão que explica por que o bolsonarismo
aprisionou o restante da direita em seu casulo. Os bolsonaristas-raiz,
comandados diretamente pela família, conseguem ter um piso entre 20% e 30% dos
votos do eleitorado brasileiro. Não têm a maioria dos eleitores ao seu lado,
como comprova a derrota do projeto reeleitoral de Jair Bolsonaro, mas criaram
uma barreira de entrada para outras forças de direita e mesmo do centro
entrarem no jogo político maior da eleição presidencial.
O exemplo do escândalo de Flávio Bolsonaro e
suas relações mal explicadas e antirrepublicanas com Daniel Vorcaro, que era
líder de crime organizado e não banqueiro, revela bem a força que tem um piso
eleitoral alto. É bem provável que o senador perca pontos nas próximas
pesquisas, mas é muito difícil que caia para menos de 20% ou deixe de ficar na
frente dos outros de seu front ideológico, como Zema, Caiado e Renan Santos.
Daí que é muito tentador manter até o final uma candidatura quando se domina um
espectro político e se há chances grandes de ir ao segundo turno.
Entretanto, se esse derretimento continuar, o
que tende a ser alavancado por tanta coisa a ser descoberta na cleptocracia
bolsonarista que governava o Rio de Janeiro, Flávio Bolsonaro perderá a eleição
presidencial para manter a hegemonia da família dentro do bloco direitista.
Quem não tem esse piso eleitoral alto, mas
não quer que Lula continue como presidente, deveria se contrapor e defender um
projeto independente de poder. Zema arriscou ir por esse caminho, mas desistiu
rapidamente, quase se desculpando. Caiado foi tão educado nas críticas que
ninguém percebeu que ele as fez. O único que teve coragem de desafiar o bolsonarismo
foi o Missão e seu candidato presidencial - se os Bolsonaros conhecem
Maquiavel, deveriam temê-los.
Por que tanto medo e hesitação no momento em
que Flávio Bolsonaro foi pego com a boca na botija com o maior larápio do país?
É importante frisar que não é a primeira vez que a direita não bolsonarista
retrocede em sua busca por independência. O caso mais conhecido foi o de Sergio
Moro, que saiu do governo de Jair Bolsonaro propondo uma revolta ampla, dizendo
que iria desvendar muitos escândalos, e hoje é um soldado apático e servil do
bolsonarismo.
O medo da perseguição bolsonarista,
especialmente nas redes sociais, é o terceiro ingrediente da Síndrome de
Estocolmo que tomou conta da direita. Por ora, é inegável a capacidade de o
bolsonarismo destruir reputações e carreiras políticas de gente do seu mesmo
espectro político ou de ex-aliados. Praticamente todos que saíram do ventre
eleitoral comandado pela família Bolsonaro e desafiaram o clã político estão
hoje menores politicamente. Para usar a linguagem militar, trata-se de um fator
dissuasório para os pretendentes a dissidentes. É uma patrulha ideológica
eficaz, tal como outras que a esquerda usou no passado aos que abandonavam o
ideal comunista.
O bolsonarismo deu identidade e poder à
direita, tem um piso eleitoral muito alto, sabe dissuadir dissidentes com
grande eficácia, e, como quarto fator do poder de aprisionamento do seu
espectro ideológico, edificou firmemente uma causa comum: o antipetismo e a
oposição ao presidente Lula, visto como o principal inimigo a ser batido. Por
meio desse objetivo, o mais estratégico de todos, os bolsonaristas clamam pelo
esquecimento das brigas ou escândalos da família que comanda o movimento, dado
que há um projeto unificador que só pode ser realizado com o apoio inconteste
ao líder mais forte: Jair Bolsonaro ou quem ele indique.
É por meio desse discurso do inimigo comum
que o bolsonarismo vai atacar os direitistas que ousarem criticar Flávio
Bolsonaro e sua busca pelo patrocínio de Daniel Vorcaro. Há o risco de descobrirem
mais histórias mal explicadas, ou até “videozinhos do senador”, mas sempre se
retornará à questão central: só um Bolsonaro pode chegar a um segundo turno
contra Lula. Na verdade, seria mais fácil um candidato que não viesse da
extrema direita vencer a disputa presidencial, do mesmo modo que o lulismo
cresce toda vez que acena para um eleitorado mais amplo.
O problema é que nos últimos quatro anos
todos os pretendentes à direita fora da “família real” não tiveram a coragem de
buscar a independência frente ao bolsonarismo, seja por amor ou medo do
patriarca. O que ganharam Zema, Caiado, Tarcísio, Ratinho e outras lideranças
mais à direita indo a comícios na avenida Paulista de defesa da anistia a Jair
Bolsonaro? O direito de ficarem calados toda vez que houver algum escândalo
envolvendo a família Bolsonaro.
Fica a lição: só se mudará essa realidade na
direita, ou mesmo no centro, buscando um caminho alternativo no início do
próximo período presidencial. Quem tentar montar um projeto somente no final do
quadriênio, às vésperas da eleição, não terá tempo para mudar o jogo. A coragem
de escolher um caminho próprio é um processo e não um lampejo frágil de quem é
dependente politicamente. Cabe recordar que ao início Jair Bolsonaro era visto
como uma caricatura, percorreu todo o Brasil e construiu uma candidatura.
Quem estiver no mesmo espectro eleitoral
deveria guiar sua própria trajetória, pois os políticos ou partidos só se
tornam fortes ao longo da história quando são livres e independentes de
qualquer tipo de mito ou aprisionamento a um grupo.
Tal subserviência não é o único efeito dessa
Síndrome de Estocolmo. Ao se colar completamente ao bolsonarismo, as direitas
deixaram de discutir ideias sobre democracia, políticas públicas e o papel do
Brasil no mundo, questões cujos resultados foram desastrosos no governo
Bolsonaro. É fundamental ter conservadores e liberais com um projeto claro,
para não dizer de um centro robusto, essencial para o equilíbrio das
democracias. Antes, todavia, é preciso se libertar dos grilhões que os
acorrentam a uma família que tem muitos esqueletos no armário, numa narrativa
que é dominada agora pelo ponto e vírgula, uma vez que a única coisa certa é
que Flávio Bolsonaro desmentirá o que disse ontem.
*Fernando Abrucio, doutor em ciência política pela USP e professor da Fundação Getulio Vargas.

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