Folha de S. Paulo
Há quem aposte que, apesar das mentiras e
armações, senador voltará a se revelar competitivo
Desgaste é grande e atinge direita Master e
seu espectro conservador que se estende ao mercado
Depois do flagra no escurinho do cinema,
quando o site Intercept
Brasil publicou o áudio de sua tentativa de pegar dinheiro de Daniel Vorcaro para
supostamente financiar a cinebiografia de seu pai, Flávio Bolsonaro vem
sofrendo desgaste sobre desgaste. "Dark Horse", azarão em inglês, bem
que poderia ser intitulado "O Pangaré Obscuro"
O filme do senador e pré-candidato pelo PL foi queimado por ele mesmo. Sua ascensão nas pesquisas, que causou frisson nos mercados, sofreu um cavalo de pau. Flávio mentiu e continua mentindo para tentar escapar dessa fase negativa. A questão é saber se ele ainda poderá se apresentar como candidato competitivo quando a campanha de fato começar.
Gente ligada ao mundo das pesquisas e do
marketing político-eleitoral tem dito que os danos não serão tão profundos e
poderão ser superados. Sim, a perspectiva, pelo menos, é a de que a eleição vá
a segundo turno. E se Flávio estiver lá, vai saber.
Veremos. Por ora a situação é desastrosa para
o bolsonarismo e a direita. Lula é um animal político e eleitoral, tem a
máquina na mão, prepara novas
medidas de impacto popular e ganhou um farto material para
ajudá-lo na tarefa de detonar a imagem de seu concorrente, que já não tinha
muito a mostrar além do nome do papai.
O senador é uma nulidade. Sua eleição seria,
certamente, um retrocesso histórico para o Brasil. Até mesmo os setores mais
irresponsáveis do mercado financeiro, sempre inclinados a topar tudo pela
derrota de Lula e do petismo, claudicaram diante do espetáculo de submissão à
máfia do Master.
Não quer dizer que trocarão de ideia caso não
se veja escolha diferente. No nosso continente do neoliberalismo sob Pinochet,
valores democráticos são com frequência apenas enfeites para a busca a qualquer
preço de um capitalismo radicalmente elitista e antipopular. É o que o filósofo Vladimir
Safatle chamou de "complexo de Vargas Llosa".
A hipótese de afastamento de Flávio Bolsonaro
pode até ser desejável, mas um tanto complexa. Que nome poderia unir a direita
com a bênção do capitão recluso?
No rooftop da Faria Lima alguém falou
em Renan Santos?
Que missão!
Seria, no final das contas, mais razoável
tentar algum tipo de composição com o lulismo em sua última grande investida
com a presença do maior líder da centro-esquerda e da política brasileira das
últimas décadas.
Mas isso, vamos ser razoáveis, não existe —é
impossível, basta ver as opiniões espumosas dos porta-vozes do mercadismo sem
freios de plantão.
Como escrevi
aqui, o terreno está minado e novas explosões podem ocorrer,
inclusive com estilhaços à esquerda. Mas vale insistir: o Master é um escândalo
fortemente ligado à direita. Nasceu durante o Banco Central de Jair e Campos
Neto, e varreu a tigrada do centrão e do bolsonarismo, como se observa agora
com as reinações de Flavinho.
A manter-se a candidatura do primogênito do
clã Bolsonaro, estaremos embarcando numa disputa da mais baixa qualidade, um
verdadeiro filme de terror moral e ético, que ainda acabará sendo tratado como
"normal" por setores expressivos do establishment.
A degradação política a que assistimos
encontra cada vez menos quem com ela se espante. Como se sabe, não é apenas um
caso brasileiro, o que só piora o cenário.

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