Veja
As três alternativas para resolver a crise
institucional
Na trajetória recente do Brasil, jamais uma indicação presidencial ao STF havia sido recusada pelo Senado. Tampouco havia precedente de ministros agindo abertamente contra uma indicação do chefe do Executivo para a Corte máxima. Tudo isso em meio a escândalos que abalam a República. O contexto aponta para uma nação mergulhada em uma profunda crise institucional — algo que, acredito, ninguém desconhece. Mas até onde isso vai chegar? Há saída para esse impasse? Ou o que se vê no fim do caminho é um obstáculo ainda maior? As crises costumam se resolver com grandes negociações e com a queda de quem estava no comando. Foi assim em 1930, com a revolução; em 1945, com a redemocratização; em 1964, com o golpe cívico-militar; em 1985, com a reabertura democrática; e nos dois processos de impeachment presidencial. Entre grandes acordos e viradas bruscas, o país navega de crise em crise.
A tendência, especialmente em ano eleitoral,
é que a crise recaia sobre o principal responsável pelo cenário: o presidente
da República, cada vez mais fragilizado, à frente de um governo desorganizado,
dependente do STF para tomar decisões e do clientelismo para manter sustentação
no Congresso. O ônus recai sobre quem conduz o espetáculo — e o espetáculo vai
mal. Para os mais radicais, o terceiro governo Lula encerrou-se
com a derrota no Senado. Pode ser que sim, pode ser que não. Para parte
expressiva do eleitorado, esse revés pode ser decisivo nas eleições. Por outro
lado, se quiser transformar a adversidade em oportunidade, Lula pode afirmar
que se recusou a ceder a pressões indevidas em troca da aprovação de Jorge
Messias. Uma parcela do eleitorado pode aceitar essa versão. Mas, talvez, falte
energia para o confronto advindo desse posicionamento.
“A democracia brasileira tem mostrado
resistência, mas resistência não significa invulnerabilidade”
Um governo enfraquecido não foi capaz de
conter a crise institucional. Pelo contrário, acabou por aprofundá-la na
tentativa de avançar em sua própria agenda. Quando o equilíbrio entre os
Poderes se rompe, todos saem prejudicados. No caso específico da rejeição a
Jorge Messias, todos saíram prejudicados. Diante desse cenário, três caminhos
se apresentam: o acordo, o atrito ou a ruptura. O acordo é a saída tipicamente
brasileira — articulada nos bastidores, ela restaura a aparência de
normalidade. Para isso, seria necessário que o Planalto tivesse humildade para
reconhecer as derrotas, que o Senado demonstrasse moderação e que o STF
mostrasse disposição para recuar dos espaços que ocupou de forma excessiva. O
atrito representa a via do desgaste contínuo: Poderes em conflito permanente,
decisões individuais que geram reações no Legislativo, CPIs como resposta a
investigações. Nesse cenário, não há vencedores.
A ruptura, por fim, é a possibilidade que
ninguém ousa mencionar. Não se trata de uma ruptura nos moldes do passado, com
forças militares. Fala-se de rupturas silenciosas: a deslegitimação de um dos
Poderes, o impeachment transformado em instrumento corriqueiro, a
judicialização da política, o populismo que ignora as mediações democráticas. A
democracia brasileira tem mostrado resistência, mas resistência não significa
invulnerabilidade. Das três alternativas, o Brasil historicamente optou por
acordos. A questão é saber se ainda existem lideranças capazes de construir o
entendimento.
Publicado em VEJA de 1º de maio de
2026, edição nº
2993

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