Correio Braziliense
Lula e seus auxiliares ainda não entenderam o
novo mundo novo. O distanciamento da realidade resulta nas derrotas no
Congresso e na alta rejeição, em especial, entre os jovens
Os teóricos do Partido dos Trabalhadores têm dificuldades em enxergar as causas de o presidente Lula enfrentar alto nível de rejeição no eleitorado brasileiro. É o que indicam pesquisas de opinião que bombardeiam o eleitor a cada semana. Elas demonstram que o candidato do PT, veterano de sete eleições (venceu três e numa delas emplacou o poste chamado Dilma Rousseff), tem sofrido o natural desgaste dos materiais. O discurso é o mesmo, o populismo radical não se renova, nem percebe a velocidade de mudança para o mundo cibernético e informatizado. Importante alerta veio da derrota no Senado na histórica rejeição de Jorge Messias para integrar o Supremo Tribunal Federal (STF).
O mundo das antigas alianças e certezas
estratégicas naufragou dentro e fora do país. O desenrolar da guerra na Ucrânia
é relevante. O colosso russo invadiu a pequena Ucrânia. Era conflito para ser
resolvido em duas ou três semanas, no estilo da antiga União Soviética. Mas já
se passaram quatro anos, e a guerra não sai do lugar. Putin cometeu erro de
avaliação e paga caro pelo equívoco. Nas últimas semanas, as forças ucranianas
atacaram com êxito bases militares nos Montes Urais, distantes da frente de
batalha. O Kremlin está vivendo um pesadelo como consequência da desconhecida
capacidade da Ucrânia de resistir e atacar.
A diplomacia brasileira colocou-se ao lado de
Moscou, porque o país precisa do petróleo russo, vendido abaixo do preço
internacional, e dos fertilizantes, ingredientes básicos para o agronegócio.
Mas o governo brasileiro corre o risco de ficar na posição errada da história.
Desde o fim da Segunda Guerra Mundial, o Itamaraty costuma acertar o lado
vencedor dos conflitos mundiais. Mas, desta vez, pode ter cometido erro grave
por ter ficado contra a Ucrânia. O presidente Lula tem se manifestado a favor
do Kremlin, nesse episódio, contra a opinião da maioria dos governantes
europeus e do povo brasileiro.
Outro equívoco monumental foi cometido pelo
falante presidente dos Estados Unidos, Donald Trump. Ele achou que o Irã era
igual à Venezuela. O passeio, que foi a invasão de Caracas e a prisão de
Nicolás Maduro, não se repetiu em Teerã. Lá, os norte-americanos encontraram
feroz resistência. O Estreito de Ormuz foi fechado, e o preço do petróleo
explodiu. Trump, o confuso, provocou inflação no mundo inteiro, em especial no
mercado interno dos Estados Unidos. Uma ação desastrada provocou reações
contrárias em todo o planeta. Os governos europeus não entraram na aventura.
Os Emirados Árabes Unidos, que juntos
constituem o terceiro maior produtor de petróleo do mundo, decidiram deixar a
Organização dos Países Produtores de Petróleo, a Opep. Vai haver maior
volatilidade no preço do produto. O barril de petróleo está na faixa de US$
115. Esse preço tem o poder de provocar recessão. O Brasil vai sofrer menos
porque produz cerca de 70% das suas necessidades. Mas importa o produto
refinado, na forma de gasolina e óleo diesel. O país vai pagar pela falta de
refinarias. A situação poderia ser resolvida se os teóricos do PT tivessem
olhos para necessidades nacionais. Mas o partido só enxerga as eleições para
presidente e o governo de São Paulo.
Outra novidade interessante vem do extremo
norte. Já escrevi sobre a possibilidade de surgir um polo de desenvolvimento em
Roraima. Aconteceu. O pessoal da soja descobriu a região ao norte de Boa Vista,
com muita água e terra boa. Mais: os agricultores perceberam que podem exportar
pelo porto de Georgetown, capital da Guiana, que fica a 600 quilômetros da
fronteira com o Brasil. A Guiana é o país que mais cresce no mundo por causa da
recente descoberta de petróleo. A estrada entre os países está sendo asfaltada.
A soja produzida em Roraima vai abastecer os mercados do Hemisfério Norte.
O Norte é a nova fronteira do
desenvolvimento brasileiro. No Amapá também vai ocorrer uma explosão de
crescimento por causa da descoberta de petróleo na Margem Equatorial. A pequena
cidade de Oiapoque, na fronteira com a Guiana Francesa, ganhou novo aeroporto e
sua população quase dobrou nos últimos meses. No entanto, tudo ocorre à revelia
de Brasília. O presidente do Senado, Davi Alcolumbre, é do Amapá. Ele sabe por
onde tramita o desenvolvimento regional do país.
O petróleo vai acabar algum dia. O país precisará modificar sua matriz energética. Cada vez mais será eólica, solar e hidroelétrica. O tempo dessa mudança será menor, menos dolorido e de menor custo se os dirigentes brasileiros decidirem trabalhar em vez de distribuir benesses de curto prazo na tentativa de vencer a próxima eleição. Mark Carney, primeiro-ministro do Canadá, percebeu que o mundo vive uma ruptura. Lula e seus auxiliares ainda não entenderam o novo mundo novo. O distanciamento da realidade resulta nas derrotas no Congresso e na alta rejeição, em especial, entre os jovens.

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